
Entrevista
Alex Antunes
por Renato Pedrekal
Alex Antunes é jornalista (Bizz, Set, Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, Veja), músico (Akira S & as Garotas que Erraram, Shiva Las Vegas), compositor, produtor de mais de uma dezena de álbuns (Mutantes, Luiz Gonzaga, etc.) e escreveu um livro chamado “A estratégia de Lilith”, onde conta a história de um jornalista, Alex Antunes (sim, um ego-alter-ego), e suas desventuras amorosas e profissionais. Mas não pense que se trata de um romance convencional, cheio de mel e açúcar. Para começar, as grandes paixões do personagem são prostitutas. Literatura pop? Confessional? Machista? Tire você mesmo suas próprias conclusões.
Renato Pedrekal – Poderia se dizer que "A Estratégia de Lilith" trata essencialmente de sexo, música pop e expansão de consciência (risos)?
Alex Antunes – Essa trilogia, sexo, drogas & rock'n'roll (ou suas variantes, como você
colocou) tem que fazer algum sentido, ou não continuaria a mobilizar o
mundo do jeito que mobiliza. De um ponto-de-vista "teórico" (hm), eu
acredito no que está escrito neste links: http://www.lexlilith.org/000064.html#more e http://www.lexlilith.org/000075.html. De um ponto-de-vista ficcional (ou
quase...), o livro se baseia nesses elementos, claro. Mas não foi uma
escolha, foi o assunto que se impôs.
RP – Você presta tributo aos livros da sua juventude (Bukowski, Salinger,
etc.)? O que lhe marcou mais profundamente na adolescência? Ou a influência
é maior da música e da cultura pop?
Alex Antunes – Salinger com certeza – o tom ranzinza deve vir do Apanhador. Bukowski eu
li depois, já adulto. Em relação a sexo, meu primeiro grande impacto foi o
Jorge Amado de "Capitães da Areia" – o termo "carapinha do sexo" me
assombra até hoje. E na adolescência tem ainda o Raymond Chandler, de quem
eu absorvi a coisa da ética pessoal – é uma influência, mais do que na
literatura, na vida mesmo. O cinema também me influencia – essa construção
em camadas de realidade, por exemplo, é um troço que me entusiasma muito,
em filmes como "Alucinações do Passado" ou "Amnésia".
RP – O "crítico" não chegou a atrapalhar o "escritor", enquanto preparava o
livro? Essas duas facetas se misturam em você ou se isolam?
Alex Antunes – O crítico, no que ele tem de pior, é o assunto, é o cristo do livro
(risos). Esse livro foi uma desconstrução do crítico, na verdade.
RP – Ana Cristina César, num verso de A teus pés, diz: "Autobiografia, não.
Biografia." A auto-refência parece ser uma constante na "Estratégia de
Lilith" - uma amiga, sua fã inclusive, reclamou disso. Nesse sentido, seu
livro serve como um mergulho no seu eu, uma experiência de auto-descoberta?
Ou é tudo invenção (risos)?
Alex Antunes – Não diria nem autodescoberta, diria exorcismo mesmo. Na vida real, as
histórias que eu relato foram lancinantes. Na hora de escrever, ganharam um
tom quase humorístico. Assumi esse tom porque eu ainda não sabia se tinha
fôlego pra escrever um romance, um livro que "ficasse em pé na estante" –
pra isso tinha que ter mais de 200 páginas (risos). E a voz que se
apresentou, desde a primeira página que eu escrevi, foi essa. Era pra ser o
Castañeda assustador de "O Segundo Círculo de Poder", mas quem baixou foi o
Salinger mesmo (risos).
RP – E quanto a divulgação/repercussão? Algum fato marcante que gostaria de
comentar?
Alex Antunes – O mais impressionante foi que a trama do livro continuou reverberando na
vida real. O cara que perseguia a prostituta, por exemplo, tinha sumido
durante quase um ano, mas reapareceu na semana exata em que eu a presenteie
com um exemplar, e ela o espantou (pra sempre) com uma garrafa quebrada.
Na rua Augusta "A Estratégia" ficou conhecida como "o livro da Fernandinha"
(risos), um troço carinhoso. E o ilustrador, o cara que faz o desenho da
outra prostituta no guardanapo, eu soube quando o livro tinha acabado de
entrar em gráfica que era alguém que eu conhecia de um grupo de expansão de
consciência! Ainda bem que eu só soube disso quando não dava pra voltar
atrás, senão eu ficaria tentado a tirar esse episódio da história, pra não
parecer provocação. Ninguém ia acreditar em uma coincidência dessas. Em
termos da divulgação em si, o melhor foi ir ao programa da Monique Evans, e
ficar lá em cima da cama com ela e a Tamy Gretchen (risos). Fiz uma
dedicatória com um caralhinho desenhado, que nem aqueles de porta de
banheiro, e ela disse "que bonitinho" ou coisa que o valha (risos).
RP – Você me parece um "apaixonado insatisfeito", sempre curioso, à espera de
um arrebatamento, uma novidade, um transe ou catarse. O que tem despertado
verdadeiramente seu entusiasmo na mídia, de modo geral, ultimamente? Que
livros e discos Alex Antunes tem lido e ouvido, ultimamente, que pense:
"Putz, isso é realmente original e é do caralho!"?
Alex Antunes – O que tem mais me entusiasmado é uma matéria que eu fiz pra Rolling Stone sobre os bastidores do novo filme do Zé do Caixão. Fiz uma ponta nas
filmagens, foi sensacional. Na música recente, nada em especial. Minha
última surpresa em literatura foi o Neil Gaiman, de quem eu ainda não tinha
lido nada – a não ser os quadrinhos, claro. Ele tem uma visão
mítico-arquetípica muito interessante.
RP – A iniciativa de "Sanguinho Novo" foi um marco nos anos 80, um tributo
que tirou Arnaldo Baptista das sombras. Hoje, Os Mutantes estão no mundo. O
Alex produtor imagina um nome hoje esquecido e que mereceria idêntico
tratamento? Não toparia outro desafio semelhante?
Alex Antunes – Acho que tem alguns caras que mereceriam essa revisão. Por exemplo, as
pessoas hoje não sabem o quanto o Erasmo Carlos já foi interessante, nos
anos 70 principalmente. E o Walter Franco, com certeza. Outro gênio meio
esquecido é o Jards Macalé.
RP – E quanto a onda do revival dos 80 dentro e fora do Brasil? Acha salutar?
Ou pensa isso mais como um sintoma de uma crise criativa?
Alex Antunes – Há pelo menos dois pólos dos "anos 80" – o aspecto trash, que é um herdeiro
da exuberância dos anos 70, só que ainda mais acrítica e descontrolada.
Esse lado pode ser visto com humor. E o aspecto mais underground, que é
muito mais severo, sombrio, herdeiro do punk, que é o oposto quase
espartano daquela exuberância. As coisas mais interessantes talvez tenham
um pé em cada lado, como o Suicide, o pai dos duos tecnopop, que é uma
banda absolutamente interessante desde 1972! Ou seja, eles fizeram uma
conexão direta, não de segunda mão, com o Velvet Underground, mas só foram
notados na passagem para os anos 80. Essa moda de anos 80 serve pra que
algumas pessoas pesquisem a década mais a fundo, o que é bom. Sem querer
ser o Fukuyama, dá pra dizer que a história do pop acabou no punk – o resto
é derivação conceitual. Então, há uma convergência de possibilidades
tecnológicas de pesquisa com a inquietação em torno do momento do paroxismo
pop, o que faz sentido. Chata é a década de 90, onde sobrou o drama humano
(Kurt Cobain) sem a aventura estética (o grunge não é nada musicalmente
falando, a não ser derivação).
RP – É adepto do MP3? Pensa na situação da pirataria, downloads, direitos
autorais, gravadoras quebrando, etc. como um avanço no mercado da música de
entretenimento?
Alex Antunes – Eu não baixo nada, mas acho que tem que baixar. A mentalidade de quem usa a
internet em todas as suas possibilidades já é um novo estágio do ser
humano. As tentativas legais de conter a circulação da informação estão
fadadas ao fracasso, e a destruição da indústria do entretenimento é só uma
questão de tempo. O que a gente assiste é o surgimento de uma elite
psíquica, talvez a primeira elite legítima da humanidade, que é a que surge
dessa mistura da mente humana com a tecnologia. A internet é o expansor de
consciência até de quem não quer expandir nada (risos), e quem se situa com
conforto nesse bombardeamento de informação e de referências éticas
contraditórias é a tal elite – que não se identifica com nenhuma classe
social, e nenhum gênero, o que é ótimo. Esse é um papo meio cronenberguiano
(Videodrome, eXistenZ ou cyberpunk, mas acredito sinceramente nisso.
Quando li o Neuromancer do William Gibson (que depois eu acabei
retraduzindo), no começo dos anos 90, me senti como não me sentia desde que
descobri Raymond Chandler, com uns 13 anos, ou Monteiro Lobato, com uns 8
(risos).
RP – E o filme sobre "A Estratégia de Lilith"? Alguma previsão? Fale um
pouco a respeito.
Alex Antunes – Li o primeiro tratamento do roteiro, escrito pelo Hiltinho Lacerda (Amarelo
Manga, Árido Movie, Baixio das Bestas) e fiquei muito contente. Mas o filme
saiu da produtora Olhos de Cão junto com uma das sócias, a Lili Bandeira, e
não tenho notícias do projeto há alguns meses. Preciso ligar pra perguntar.
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