
Ensaio
O outro (o periférico) ainda está vivo?
por Flávia de Araújo
"O Periférico, O criativo,
O Adaptável, O flexível,
O marginal, O americano,
O excluído, O criativo,
Vivo abaixo da linha do Equador,
Vivo abaixo da linha da pobreza,
Vivo, vivo, vivo...
Estou vivo... "
Flávia de Araújo
O pensamento ocidental continua tentando anular a diferença e igualar as pessoas. Na constituição do Brasil está escrito que todos são iguais perante a lei. A política de igualdade é muito violenta e os índios, os homossexuais, o idoso, o negro e a mulher ainda não são respeitados.
O indígena (o marginal / o outro) ainda vive em terras inóspitas, conseguiu sobreviver ao caos, mesmo isolado e sem mecanismos favoráveis. No livro de Bernardo de Carvalho a resistência dos povos indígenas é relatada com o povo Krahô que, apesar de sofrer violência e serem quase exterminados, conseguiu permanecer no local e com alguns sobreviventes que passaram a ser protegidos por um órgão de proteção (Serviço de Proteção aos índios) e os Trumai que também resistiram ao extermínio, apesar de viverem isolados e com medo de tribos vizinhas.
Veja o Xingu. Por que os índios estão lá? Porque foram sendo empurrados, encurralados, foram fugindo até se estabelecerem no lugar mais inóspito e inacessíveis, o mais terrível para a sua sobrevivência, e ao mesmo tempo a sua única condição. O Xingu foi o que lhes restou. (CARVALHO, 2006. p. 64-65)
Os nativos brasileiros resistiram às mortes e violências através de resistências, um bom exemplo é a Confederação dos Tamoios, porém não foi fácil passar por todo processo de massacre de suas culturas e crenças que iniciou com a exportação do pau-brasil, continuou com o cultivo da cana-de-açúcar, café e permaneceu com o incentivo das políticas brasileiras de distribuição de terras para criação de gado.
A processo de exploração do pau-brasil começou com o incentivo das narrativas de viagens dos europeus nas terras “descobertas” em que se plantando tudo dá. No começo do descobrimento é visível a idéia do paraíso da terra fértil, fonte de produtos para exploração. Alguns cronistas fazem muito bem propaganda da nova terra: “Em Gandavo, as potencialidades edênicas da colônia revertem em favor do trabalho humano, facilitando-o.” (SOUZA, 1986, p. 40). No início do século XX a devastação continua, porém agora através dos grandes latifundiários que atuaram na destruição das matas virgens utilizando seus jagunços e exterminando muitos índios nativos para a pecuária. O que restou do país são imensas áreas devastadas e apropriadas por grileiros criadores de gado. No livro Nove Noites de Bernardo de Carvalho o narrador-personagem, nas suas visitas a lugares inacessíveis, relata como o imenso verde desapareceu: “A floresta tropical se transformou em campos de fazenda. A mata desapareceu, caiu e foi queimada [...]” (CARVALHO, 2006, p.54). Hoje a devastação continua e apesar dos desmatamentos desordenados as organizações ou grupos de resistências como o MST (Movimento Sem Terra ) continuam lutando pela apropriação das terras improdutivas e tentando recuperar solos inférteis (desgastados pelos processos de implantação da cana-de-açúcar e do café), com o cultivo de novas sementes e adubando o chão para a plantação de produtos para o sustento de suas famílias.
O hábito do povo indígena foi realmente um choque para os europeus que não queriam e não tinham a intenção de preservá-lo. O europeu achava sua cultura superior a do índio e tentava de todas as formas evitar o contato com a cultura do outro. No livro Nove Noites é demonstrando o contato do branco com o índio através da visita do norte-americano Quain, um antropólogo “supostamente” aluno de Franz Boas, que conviveu com índios no Brasil e suicidou-se. Ele não entendia a relação de parentesco na tribo dos Trumai e não tentava manter contato com eles, mantinha-se distante e indiferente, não queria se pintar e nem contato físico mais próximo. “O fato é que no começo Quain achou os Trumai ‘chatos e sujos’ (CARVALHO, 2006 p. 48). Também achava que eram preguiçosos e feios.“ ‘Dormem cerca de onze horas por noite (um sono atormentado pelo medo) e duas horas por dia. Não têm nada mais importante a fazer além de me vigiar[...]’ ” (CARVALHO, 2006 p. 48). Na verdade quem esta vigiando, era o próprio antropólogo, ao observar hábitos da tribo e manter-se distante. Tentava sempre comparar os Trumai com habitantes de Fiji, ilha do Sul do Pacifico, única outra experiência de campo. “O etnólogo comparava os mirrados Trumai aos homens musculosos de Fiji” (CARVALHO, 2006, p.48).
Os índios apesar de viverem no interior (isolados) também mantinham contato com brancos, através das muitas visitas intencionadas de antropólogos e estudantes que levavam objetos e costumes diferentes, não eram povos intocados como afirmava o personagem Quain do livro: “Duvido de que em algum outro lugar no mundo existam culturas indígenas tão puras. [...]” (CARVALHO, 2006, p. 107). Atualmente com os meios de comunicação de massa (TV. Internet, etc.) os marginalizados e periféricos também interagem com diferentes culturas e assimilam costumes variados e conhecimento universal.
[...] as sociedades da periferia têm estado sempre abertas às influências culturais ocidentais e, agora, mais do que nunca. A idéia de que esses são lugares “fechados” – etnicamente puros, culturalmente tradicionais e intocados até ontem pelas rupturas da modernidade – é uma fantasia ocidental sobre a “alteridade”: uma “fantasia colonial” sobre a periferia, mantida pelo Ocidente, que tende a gostar de seus nativos apenas como “puros” e de seus lugares exóticos apenas como “intocados”. Entretanto, as evidências sugerem que a globalização está tendo efeitos em toda parte, incluindo o Ocidente, e a “periferia” também está vivendo seu efeito pluralizador, embora num ritmo mais lento e desigual. (HALL, 2000, p.79-80)
Percebe-se que o imaginário da população brasileira foi construído por mitos e tabus que precisam ser quebrados. Enquanto na idade média a Igreja assumia o papel de centro manipulador, jesuítas ajudavam na intervenção dos hábitos indígenas, hoje o imaginário coletivo é formado e manipulado pela mídia que induz ao mito da Beleza (européia), ao machismo (sociedade patriarcal), às concepções cristãs e à discriminação dos pobres e dos marginalizados. Os negros, as mulheres, os idosos, os índios, os homossexuais, os pobres são humilhados e tratados com indiferença.
Em suma, a questão das minorias é o reverso da medalha do autoritarismo. De um lado, basicamente, a questão do índio e do escravo negro na civilização ocidental, bem como a da mulher na sociedade machista; do outro, a questão dos homossexuais, dos loucos e dos ecólogos, e de todo e qualquer outro grupo reprimido nas suas aspirações de justiça econômica, social ou política. (SANTIAGO, 2002, p. 41).
O diferente (o periférico) ainda é visto com desconfiança, como ameaça ao seu bem-estar social, os índios ou negros são tachados de ladrões ou desordeiros, a mídia perpetua a discriminação em geral, porém as organizações de resistências como: movimento negro, movimento em defesa da mulher, movimento dos sem-terras, etc. conseguiram e conseguem lutar por benefícios e valores culturais que foram desvalorizados, um exemplo de resultado e sucesso é a inclusão de cotas nos vestibulares para afro-descendentes, a criação da Delegacia da Mulher etc., porém ainda é pouco o avanço social e os grupos apresentam muitas divergências internas.
A articulação social da diferença, da perspectiva da minoria, é uma negociação complexa, em andamento, que procura conferir autoridade aos hibridismos culturais que emergem em momentos de transformação histórica” (BHABHA, 1998, p. 20)
No mundo pós-moderno é fácil assumir identidades e procurar identificações com grupos minoritários? Apesar de nossas identidades serem alteradas o tempo, de assumirmos costumes, crenças e pensamentos diversificados, não vivemos um mundo em desconcerto e sim de hibridismo de culturas; nossa identidade não é fixa, é modificável, porém ainda é possível tentar se identificar em cada momento de sua vida com um grupo ou pessoas afins para conseguir formas de sobreviver, interagir e reivindicar suas idéias.
É na emergência dos interstícios – a sobreposição e o deslocamento de domínios da diferença – que as experiências intersubjetivas e coletivas de nação [nationness], o interesse comunitário ou o valor cultural são negociados” (BHABHA, 1998, p. 20)
Devemos acabar com o pensamento de colonizado e reconhecermos que o Brasil, mesmo sendo periférico, conseguiu e consegue avançar nos conhecimentos científicos. Os índios da região do Amazonas, os índios de Porto Seguro, os habitantes dos morros (marginalizados) etc., conseguiram e revelam todos seus conhecimentos e criatividade: produzem objetos criativos, têm acesso a internet, estudam, cantam e dançam nas comunidades. Suas realizações e costumes são também, algumas vezes, adaptados e utilizados por artistas que se apropriam da cultura do outro para obter a fama ou sucesso profissional, mecanismo antigo utilizado na Idade média quando as cantigas do povo e lendas eram utilizadas pelos padres e trovadores (imitação) para manipulação de fiéis e da população que repetiam idéias destorcidas. É como lembra Silviano Santiago no ensaio Apesar de dependente, universal:
A cultura oficial assimila o outro, não há dúvida; mas, ao assimilá-lo, recalca, hierarquicamente, os valores autóctones ou negros que com ela entram em embate. No Brasil, o problema do índio ou do negro, antes de ser a questão do silêncio, é a hierarquização dos valores". (SANTIAGO, 1982, p.17)
A antropofagia proposta por Oswald é diferente, pois pretende sim comer a cultura do outro, mas também transformar e eliminar todo tipo de preconceito.
A assimilação do outro é uma ato de devoração cultural, sim. No entanto, a assimilação antropofágica, diferentemente daquela perpetrada pela cultura oficial, não hierarquiza, mas assume suas mazelas e vícios, afirmando-as como parte constituinte do seu próprio corpo cultural. Transformar o tabu em totem. (ORNELLAS, 2006)
A resposta para a pergunta do ensaio é que o periférico ainda vive e produz cultura e arte e que não podemos ser radicais (marxistas), fazer o mundo virar socialista e nem fazer que a classe oprimida revolte-se, a globalização é um fato consumado, com a quebra das fronteiras e a nova noção de tempo e espaço alterou-se as relações sociais e o brasileiro conseguiu e avançam em conhecimentos científicos diversos. O Brasil é um país híbrido e as grandes riquezas estão nas misturas de costumes e nos diversos centros periféricos do país.
“Nóis sofre mas nóis goza” Frase do colunista José Simão, tons de escracho e forma de valorizar a cultura do considerado “Terceiro Mundo”. (apud Liv Sovik, 2000, p. 95)
REFERÊNCIA
BHABHA, Homi K. O local da cultura. Tradução de Myriam Ávila, Gláucia Renate Gonçalves e Eliana Lourenço de Lima Reis. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998. p. 20.
CARVALHO, Bernardo. Nove noites. São Paulo: Companhia das Letras, 2006
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução Tomaz Tadeu da Silva e Guaracira Lopes Louro. 4. ed. Rio de Janeiro:. DP&A., 2000.
ORNELLAS, Sandro. Oswald de Andrade: (re)descobridor do Brazil. Disponível em <http://www.verbo21.com.br/arquivo/9ltx2.htm>.Acesso em: 20 outubro 2006.
SANTIAGO, Silviano. Apesar de dependente, universal. In: Vale quanto pesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982. 13-24.
_________________. Nas malhas da letra: ensaios. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.
SOUSA, Laura de Mello e. O diabo e a terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil Colonial. São Paulo: Cia das Letras, 1986. p. 21-84.
SOVIK, Liv. Afeto, diferença e produção de identidade. In: VII CONGRESSO ABRLIC. 2000. Salvador, Anais Terras & Gentes. Salvador: UFBA, 2000. p. 95.
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