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Ensaio
O literário e o político em Machado de Assis
A corrupção da política brasileira no espelho da volubilidade
por Mauro Souza Ventura


Será possível pensar a prática política atual a partir do elemento literário e, em específico, da narrativa machadiana? A chave para esta resposta pode estar Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), interpretada a partir do conceito de “volubilidade”, formulado por Roberto Schwarz em Um mestre na periferia do capitalismo (1990), obra considerada um marco fundamental da crítica brasileira. Trata-se assim de buscar um paralelismo entre o comportamento de nossa classe política, quase toda ela desmoralizada pela sucessão de escândalos, e as atitudes do narrador de MPBC.

O traço em comum está no dispositivo da “volubilidade”, traduzida num constante desrespeito à Norma e na transformação do capricho e da veleidade pessoais em regra de conduta da classe dominante. Esses traços, que se constituem, segundo Schwarz, no princípio formal de MPBC, reproduzem implicações estruturais do quadro histórico brasileiro e, como tais, permanecem vivos no comportamento moral de nossos representantes políticos.

Antecipando uma das possíveis conclusões, diremos que, assim como o narrador machadiano muda constantemente de feição, também o político brasileiro se movimenta nessa gangorra moral em que o vale-tudo, a negação do passado e a mudança de fisionomia parecem ser a única regra válida.

Vejamos como está estruturado esse princípio formal em MPBC, segundo a chave interpretativa de Roberto Schwarz. O primeiro elemento está na volubilidade do narrador, que muda de assunto, de opinião e de estilo quase que a cada frase. Uma leitura atenta do célebre parágrafo de abertura do romance nos informa sobre a fisionomia volúvel de Brás. Cada sentença está marcada pelo revezamento de poses e de atitudes, como sintetiza Schwarz:

“O tipo que na primeira linha hesita quanto à melhor maneira de compor memórias não é o mesmo que em seguida promete, como se nada fosse, esclarecimentos sobre a própria morte. Este por sua vez não é o mesmo que providencia para se distanciar do vulgo, que não é o mesmo que se compraz no paradoxo do defunto autor, que não é o mesmo da preocupação com o galante e novo, e portanto com a moda, que não é o mesmo da piada sobre o Pentateuco”. (Schwarz, 2000:22)

Diante desse desfile de máscaras, pergunta-se qual destas fisionomias corresponde à verdade do seu caráter. A situação narrativa nos conduz à conclusão de que nenhuma delas é a verdadeira. Ou talvez possamos acrescentar: nenhuma e todas. A postura pendular e oscilante de Brás corresponde, pois, à feição não-liberal do liberalismo brasileiro. Como atesta Schwarz, “a volubilidade de Brás Cubas é um mecanismo narrativo em que está implicada uma problemática nacional”. (Schwarz, 2000: 47)

E qual era essa problemática? O desejo de pertencer ao Ocidente progressista e culto sem, no entanto, abandonar o sistema escravocrata, já a essa altura condenado. Naquele contexto, e por nossa formação sui generis, parecia natural figurar ao mesmo tempo como um país escravista e adepto do ideário liberal. Remonta a essa nossa formação a postura dualista de valorizar e ao mesmo tempo desprezar a Norma.

Há uma similitude entre essas acrobacias do narrador e a nossa matriz prática, da qual ainda não nos desvencilhamos, como demonstra o comportamento político de hoje. Roberto Schwarz considera a volubilidade um “disposistivo literário, que fala linguagem própria, e pode ser estudado como que em abstrato”. Tais implicações da prosa machadiana, que trazem consigo uma ressonância histórica e uma problemática nacional (destino histórico, pergunto eu) iluminam a crise cívica e moral de nosso presente político, com sua estrutura político-partidária apodrecida.

Também os movimentos do narrador podem ser vistos como um duplo do discurso político tradicional. Concorre para isso o espontaneísmo que move o narrador, deixando incompletas ou sem resposta todas as situações e dilemas que levanta. “Arma o conflito ou a tensão para desarmá-la com o tom alegórico que resulta sempre em efeito cômico”, escreve Schwarz (2000: 50).

Em seus volteios constantes, Brás, a exemplo de nossos políticos, troca arbitrariamente de posição, sempre de acordo com as circunstâncias. Acrescente-se a isso a atitude “filosofante” desse narrador, “que enuncia generalidades sobre o ser humano em forma sentenciosa ou apologal”. (Schwarz, 2000: 53)

Como anota Schwarz, trata-se de uma escrita faceira, feita de procedimentos heterogêneos, como as frases feitas, as citações ilustres, os lugares-comuns, os epigramas, os ditados ou os trechos de antologia. Bem ilustrativo disso é a passagem em que Brás faz o balanço de sua formação universitária:

“Não digo que a Universidade me não tivesse ensinado alguma [filosofia]; mas eu decorei-lhe só as fórmulas, o vocabulário, o esqueleto. Tratei-a como tratei o latim: embolsei três versos de Virgílio, dois de Horácio, uma dúzia de locuções morais e políticas para as despesas da conversação. Tratei-os como tratei a História e a jurisprudência. Colhi de todas as coisas a fraseologia, a casca, a ornamentação”. (Machado de Assis, 1995: 55)

Impossível pensar em trecho mais ilustrativo da retórica política e da política das aparências do que este. Assim, o dispositivo da volubilidade não apenas explica as principais características da prosa de MPBC, mas lança luz sobre a regra do capricho e da desfaçatez com que a classe política brasileira estabelece e, ao mesmo tempo, descumpre as regras.

Num momento em que todo o sistema político parece corromper-se aos olhos da nação, já que “mensaleiros” e “sanguessugas” incluem membros de todos os partidos, o esquema da volubilidade pode ajudar a entender, por exemplo, o clima de “liberou geral” que se instaura em nossa vida pública. A corrupção do Legislativo e do Executivo pôs em marcha um processo vicioso que impede até mesmo de se estabelecer um novo código de conduta para a política.

Vivemos uma situação que equivale àquela terra-de-ninguém moral em que habitam, por exemplo, os personagens de Memórias de um Sargento de Milícias, de Manoel Antonio de Almeida. Como anota Antonio Candido, em sua excelente interpretação deste romance, observa-se uma equivalência entre ordem e desordem na própria economia do livro.

“O princípio moral das ‘Memórias’ parece ser (...) uma espécie de balanceio entre o bem e o mal, (...) em que os extremos se anulam e a moral dos fatos é tão equilibrada quanto as relações dos homens”. (Candido, 1953: 48)

Há no dizer de Candido uma “acomodação geral que dissolve os extremos, tira o significado da lei e da ordem”, estabelecendo desta forma uma terra-de-ninguém moral, “onde a transgressão é apenas um matiz na gama que vem da norma e vai ao crime”. (Candido, 1953: 51)

Ao criar um universo livre de conceitos como erro e pecado, Manuel Antonio de Almeida tem muito a nos dizer. É por meio das relações entre os personagens das Memórias que se explicita a chamada “dialética da ordem e da desordem”. Estamos no mundo das alianças, das carreiras, das heranças. Leonardo, o protagonista, oscila entre a Ordem estabelecida e as condutas transgressivas, até integrar-se, por fim, à primeira. Desta equivalência entre Ordem e Desordem nos diz Antonio Candido que:

“As pessoas fazem coisas que poderiam ser qualificadas como reprováveis, mas fazem também outras dignas de louvor, que as compensam. E como todos têm defeitos, ninguém merece censura”. (Candido, 1953: 47)

Impossível não pensar aqui em expressões que buscam justificativa para atos condenáveis, como os populares “rouba, mas faz...” e o “é corrupto, mas é do povo...”. Todas as sociedades buscam estabelecer o valor real de conceitos como certo e errado, moral e imoral, justo e injusto etc. A definição mais rígida ou menos rígida dessas categorias encontra na sociedade brasileira uma particularização que corresponde àquilo que estamos chamando de volubilidade. Em sociedades ideológica e culturalmente mais rígidas, o espaço para esta oscilação é menor; no Brasil, porém, o balanceio entre o bem e o mal, o certo e o errado, está ligado à vida em sociedade, cujas relações apontam para a esfera da cordialidade, como já explicava Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil.
Antonio Candido traça um breve paralelo entre nossa formação histórica e a dos Estados Unidos, para concluir que lá a “força punitiva do castigo exterior e do sentimento interior de pecado” foram fatores que moldaram a sociedade.

No Brasil, deu-se um movimento diverso: aqui, a Ordem é apenas um princípio abstrato e a liberdade tem o sabor de um capricho. Escreve Candido:

As formas espontâneas da sociabilidade atuaram com maior desafogo e por isso abrandaram os choques entre a norma e a conduta, tornando menos dramáticos os conflitos de consciência.” (Candido, 1953:51)

Poderíamos perguntar como John Gledson: e se Brás Cubas fosse o Brasil, como parece indicar a coincidência da primeira sílaba? (Gledson, 1986) Como destaca o estudioso, há sem dúvida correspondência estreita entre a ficção machadiana e alguns episódios da história brasileira do século 19. Tanto que MPBC poderia ser tomado como uma alegoria política. Seguir por esse caminho significaria empobrecer o potencial estético da obra. Mas não será exagero buscar similaridades entre a volubilidade de Brás e a volubilidade das elites de seu tempo, em sua busca de conciliar a norma burguesa da Europa oitocentista e a estrutura social brasileira, calcada na escravidão e no clientelismo.
Não esqueçamos: quando o jovem Brás vai à Europa a fim de embeber-se da cultura do tempo, ele vive anos de “romantismo prático e liberalismo teórico”. É quase como dizer: na prática, a teoria é outra. Como indica Schwarz, “o impasse ideológico das elites brasileiras está transcrito no arcabouço de personagens e episódios das MPBC”. (Schwarz, 2000:70)

Este balanceio entre o bem e o mal que estrutura o romance de Manoel Antonio de Almeida corresponde à lei da equivalência das janelas, estabelecida por Brás Cubas no Capítulo LI de suas ‘Memórias’. No dia em que decide que Virgília será sua (aliás, recém casada com Lobo Neves) Brás encontra na rua uma moeda de ouro. No dia seguinte, sentindo “uns repelões na consciência”, ele devolve a moeda à polícia.

A restituição da moeda o deixa jubiloso em seu cinismo: “foi uma janela que se abriu para o outro lado da moral”, afirma. Daí para a formulação de uma lei moral é um passo: “estabeleci que o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa ajerar continuamente a consciência”. (Machado de Assis, 1995:82)
Como observa Sérgio Paulo Rouanet (1991), a atitude de Brás corresponde a uma substituição simbólica:

“Restituindo uma moeda que não lhe pertence, ele está compensando imaginariamente a apropriação de uma mulher alheia. Desonesto num registro, ele é honesto em outro, obtendo com isso a aprovação social e a quitação de suas contas, sem saldo nem déficit”. (Rouanet: 1991: 180)

Para Rouanet, Machado de Assis foi o escritor que melhor compreendeu e traduziu em fatura literária o traço distintivo da realidade brasileira de seu tempo, qual seja, o mecanismo da volubilidade. Resta saber se esta volubilidade, cujo equivalente político é a impunidade (note-se que ¼ dos candidatos nas próximas eleições é acusado de corrupção) não conduzirá ao colapso dos parâmetros que sustentam o julgamento moral da classe política e que estão na base do sistema republicano.

 

Referências bibliográficas:

CANDIDO, A. “Dialética da malandragem”. In: O discurso e a cidade, p.19-54. São Paulo: Duas Cidades, 1953.
GLEDSON, J. Machado de Assis: ficção e história. Trad. Sônia Coutinho. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.
MACHADO DE ASSIS. Memórias Póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ática, 1995.
ROUANET, S. P. Contribuição para a dialética da volubilidade. Revista USP. São Paulo, Mar-abr-mai de 1991, p.175-194.
SCHWARZ, R. Um mestre na periferia do capitalismo. São Paulo: Duas Cidades/Ed. 34, 2000.

 

* Professor da Unesp e autor de De Karpfen a Carpeaux (Ed. Topbooks).


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