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Crônicas Havaianas
Crônicas Havaianas: modo de usar
por Eliana Mara


Dedicado ao poeta Ruy Espinheira, pelo seu jeito havaiano de ser.

Aloha!

Sempre que me sinto em apuros, para falar de gêneros literários, cito Mário de Andrade e sua famosa definição sobre o que é um conto: é tudo aquilo que o autor denominar como conto. Extrema liberdade dele, mas há algumas pessoas que não concordam e querem as coisas bem separadas: o contista faz um texto ficcional e o cronista faz um texto factual. Na crônica, o autor deveria sempre se referir a um fato e comentá-lo. Esse apoio no fato ou episódio, comentado a partir de uma perspectiva bastante pessoal, permite que vejamos as inúmeras facetas do próprio autor. A boa notícia é que o uso dos gêneros está bastante livre atualmente. No entanto, alguns teóricos de plantão resistem e fazem cara feia para crônicas semelhantes a contos e poemas que parecem piadas. Falando nisso, não sou boa contadora de histórias nem de piadas. Quer dizer, estando em uma mesa de bar ou entre amigos numa festa, sei direitinho que minha função mais adequada é a de ser toda ouvidos. Várias vezes tentei contar alguma piada que conheço e me faz rir: o resultado é desastroso. Eu mesma me interrompo, ao notar que, contada por mim, a piada não tem graça nenhuma.

Em tempos globais, é quase impossível controlar a propriedade intelectual. As idéias supostamente originais e as idéias piratas circulam todas juntas, ao mesmo tempo. Falar em bricolagem é coisa do passado. Fica combinado, então, que se for necessário, usarei todos os instrumentos possíveis (e todos os textos disponíveis) para montar uma boa crônica. E quem sabe descubra uma técnica funcional, dou a ela um nome pomposo e daqui há uns anos estarão escrevendo sobre a técnica Eliana Mara de fazer crônicas desmontáveis. Fiquem, então, avisados, que quem escreve estas crônicas tem a frustração de não ser boa contadora de histórias, é terrivelmente sem graça quando conta piadas e não acredita nem um pouco em originalidade. Conceitos complicados e polêmicos como estilo, originalidade, cópia, plágio e pirataria serão todos substituídos pela metodologia do pelicano: caiu da rede e veio pra minha boca, é meu o peixe. E se eu tiver a sorte de ser publicamente acusada de plágio, ganharei alguma notoriedade que o fato de apenas divulgar minhas próprias idéias jamais traria. Esse negócio de idéia original é como ingrediente de sopa: você pensa que a cenoura tem importância, mas quando cai na sopa, vira sopa e deixa de ser cenoura.

Para concorrer ao espaço que ora ocupo, passei por uma rigorosa seleção. Na etapa final fui obrigada a escrever uma crônica, às sete da manhã, sem ter podido engolir nenhuma gota da minha droga. Acordar e não tomar café é muito parecido com chupar bala com papel ou transar com camisinha. Não, não, não. Apaguem isso que escrevi antes do ponto anterior. Essas comparações estão fora de uso. Acordar sem tomar café da manhã não pode ser comparado a nenhuma outra situação. Na verdade, é um oxímoro, do tipo dos oxímoros de Camões, que fica falando de ferida que não se sente e dor que desatina sem doer. Dor na ferida dos outros é refresco. Pois bem, nesta manhã fatídica, enviei para o editor a minha primeira versão das Crônicas Havaianas, que você vai ler daqui a pouco. Aviso que você pode mandar comentários por emails ou através de cartas. Com certeza, para nossos dias, cartas são tidas como objetos obsoletos. As agências de correio nem têm troco para o caso de você decidir comprar um selo. Quase ninguém escreve cartas. O trono é mesmo do endereço eletrônico. Mas ninguém me explicou ainda porque sempre folheamos a correspondência e fazemos cara feia porque só nos enviam contas e malas diretas. Bem, se houver algum interesse, deixo meu endereço: Rua Alberto da Silva, 527-Edifício Ônix- Salvador. Nem só a tribo antiga da bossa nova pode colocar endereço pessoal para circular. Sempre me intrigou o fato de colocarem endereço pessoal numa letra de música. Na música Carta ao Tom 74, de Toquinho e Vinicius, os versos iniciais revelam o endereço de Tom Jobim: Rua Nascimento Silva, cento e sete/Você ensinando pra Elizete/as canções de amor/de amor demais.”

Diante da pressão psicológica, efeito da austera de Head Limonade, o editor, escrevi a crônica sem ter ingerido uma única gota de café. Repito, sem uma única gota. Entendam que, na falta de graça, elegância, coerência ou clareza, só posso responsabilizar o uso desse procedimento medieval de seleção, utilizado pelo editor. E é claro que, se o final lhe parecer desajeitado, entendam que concluí a crônica em péssimo estado de saúde. Dona Carmen, minha velha sogra, sempre diz que não há Senhor do Bom Princípio, só há Senhor do Bom Fim. Bem, isso talvez explique porque ela não é mais, oficialmente, minha sogra.

COMO USÁ-LAS (as crônicas, óbvio, não as sandálias!)

Não pretendo enganar ninguém. E por isso, apresento desde já a concisa e definitiva explicação sobre meu método de construção de uma crônica. Este método já foi registrado e detenho o completo poder sobre a Propriedade Intelectual do mesmo. Se quiser usar o método, cite a fonte. As crônicas estarão escritas a partir da seguinte estrutura:

Título: Aqueles que eu escolher e que meus amigos mais íntimos e inteligentes disserem que está ótimo.

Epígrafe: uma frase. Ou um trecho de texto literário, ensaístico, ou filosófico. Declarações de pessoas muito famosas. Muito importantes. Muito sábias, ou pretensamente sábias, ou equivocadamente importantes. Ou famosas por terem cometidos crimes atrozes. Famosas. Também podem ser escolhidas falas e frases de pessoas completamente anônimas. Ou frases inventadas. Ou frases coletadas nas páginas da Revista Caras, que tem este único serviço de utilidade pública (além de decorarem as salas de espera de dentistas, médicos e salões de beleza). É possível que sejam frases ou excertos compostos da combinação de frase de um sujeito com poema de outro, ou pedaço de frase de fulana com pedaço de frase de sicrano. Será também a zona interativa da coluna. Vocês enviam sugestões de epígrafes e eu decido se utilizo ou não.

Saudação de abertura: ALOHA. Justificativa: porque as crônicas são havaianas e aloha é uma palavra que os surfistas usam para se cumprimentar. Surfistas falam pouco. Por isso, escolheram uma saudação que diz pouco, mas significa muito. Na cultura havaiana, aloha é mais do que uma saudação, é um estado de espírito, um jeito de desejar tudo de bom pra todo mundo (os havaianos foram dizimados pelos imperialistas, que não entendiam nada disso de desejar tudo de bom para todos).

O fato (ou evento) chave: vai estar em algum lugar da crônica, em geral na primeira parte. Regra geral, uma crônica é um comentário sobre um fato e o cronistas apresenta sua visão pessoal. Ele pode ter testemunhado, vivido. Também pode ter lido ou ouvido o fato (tudo depende do grau multimidiático do cronista, é claro). Eu vou incluir fatos inventados. Talvez, comentar um fato que não tenha ocorrido caracterizem meus textos como falsas crônicas (ou crônicas fakes, para homenagear minhas amigas drags). Lembre-se que são crônicas havaianas e sua autenticidade está garantida desde a origem e fixada pelo slogan que usaremos nas camisetas: crônicas havaianas - as únicas que não deformam, não soltam as tiras e não têm cheiro, as legítimas.

As digressões: são partes do texto nas quais o autor ilustra seus comentários e faz comparações. Podem ser dos seguintes tipos: a) materiais; b) afetivas: c) irônicas; d) irritadas; e) displicentes; f) encomendadas pelo editor; g) dirigidas a alguém que quer respirar o mesmo ar que eu respiro; h) escritas para minha mãe gostar de ler; i) escritas para meu filho ficar sem falar comigo uma semana; j) com citações sofisticadas; k) envoltas em atmosfera noir; l) muito confusas mas repletas de imagens impactantes; z) feitas como paráfrase descarada de outras crônicas já existentes no mercado); p) psicografadas por algum espírito de porco que me acorda de noite com mais uma idéia escandalosa, e por fim, feitas de um infinito de combinações possíveis.

A presença do Lorde Machado: a presença do mais ilustre cronista do século XIX, Machado de Assis, será uma das características mantida de modo sistemático e ininterrupto. Esta presença nem sempre estará explícita. Nem sempre será uma cópia fiel. Trechos das crônicas de Machado de Assis serão inseridos em todas as edições e ao final de 12 edições, um mapa das apropriações será divulgado.

As imagens: são aquelas que a Santa Vânia vai criar, quando estiver possuída pelo aloha. Ou possuída por qualquer entidade que apareça.

Saudação de fechamento: Hasta la vista, baby (porque é uma forma cult de humor entre os cinéfilos).

Neste momento de inauguração, encerro o discurso, quebro umas louças no piso deste quarto onde escrevo e assim, abençoada por gregos e troianos, deixo com vocês o episódio insólito, vivido com as legítimas.

AS HAVAIANAS NATALINAS

Para o Natal que passou, pedi um par de havaianas natalinas. Confiando na clareza do pedido, esperei tranqüila. O enunciado "um par de havaianas natalinas" não deixa dúvidas. Esperava eu receber um par de sandálias havaianas em estilo natalino, copiado dos estrangeiros do Norte: sandálias decoradas com neves e pinheirinhos. O máximo de transtorno que imaginei, seria receber um par de outra marca de sandálias ou uma versão de outro tema como verão, floresta, Barbie ou Meninas Super Poderosas. Ao invés disso, recebi a visita de duas mulheres que se diziam havaianas.

Examinando-as: cabelos compridos muito brilhantes que pareciam cabelos de mentira. Olhar de alegria sedutora, cintura fina e acolhedora nos seus movimentos para a direita e para a esquerda, mesclados com algumas piscadas em slowmotion. Traziam em volta do pescoço os indispensáveis e numerosos colares coloridos.

Se você me perguntar o que é que a baiana tem, não vou dizer a mesma coisa que aquela letra de música famosa, na qual a baiana, requebrando sem parar, traz, num tabuleiro, docinhos e comidas típicas, que coloca em cima da cabeça (será que fica em cima da cabeça por motivos estéticos?).

Veja bem: a baiana é uma pessoa e o tabuleiro é um objeto. Não dá pra usar essa metonímia sem culpa: o que o tabuleiro tem não é a baiana; a baiana não é o tabuleiro. Ou não. A baiana cresce, vira reitora na universidade, escreve livros, dirige peças e filmes, faz palestra em outros países, mas os conterrâneos da baiana insistem naquela visão que mostra a baiana com aquele tabuleiro em cima da cabeça, requebrando feliz. Estranhamente, a baiana cresce, larga o tabuleiro mas a pátria da baiana não a reconhece.

Pois é, voltando ao par de havaianas que ganhei no Natal. Eram duas mulheres não havaianas. Tudo indica que vieram do Paraguai. Lugar imaginário de tantas origens, onde as baianas nascem com tabuleiro na cabeça e as havaianas saem das barrigas da mãe desenrolando os colares. Todas saem dançando, é claro.

As havaianas natalinas não receberam o décimo terceiro e estão cheias de dívidas. Já compraram o fogão novo, em apenas 48 meses para pagar. Fingem não saber que o Natal é uma época de perderem o controle do pouco dinheiro que recebem durante o ano. Elas são contratadas por uma agência desorganizada, que aluga para festas, batizados e despedidas de solteiros: havaianas, baianas, dançarinas de funk e axé, bailarinas de programas da televisão, papai noel, coelho da páscoa e bruxinhas norte americanizadas para a comemoração esquizofrênica do feriado norte americano em terras brasileiras.

Alguém me enviou as duas mulheres, cheias de contas para pagar e ávidas por um final de semana no Havaí, quando enfim poderiam descansar. Todas me responderam que se acreditassem em Papai Noel, também pediriam a ele para serem recebidas por havaianas. Ah, e o mais importante: os colares coloridos.

Hasta la vista, baby!

 

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