
Ensaio
Jorge Luis Borges e o jogo produtivo das fronteiras
por Állex Leilla
"As pessoas fortes não são as que ocupam um campo ou outro, é a fronteira que é potente." -
Gilles Deleuze: Conversações
A partir da leitura e comparação entre os textos Autobiografia e Cinco visões pessoais, de Jorge Luis Borges, este trabalho pretende discutir questões referentes às diferentes formas de subjetividades literárias presentes na escrita borgeana, tendo em vista a linha de pensamento e processo criativo escolhido pelo autor para lidar com os vários “eus” construídos e desdobrados em sua produção literária. Quer se considerar, aqui, a problematização que o escritor argentino faz dos gêneros Autobiografia e ensaio, ao selecionar, nos textos acima citados, aquilo que compreende um percurso autoral, de referências e afetos intelectuais, em detrimento de dados biográficos, confissões, desabafo, depoimento, posicionamento etc., mais comuns a esses dois gêneros.
O ensaio, gênero misto por excelência, de caráter aberto, foi um dos campos produtivos que exerceram maior atração para Borges, chegando-se a ponto de, quase sempre, seus leitores não poderem distinguir até onde ia sua produção ensaística, até onde começava a ficcional. Ou seja, para o leitor borgeano, nunca é possível definir os limites entre o que é um conto, o que é um ensaio. A linha de delimitação entre essas duas formas discursivas parece sumir dentro da neblina borgeana, onde as exclusões são deixadas para trás, e as conjunções ganham força. Essa articulação entre uma linguagem considerada mais científica (a do ensaio) com a linguagem artística (do conto), a partir de uma presença e/ou ausência dos mecanismos de elaboração próprios de cada escrita, ou mesmo da confusão e subversão deles, deu à produção de Jorge Luis Borges a capacidade de jogar com um saber intermediário, fronteiriço, que se movimenta a partir de idas e vindas entre o que seria espaço científico e o que seria espaço literário. E essa força produtiva consegue atingir esse percurso sinuoso e lúdico, justamente, por lidar de maneira consciente e ampla com o que é chamado subjetividade literária ou multiplicidade de “eus”.
Segundo Sabrina Sedlmayer, tanto Fernando Pessoa quanto Jorge Luis Borges são produtores de uma escrita que não mais acatavam o modelo do sujeito unificado, uma vez que tal modelo já estava falido, sendo que ambos os autores efetuaram, progressivamente, o deslocamento da idéia de sujeito para a da subjetividade. Para ela:
Anteviram [os dois autores] que a noção de sujeito não comportava mais uma pluralidade de sentidos e não deveria ser considerada apenas uma questão de representação, nem somente como uma figuração momentânea de um eu (marca da subjetividade que, para Benveniste, se mostra através do embate dialético com o tu), que se encena em um determinado tempo e espaço. Em Pessoa e Borges, o pronome de primeira pessoa foi incumbido, não apenas de colocar em evidência a voz que enuncia, como, também, de indagar, reflexivamente, sobre os lugares de quem lê e de quem escreve.
Dessa forma, as subjetividades em Borges se inscrevem não só em poemas e contos, mas, também, em gêneros inacabados e mistos – como o são a Autobiografia e o ensaio –, optando, antes, pelo percurso do “que/quem me move?” (quais forças me mobilizam, me levam adiante?, diria Deleuze) do que pelo clássico “quem sou eu?”
Para alguns estudiosos da obra borgeana, entender os símbolos referenciais dessas outras subjetividades movidas pelo autor de Ficções – tais como o labirinto, os jardins, os acasos, os espelhos, os atos e gestos repetitivos, os sonhos, a tradição, a biblioteca etc. – é participar de todo um projeto co-criador, uma espécie de “teoria do próprio ato de leitura”, esta, aliás, considerada por Borges uma rede tão complexa de mecanismos operacionais que exerceu sobre ele um enorme fascínio.
Em Cinco visões pessoais, conjunto de textos obtidos a partir de palestras ou lições que Jorge Luis Borges ministrou na Universidade de Belgrano, na Argentina, a preocupação do autor com a leitura e toda a sua rede de autores e livros eleitos, sua biblioteca pessoal, é visível desde o prefácio até a última “aula”. Uma vez publicadas em livro, tais aulas/lições ganham um “ar” de ensaios borgeanos, no sentido que incorporam o jogo de envolvimento e ficcionalização dos vários “eus” presentificados nos seus textos: o leitor, o crítico, o escritor, o aprendiz, o mestre. Vê-se não os liames de um autor empírico, o Jorge Luis Borges convidado a ser professor, a ensinar na academia, mas um sujeito-leitor-produtor-crítico que se constrói a partir de uma mistura entre os sentidos daquilo que seu próprio corpo apreende (as sensações) e as dimensões, físicas e abstratas, daquele objeto fascinante, considerado o principal e mais espetacular instrumento já inventado pelo homem: o livro. Borges afirma não poder imaginar sua vida sem tal instrumento, definido, por sua vez, como uma extensão da memória e da imaginação.
Tal concepção já traz em seu interior a idéia de que o livro não é o produto individual de um determinado criador, e sim, uma complexa articulação entre sujeito e coletividade, uma vez que tanto na noção de memória quanto na de imaginação ele prevê uma “biblioteca da humanidade” e um “passado” que seria como uma série de sonhos, apenas possível de ser recordado através do livro, ou melhor, da articulação entre livro e leitor.
Nos ensaios constantes em Cinco visões pessoais, o desejo de questionamento dos saberes organizados é visível e reforça a característica do móvel, do inacabado, do aberto, do lúdico, a exemplo do quarto texto, intitulado “O conto policial” em que o autor, em meio a uma defesa e homenagem a um gênero que lhe era caro, sustenta a tese de que os acontecimentos não são ocorrências físicas, materializadas, e, sim, uma questão de desvendamento. Ou seja, não existem eventos reais, numa instância exterior ao sujeito, mas olhares que capturam elementos passíveis de serem reais, pois são a imaginação e a memória que efetivam os eventos.
Evidentemente que, após as teorias de Michel Foucault acerca das formações discursivas e suas relações com a instauração de determinadas verdades num tempo e espaço, o questionamento da existência de uma “verdade” enquanto algo independente da interpretação passou a ser lugar-comum, principalmente em áreas historicamente mistas e dadas a maior abertura, como é a dos Estudos Literários. Entretanto, a assertiva borgeana citada acima, datada de 16 de junho de 1978, é, antes, colaboradora dessa “conquista do olhar” e não mera repetidora – para não dizer “inspiradora” mesmo, uma vez que foi devido a uma inquietação produzida pela literatura de Jorge Luis Borges que o filósofo pós-estruturalista produziu parte de sua teoria. Dessa forma, a imagem de um sujeito que constrói o mundo a partir do olhar continua a ser uma força descentralizadora, pois compreende o mundo como um espaço outro nascido do e no jogo, na performance do sujeito-leitor-produtor-crítico, e não como verdade absoluta ou instância exterior.
Essa noção de mundo obtido no processo de leitura é muito importante para se entender determinados signos borgeanos em sua multiplicidade, como o do duplo e dos espelhos, pois implica num olhar que deve permitir o desdobramento dos signos, e não concebê-los como símbolos de sentidos estanques e mitificados, já consagrados pelas teorias que lidam com os processos de linguagem e cognição. Afinal, se assim não fosse, o espelho, por exemplo, encenaria, sempre, o mito do narciso ou da busca/afirmação da identidade, perdendo sua força dramática que concebe, também, a imagem vista como uma realidade ora a ser mirada, ora a ser des-mascarada, ora como instabilidade discursiva (o olhar pode “estranhar” a imagem refletida), entre outros tantos sentidos.
É preciso, pois, que o leitor mova essa consciência para poder explorar as gradações do jogo que Jorge Luis Borges faz entre os gêneros, seja confundindo, nos ensaios, a fronteira entre saber científico e ficcional, seja brincando, na Autobiografia, com a ausência de registros de dados biográficos reveladores de uma vida, optando por privilegiar o percurso do sujeito-leitor, aquele que vive no labirinto de uma tradição livresca, sem segredinhos-sujos, sem confissões a oferecer ao leitor.
Em se tratando de Autobiografia, normalmente, entende-se que tal gênero de escrita, segundo Phillipe Lejeune, só se configura a partir da relação identidade-narrador-personagem, ou seja, é imprescindível que haja uma relação direta entre a identidade que assina a capa (o nome do autor) e a personagem que fala ou da qual se fala. Essa relação é necessária para a formação do chamado pacto autobiográfico, existindo, também, questões como a do fato de quem escreve sua Autobiografia ser alguém famoso, jamais anônimo, cujo relato de vida irá interessar aos leitores, além de precisar haver, no caso de pseudônimos, um desdobramento que possibilite designar o enunciador com a pessoal real, socialmente responsável pelo texto.
Em sua Autobiografia, entretanto, Borges não entra no jogo de esconde-esconde, no qual a persona do escritor-Jorge Luis Borges mascararia o homem ou mesmo naquele fazer-se-e-desfazer-se diante dos olhos do leitor, que, num primeiro momento, pensaria estar diante de uma espécie de relato biográfico, ou seja, uma narrativa que traz à tona vivências de um sujeito empírico, mas, num segundo momento, perceberia a estruturação de várias personas inapreensíveis, tão fictícias quanto qualquer personagem de um conto, romance ou novela (caso dos romances autobiográficos). Não, não se trata de mascaramento ou quebra do pacto autobiográfico proposto por Lejeune, o que se vê em Autobiografia é a clara escolha e eleição do percurso do Borges-leitor-escritor, através de uma narrativa que privilegia as datas e marcos relacionados à sua produção literária. E essa escolha torna o seu texto bastante coerente com a práxis de um autor que, desde o início, desacreditou no sujeito pleno, origem de todo o conhecimento, suporte de toda a experiência (SEDLMAYER: 2001, p. 43), preferindo, antes de se embrenhar na divisão do sujeito, tema caro à literatura, ironizar a instituição de um “eu” fora do texto literário, colado à figura do autor (do homem), a quem se poderia recorrer quando se tratasse de gêneros intimistas, como a Autobiografia e o diário – geralmente, mas nem sempre, escritas expositivas e confessionais.
A Autobiografia de Borges ri da existência de um homem, com seu cotidiano vivido a ser recapturado, sua culpa a ser elaborada, seus segredos por revelar. Ao contrário, fornece uma ordenação dos fatos, experiências de leitura, datas importantes, e tudo mais que efetiva o percurso de um artista da palavra, deixando silêncios e espaços vazios quando se trata de contar o primeiro beijo, a primeira namorada, a primeira decepção amorosa, entre outras experiências relativas a um sujeito empírico.
As imagens selecionadas da infância e família estão ligadas ao espaço da formação do leitor, há toda uma ambiência para que o gosto pela cultura livresca nasça, se fortaleça e ganhe tonalidades próprias. Da mãe e do pai, lembra-se, sempre, que eram muy inteligentes, bondosos e, acima de tudo, lectores, como se pode observar nesse trecho escrito acerca do pai:
Sus ídolos eran Shelley, Keats y Swinburne. Como lector tenía dos intereses. En primer lugar, libros sobre metafísica y psicología (Berkeley, Hume, Royce y William James). En segundo lugar, literatura y libros sobre el Oriente (Lane, Burton y Payne). Él me reveló el poder de la poesía: el hecho de que las palabras sean no sólo un medio de comunicación sino símbolos mágicos y música. (p. 20).
Nota-se, assim, que o processo de formação de um mundo referencial de leitura (a sua biblioteca pessoal) está ligado a uma herança familiar, afetiva, que elege uma cartografia de livros e autores percorridos, demonstrando uma dupla aposta na escrita: a de resgatar/registrar um passado de referências distantes os primeiros autores, os primeiros gêneros, os primeiros livros , e, também, a de intensificar o que foi experienciado, apreendido e transformado pelo sujeito-leitor.
Dessa forma, sua narrativa tem qualidade suficiente para justificar sua publicação dentro do gênero da Autobiografia, independentemente de trazer revelações empíricas. Afinal, quer seja na Autobiografia, quer seja no ensaio, faz parte da própria estrutura das narrativas borgeanas jogar com a totalidade pretendida pelos gêneros, revelando tanto a fragilidade dos limites entre eles, quanto a impossibilidade de uma escrita, qualquer que seja, abarcar toda uma realidade discursiva. Por isso que sua escrita possui essa potência de se inscrever em zonas instáveis, que Deleuze designou de força de fronteira, pois traz a perspectiva móvel da literatura e da arte de, atualmente, não pretender fixar lugares nem subjetividades.
Referências:
BLANCHOT, Maurice. “O diário íntimo e a narrativa”. In: O livro por vir. Rio de Janeiro: Rocco, 1989. p.192-98.
BORGES, Jorge Luis. Cinco visões pessoais. Trad. Maria Ramos e Silva. Brasília: UNB, 1987.
BORGES, Jorge Luis. Autobiografia 1899-1970. Buenos Aires: El Ateneo, 1999.
DELEUZE, Gilles, GUATTARI, Felix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia, Vol. 1. Trad. Aurélio Guerra Neto e Celia Pinto Costa. São Paulo: Editora 34, 1995.
LEJEUNE, Philipe. Le pacte autobiographique. Paris: Seuil, 1977.
LOPES, Cássia. Um olhar na neblina: um encontro com Jorge Luis Borges. Salvador: Selo Letras da Bahia, 1999.
SEDLMAYER, Sabrina. Quanto a mim, eu: a subjetividade literária em Pessoa e Borges. Tese de doutorado defendida na Universidade Federal de Minas Gerais, em 2001, disponível na Biblioteca da FALE.
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