
Colunas: DAGUERREÓTIPOS
Traquéia
por Tom Correia
“...Cão! — Alma de inferior rapsodo errante!
Resigna-a, ampara-a, arrima-a, afaga-a, acode-a
A escala dos latidos ancestrais...
E irá assim, pelos séculos, adiante,
Latindo a esquisitíssima prosódia
Da angústia hereditária dos seus pais!”
Versos a um Cão,
Augusto dos Anjos
(1894-1914)
Se eu tivesse dado a volta e entrasse pelos fundos através da janela alta talvez o surpreendesse mas a sua tática de guerrilha para me emboscar era eficiente e eu tinha de me cuidar para não facilitar demais as coisas para ele. Comecei a minha investida já no prejuízo pois, ao pular para dentro, pisei em falso numa pedra pontiaguda, que me levantou a unha maior e aquilo me doeu tanto, mas tanto, que chegou a anular a dor que eu deveras sentia. Eu respirava profundamente para tomar coragem de começar a amputar sem mais delongas uma parte do meu corpo e era óbvio que ele já havia me percebido, não só pelo horário, não só por mim mesmo, mas também pelas minhas barulhentas cafungadas e estava apenas me dando um tempo para que eu pudesse me agachar e assim ficasse ainda mais vulnerável. Eu apertava meu pé tentando estancar o ferimento e recordando que sempre detestei me ralar desde o tempo em que jogava golzinho debaixo de chuva e às vezes errava o cálculo ao chutar a bola e ouvia o aspérrimo som do meu pé se arrastando pelo aspérrimo asfalto e via desolado que havia uma rodela em carne-viva na ponta do meu dedão. Aquilo ardia muito, principalmente na hora do banho. Eu me encontrava tateando o pé no escuro evitando tocar na ferida e já com a quase coragem me tomando aos poucos quando o desgraçado deu um salto repentino, mas um repentino pelo qual eu esperava e até ansiava, e cravou exato seus dentes na minha mão atravessando-a de um lado a outro, ficando agarrado sacudindo a cabeça, silencioso e selvagem, abrindo uma ferida ainda maior e eu para evitar ter a carne dilacerada, numa rápida manobra agarrei seu pêlo e enfiei meu braço o mais fundo que pude pela sua garganta abaixo e ouvi ele ganir sem ar abrindo a boca para não sufocar e pude então retirar minha mão já sob uma espessa camada de espuma raivosa misturada ao meu sangue. Comecei a distribuir vários socos randômicos seqüenciados, fortuitos, pois sabia que eu o atingiria mais cedo ou mais tarde, só que foi bem mais tarde (ele tinha boa esquiva) e isso me deixou logo muito cansado, sem resistência, o que aumentou sobremaneira a sua vantagem. O pouco que vi com meus olhos lacrimejantes através da penumbra nos seus olhos coléricos me deu a certeza de que a minha unha e dedo e mão esfolados não significava o pior, pois foi quando eu finalmente encaixei um cruzado no seu focinho, que ele, bandeando e uivando tornou-se mais furioso, mostrando seus belos dentes sem nenhuma cárie aparente e pulando à altura do meu peito me desequilibrando facilmente devido à semi-escuridão, algo que me deu um tempo ínfimo suficiente apenas para proteger meu rosto e oferecer a ele o meu antebraço como tira-gosto. Enquanto rolávamos pelo piso frio eu tentava pensar por ele e até que nem era tão difícil assim: éramos de igual natureza e nossos ataques e defesas tinham a lógica dos guerreiros astutos. Diadorim, meu vira-lata hermafrodita, jamais sequer rosnou para mim em vinte anos de convivência, nem mesmo quando ele se encontrava agonizante e trêmulo escondido debaixo da minha cama e teve o seu rabo puxado com força: ainda que sem saber como, eu tentava adiar a sua morte. Nos dias de chuva, ele fazia xixi abaixado; nos dias de sol, ela levantava a patinha e isso me confundia mais do que me divertia. O infeliz estava mesmo decidido a me trucidar e não tive outra opção a não ser morder sua orelha, empapando de sangue minha camisa de propaganda política das eleições de 92. Mordi mesmo com bastante dedicação e senti logo o gosto dos seus pêlos molhados pela minha saliva ferruginosa. Ele, agora sem orelha, transformou-se num possuído querendo se vingar a qualquer custo, partindo direto para a minha aorta querida, para as minhas amígdalas favoritas. Cuspi os pedaços peludos para longe enquanto pensava que se fosse ele, tentaria o mesmo e talvez até com mais perversidade e alegria, eliminando a mim e aos homens numa sanha sanguinária seriada pois são eles que chutam os cachorros, é que cospem nos cães, é que lhes dão pontapés e em contrapartida exigem um rabo abanando de modo submisso e imediato. Mais uma vez ele revigorou-se de ódio, ganindo de infelicidade e arremetendo contra mim como os boxeadores nocauteados em pé fazem no último dos assaltos. Eu já estava encharcadiço de sangues e de babas enraivecidas, minha unha já havia sido bruscamente retirada durante o entrevero e foi só então que percebi o quanto estávamos exaustos. Ele latia ressentido mas também querendo trégua pois já havia perdido metade da orelha, um van gogh canino sem auto-retrato nem girassóis e eu também já estava bastante combalido. Eu queria estar no lugar dele. Àquela altura, se fosse ele, fingiria que me recolheria a algum recanto da casa que eu não conhecesse até que me sentisse plenamente em condições de engendrar um assalto final. O miserável leu meus pensamentos e depois de sumir em silêncio por um tempo mínimo, voltou misantrópico e determinado a me rasgar o pescoço, o único pescoço aliás, que eu tinha disponível. Aquele era um animal de sangue muito quente, um cachorro quente contra o qual eu lutava com a melhor das minhas técnicas: minha lealdade a ele. Mais socos e mordidas depois nos convencemos de que era obrigatório parar com aquilo para sairmos dali ainda com alguma vida. Comecei a remover as pilhas de tábua barata e ele começou a arrastar os sacos de areia que bloqueavam a entrada da casa molhada. Trabalhamos bem em equipe mas regularmente nos olhávamos às esguelhas, ainda receosos de uma traição que naquele ponto seria letal para o traído. Por fim pudemos sair, quase lado a lado. Se ele fosse eu, iria comprar gaze, esparadrapo e água oxigenada, tomaria injeção na barriga; se eu fosse ele, iria lamber minhas feridas (se bem que seria meio complexo lamber a própria orelha, mas os cães são sempre safos) e diria quando chegasse em casa “querida, hoje tive uma noite de cão” e muito contente a ouviria latirrindo com a minha piada. Sim, se eu fosse ele, trataria de arranjar ao menos uma esposa espirituosa. Mas além disso se eu fosse ele (eu queria ser ele!) guardaria na mente o meu bafo de gins antigos e a minha imagem em preto e branco para que não houvesse espaço para a dúvida quando chegasse a hora da revanche final, do embate decisivo, do play-off, da melhor-de-três, do mata-mata, do tie-break. Eu queria ser ele e isso só não seria bom porque era improvável que deixassem um homem em forma de cão entrar no bar para que ele bebesse com calma enquanto avaliava seu estado de dúvida permanente. E todos os cachorros que tive na infância (exceto Diadorim) se tornaram uma lembrança agressiva e feroz me fazendo ver que sendo ele não confiaria mais em cachorro algum; e que sendo eu, não confiaria mais em homem nenhum. Nos separamos na calçada tomando rumos opostos e temporários: ele seguiu manquitolando com sua orelha pingando sangue e com minha mão pingando sangue eu segui manquitolando. Era cedo ainda mas parece que era dia de final de novela ou de campeonato ou então algo muito importante devia estar sendo transmitido porque havia poucas pessoas nas ruas e quase ninguém notou aquela minha deplorável condição de mendicância atropelada. Fui para o bar pensando nele e me arrependi de não tê-lo convidado para um trago, para uma celebração de uma sólida e confiável inimizade eterna. Senti a sua falta e, sendo ele, senti a minha falta também. Queria marcar logo a negra, a decisiva, já que aquela havia sido a segunda vez que saíamos na mão, na pata. Dois empates encardidos dentro da casa molhada que eu queria muito para mim mas que aquele desgraçado que eu amava tanto impedia por estar apenas cumprindo ordens de um outro homem-cão.
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