
Colunas: VÉRTEBRA
por Rã Cinza
Animais de mesma e outra espécie. Eu tão só e outros tão sóis. Enfim, pode do escuro vir a luz. Os mitos de criação e outros mais pretensiosos brincam com isso. Da dor também saem travessias sapientes. Dizem, uns tantos, que amam quem sofre. Aqueles que amo, sentem dor, explicitam-na. Soy latina, emocional. Aqueles que não expressam dores são amáveis, amoráveis, mas são outra espécie de gente. Pouco entendo. Coisa de semideus, arre! A carne-viva é tão comunicante, meio de incontáveis baladas. De incontáveis densidades, de incontáveis expressões. A carne transformadora deseja violenta quando viva mundos daqui e de lá, num tão longe, que a faz inteligente e inventiva. A carne viva cria condições até para o além do além. Também por isso, dela emerge o sentimento de perplexidade. As coisas do mundo são espantosas e, nesses muitos, muitas são as ciladas, as pequenas e as grandes prisões.
Uma outra moeda, constantemente trocada com os meus amados, versa sobre um sentimento, verte abundante sobre o sentimento da solidão. Do sentir-se único até quando acompanhado. Tem um despregar que orbita no mundo dos seres, aquele que isso sente. Tem uma opressão no peito, um desconforto, uma dor.
Drops dos sós
Em Brasília durante mais de ano estudava com o Jean, um moço tornado amigo. Lemos uns tantos livros de Frantz Fanon. Um texto do Jurandir Freire Costa. Essas incursões intelectuais foram entremeadas com conversas de vida, das nossas vidas contadas como necessárias confidências, amálgama da amizade. Éramos diferentes nos nossos depoimentos e, esses mundos eram deliciosamente esperados para serem postos em alinhamentos nos tais encontros. Tão querido esse pequeno grupo (?) de estudo. Numa dessas convergências ele disse que acreditava que todos, em determinado momento, sentiam a disposição emocional que a tudo se estranha. Fosse branco, fosse religioso, fosse endinheirado. Pensávamos, depois de lida a autobiografia de Gandhi, sobre qual seria o elemento diferencial do poder. Concluímos de comum acordo que era a força. Concluímos não consensualmente sobre a força bélica. Depois, de uns vários meses de estudo e variada conversa, houve o convite para um almoço. Lá fomos eu e o Pedro para casa do Jean. Lembro do sorriso tão bonito da sua mãe, da amorosa recepção, das várias comidas gostosas feitas com tanto carinho, das muitas plantas. Mais ainda, lembro da Vitória, nome lindo que faz jus àquela que o veste. Vitória da comunicação. Falava pelos cotovelos. Vitória de lindas sobrancelhas. Falava sobre a avó, a mãe, o tio Jean. Entregava pequenas rusgas de menininha que sabe o que quer e, por isso, quer tudo. Dizia luvem. Depois da conversa com essa linda, uma nuvem nunca mais foi a mesma, nunca mais teve bem assentada e azeitada, sobre a maçaroca nebulosa, a palavra correta. A despedida do almoço foi triste, como acontece com os amores intensos e breves, choramos todos.
As Três Marias
Primeira Maria
Maria, nem bonita nem feia, tem uma filha de dez anos. Menina de óculos tem um quê de inteligente. Maria descendo uma ladeira mancando, com ataduras no pé. Dirigiu sozinha, quis chorar, teve de ficar trancada na hora do rush por um tempo excessivo, piorando muito seu sofrimento físico. Queria a casa, seu sofá, comer, beber algo. Tinha por BG as sacolas do supermercado. Mulher que mora só tem trabalho de sobra, mas talvez ainda valha a máxima da segunda onda do feminismo, que se declara contra o desnecessário casamento. Esperei-as com a porta do elevador aberta, ela agradeceu e entrou. Disse-me as agruras que acabei de contar, período que compreende o começo de noite, quando o trânsito é violento e lento. Contar seu percurso fez com que os olhos de Maria se enchessem d’água, apiedou-se de si. A filha-testemunha quieta ouvia com sua vivacidade atrás dos óculos. Nos despedimos de modo gentil, quis demonstrar solidariedade, ofereci serviços. Ela retribuiu com um deus lhe pague, a menina mais alegre disse um tchau animado, riu, rimos.
Segunda Maria
Uma fez operação. Muito bonita, charmosa. Na época, nem moça nem velha, de idade indizível, porque para algumas poucas mulheres, a inteligência inflama o corpo, faz o ser virar um bicho quente e alerta, mas a conversa agora é outra. Pois bem, essa modalidade de Maria levou um susto. Num exame de rotina, surgiu, nesses resultados dos testes tecnológicos, um inesperado em forma de caroço. Conversa de leigo. Mas essa bonita franziu o cenho inteligente. A mulher nublou, pensou nos filhos, nos netos, nas poesias, no amor, nos amores, e muito mais, pensou: não, não é hora disso, tenho um milhão de coisas para fazer, ai ai. Pragmática resolveu resolver. Cônscia, soube que teria de fazer uma punção, magoar o corpo seria necessário para ter precisão de resultado. Lá foi corajosa e sozinha. Seu amor não soube ser amor. Ele não foi, porque sempre a soubera forte, achou que o fato era coisa boba. Lá foi ela, com sua força e espanto. Se arrumou, pôs uma bolsa bonita, arrumou o cabelo. Fez o necessário, tudo deu certo, experimentou alívio, mas uma nuvem (luvem) baixou e nunca mais pôde olhar seu amor da mesma forma. Algum tempo, talvez até muito tempo depois, essa Maria ajeitou as malas e, em distância e altura rumou para um lugar no centro de um mundo, longe daquele seu, então, amor – agora – de outrora.
Terceira Maria
Mais velha e viúva, de olhos cheios de azuis carinhos, receptiva sem alarde. Contou da vontade de um vestido longo, da vontade de dançar. Da vontade de migrar. Gostava da cidade-progresso, de água fina. Não morou onde quis. Casada, não viajou o quanto gostaria. Ficava só e, dos lindos olhos muita agüinha e aguaceiro rolaram. Outrora, a vida era impedimentos, nem ir nem vir. Foi primeira dama, rainha do lar (?). Bem humorada, dispensa essas bobagens, como se fossem exageros, pois, é mulher sabida, por isso, porta modéstia leve. Ela é brisa, um encanto que soube guardar ternuras, independente dos obstáculos de outrora. Teve filhos, cuidou como leoa, sabia do que mais precisava e preservou até fazer forte o mais fraco. Os meninos a amam com sinceridade e força. Vai ganhar mais um neto. Gosta de doces e passa longe de cozinha. Vi seu vestido, porque agora aprende a dançar. Saiu uma noite e chegou bem tarde, dançou com seu vestido longo. Tenho impressão que essa mulher se diverte mais. Também nubla e pode até chover ocasionalmente, mas está mais livre. Ela diz das caminhadas tão matinais que me assusta, diz das viagens com as irmãs. Tem um cabelo tão lisinho, tão macio, acho que seu coração subiu para cabeça. Moral dessa história, para o Tempo sempre há tempo.
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