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Colunas: DAGUERREÓTIPOS
Um raibã
por Tom Correia

 

Às três da tarde o casal desceu do carro prateado. O sol forte, com o ar parado, exigia ventilação artificial nos ambientes. O homem ficou olhando ao redor, procurando o restaurante. A mulher parecia falar sozinha, mas segundos depois ficou perceptível. Falava ao celular, utilizando aquele aparelhinho acoplado à orelha. Mais uma breguice tecnológica lançada no mercado. Ambos estavam todos de branco, como aqueles ricos que freqüentam a umbanda para pedir proteção pra saúde. Da financeira, principalmente. Eu não quis esperar por eles no trabalho. Iam vasculhar minha vida. Tenho muitas reservas. Fiquei na porta, esperando que atravessassem a rua. Por coincidência o motorista deles era um conhecido meu. Que mundinho. Nos reconhecemos e nos ignoramos sincronicamente. Uma antiga rusga da adolescência, bobagem levada a sério através do tempo.

O homem havia me falado, pelo telefone, que tinha 70 anos. Ao avistar a mulher, vi que ela estava por volta dos 30. Olhei para a minha fardinha de supervisor e para a roupa que usavam. Melhor não comentar. Eu estava endividado. Já estava no estágio de fazer empréstimos para pagar outros empréstimos, uma ciranda suicida. Os óculos esporte da mulher eram ostensivos, daqueles vistos somente em funerais classe A, em cemitérios de gramados assépticos. Pelo menos na superfície é tudo muito bem cuidado, dando a sensação de que ser enterrado ali é um ótimo negócio. Para alguns realmente deve ser.

Sentamos de frente para o mar. Lá no final, o farol. Uma das partes mais bonitas da cidade. Oitenta por cento do resto dela era sofrível. Os bolsões favelados engolfavam, num abraço asfixiante e veloz, o que ainda restava de belo. Perguntei o que queriam. Pedi a água com gás e a beberagem light. Minhas dívidas se multiplicando a cada segundo e eu mantendo a pose de educado, de desprendido. Os óculos dela valiam mais do que todos os meus empréstimos e ainda sobrava algum. Contabilizando o que só ela carregava no corpo, talvez desse para comprar uma casa. No subúrbio, mas uma casa. O homem tinha um problema de dicção que o dinheiro não havia conseguido sanar. Seus óculos de sol também eram de grife, mas da linha clássica. Mais discreto. Desarticulado, balbuciou sua proposta, não antes de fazer um rodeio de etiqueta.

"Gostei do seu livro."
"Bondade sua."
"Quero que você me ajude a escrever um também. Mas não um livro como o seu, ha!ha!"

Não entendi o "não-um-livro-como-o-seu-ha-ha.”

"Qual o tema?", perguntei.
"É um manual da vida sexual do marido sessentão."
"O tema é bom", muito endividado. Mesmo.
"Estou montando uma equipe, já temos uma excelente digitadora. Precisamos agora de um consultor. Meus amigos editores vão bancar 5 mil exemplares, uma edição de luxo. A noite de autógrafos vai ser no MAM, autores consagrados estarão presentes com ampla cobertura da mídia, tudo impecável. A orelha vai ser escrita por um imortal", disse em grunhidos sem legenda.

A mulher bebia o guaraná com afetação, controlando os arrotinhos com mão discreta à boca, sorrindo para mim. Os óculos agora seguravam os cabelos, tratados fio-a-fio; o que foi gasto no tratamento dos seus dentes brilhantes devia cobrir folhas de pagamentos inteiras de micro-empresas.

"Não entendo nada de edição de livros."
"Não tem importância."
"Nem de editoras."
“Não tem problema. Queremos você na produção do livro. Você vai me orientar como organizar os capítulos, revisar o texto e dar idéias."
"Trabalho o dia inteiro, livro exige muito tempo livre", dar idéias era um perigo.
"Podemos arranjar isso", a mulher falou. Sem arrotinho.

Se eu não tivesse enviado meu livro e um pequeno texto moderninho para o endereço publicado nos classificados eu teria economizado o dinheiro do envelope, da postagem, do guaraná light e da água com gás, mais cara. Mas quando vi o anúncio pensei que se tratasse de uma biografia. Tenho tara por biografias, até por aquelas sem interesse algum. Eu devia me transformar num biógrafo de vidas vazias, um nicho não explorado. Li não sei quando que geralmente os velhotes endinheirados querem ver sua vida publicada antes de morrer, mas eu pensava que isso só acontecesse nos grandes centros, não num lugar como esse, onde livros são tratados como entulho a ser removido para aterros sanitários. Geralmente quem tem dinheiro não sabe escrever. E os que sabem, não conseguem ganhar dinheiro. Obter alguma remuneração com certos tipos de arte é pura loteria. Era comum a permuta.

"Sou médico aposentado, nosso bebê nasceu há 3 meses", ficou esperando minha reação. Não sei por que disse isso naquele ponto. Talvez quisesse se mostrar confiável.

"É menino ou menina?", uma saída diplomática.
"Menino. Parece muito com o avô", a mulher disse. Fez um afago sutil no rosto do homem.

“Se ele poderia ser avô dela, que dirá da criança”, pensei.

Por instantes me ausentei e deixei o casal falando sozinho. Olhando o farol, eu pensava na evolução das minhas dívidas, uma forma masoquista de enfrentar a situação. Eu estava engessado por elas. Houve um ou outro comentário elogioso e desnecessário sobre o que escrevi, mas não prestei atenção. Ele se levantou e investigou por um tempo onde poderia ficar o banheiro. Parecia ter problemas de visão, mas ao deixar os óculos em cima da mesa, vi que seus olhos eram bons. A mente é que era turva.

Ficamos meio constrangidos com a ausência dele. O guaraná estava no fim e eu não tinha dinheiro para outra latinha. Ela se abanava com as mãos, em gestos rápidos. Nem assim, falamos sobre o calor ou sobre o tempo, como as pessoas sem assunto fazem para se safar do silêncio.

“Você acha mesmo que esse livro vai dar certo?”
“O que é dar certo pra você?”
“Sei lá, o autor ficar famoso, vender muito, ganhar algum. É pra isso que se publicam livros, não é?”
“Nem sempre.”
“Será que vai vender?”
“Tem tudo pra isso.”, pensei nos escritores e na cobertura da imprensa. Também na orelha imortal. Os amigos editores, claro, eram indispensáveis.
“Será mesmo? Acho uma bobagem gastar tanto para publicar um livro. Não digo nada porque é um sonho antigo dele, sabe?”.
“Sei como é.”
“Você ganhou muito com seu livro?”
“Não ganhei nada.”
“Nada? Mas por quê?”

A minha cota de sorte do dia foi gasta quando ele retornou. Conversar sobre publicação de livros era uma grande aporrinhação. O homem me salvou, sem saber. Havia uma mancha amarelada na calça lacoste dele, na altura do zíper. O jacarezinho também devia ter os seus problemas na próstata. Trocamos nossos números e agendamos telefonemas para dali a uma semana. Acertamos os valores, mas não chegamos a um acordo quanto aos horários. Eu não podia deixar minha fardinha. Eles saíram e fui pagar a conta direto no caixa, tentando driblar os dez por cento do garçom. Era opcional, mas eu sempre optava errado, pagando sempre.

Um ano se passou sem telefonema algum. Liguei algumas vezes e nunca estavam. Minhas dívidas continuaram num rolo compressor do qual eu escapava aqui e ali, com arranhões e perícia. Adquiri a mania de ficar olhando as vitrines das óticas caras dos shoppings, comparando preços dos produtos com os valores do meu passivo. E quando já havia esquecido daquela tarde, recebi pelos correios um convite para uma noite de autógrafos. Reconheci o título e o local do lançamento. O convite dava direito a um exemplar.

Quando eu saísse do MAM, eu ia vender o livro. Uma pena o valor não dar para comprar um raibã. Nem para isso os livros servem.

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