
Ensaio
Fugaz como um Perfume
por Ademir Luiz*
Certa ocasião, um entrevistador abusado perguntou para Marilyn Monroe o que ela usava quando ia dormir. Marilyn, com sua eterna expressão de pin-up provocante, respondeu: “duas gotas de Chanel nº. 5”. Foi um escândalo. Mas, também, um imenso e, aparentemente, involuntário golpe publicitário. A fragrância criada pela estilista Coco Chanel em meados dos anos 1920 já era uma lenda. Não precisava de revelações íntimas de uma estrela de cinema para vender. Ao contrário: até então sinônimo de elegância refinada e discreta, a marca Chanel nº. 5, a despeito do sucesso comercial, ressentiu-se da agora indissociável relação com a imagem de vulgaridade soft da “loira burra” nº. 1 do cinema.
Não raramente é isso que acontece quando a indústria do cinema, às vezes chamada de “sétima arte”, flerta com outras formas de produção criativa. A diluição de seus elementos primordiais, em prol do discurso assimilável pelas grandes platéias, é quase inevitável.
Mais uma vez, foi o que aconteceu com a adaptação cinematográfica do brilhante romance O Perfume, do alemão Patrick Süskind. Lançado em 1985, no rastro da moda de best-sellers eruditos, iniciada com O Nome da Rosa, de Umberto Eco, o livro de Süskind é uma pequena pérola que está entre os melhores romances das últimas décadas. Não que tenha uma narrativa perfeita. Pelo contrário, seu enredo apresenta furos primários e, em diversas cenas, peca pela inverossimilhança. A inexperiência do autor é evidente.
Nascido em 1949, filho de um jornalista censurado pelos nazistas, Süskind estudou História na Universidade de Munique, sem chegar a se diplomar. Imensamente tímido, e aparentando pouca ambição, passou a ganhar a vida como professor de província. Em 1984, inspirado por suas atividades como músico amador, escreveu um elogiado monólogo: O Contrabaixo. O provocador Antônio Abujanra chegou a montar o espetáculo no Brasil, com bastante sucesso. Após a boa receptividade à sua estréia literária, Süskind passou a publicar os primeiros capítulos de O Perfume na revista “Frankfurter Allgemeine”. Considerava que “sua história era tão absurda que, se conseguisse terminá-la, talvez pudesse alcançar certo número de leitores”. Além da timidez, Süskind é conhecido pela modéstia. O que ele chamou de história “absurda” seria mais bem definida como “original”. Para além das falhas estruturais, a originalidade é o grande trunfo de O Perfume, o livro.
A falta de originalidade é o grande problema de O Perfume, o filme. Não que seja uma obra ruim. É um longa tecnicamente bem realizado, com uma adaptação de roteiro bastante razoável, direção competente e boas interpretações. Contudo, é demasiado formal, excessivamente preocupado em agradar o público médio. Essa postura transformou um candidato à obra-prima em um filme bom, porém comum. A sensação que deixa, sobretudo no espectador que leu o romance, é que poderia ser infinitamente melhor. A saga de Jean-Baptiste Grenouille, o perfumista sem cheiro, assassino de virgens, renderia um épico intimista inesquecível se recebesse o tratamento cinematográfico adequado.
É bem verdade que os roteiristas, inteligentemente, podaram algumas passagens maçantes do romance, tornando o enredo mais direto, sem digressões. Por outro lado, entupiram a história com flash-backs desnecessários e inventaram uma absurda paixão do protagonista por sua primeira vítima. Algo que inexiste no livro. Pelo contrário, Süskind deixa claro que “o início dessa maravilha tenha sido um assassinato, isso lhe era de algum modo consciente, totalmente indiferente. Já nem conseguia mais se lembrar da imagem da mocinha da Rua des Marais, do seu rosto, do seu corpo. Tinha preservado e se apropriado do melhor dela: o princípio do seu perfume”. Imagino que os roteiristas pretenderam, equivocadamente, inserir alguma humanidade ao absolutamente desumano Grenouille. Um monstro não precisa de motivos. Ao mesmo tempo, ampliaram as habilidades sobre-humanas do nariz refinado do personagem. Em um dado momento, o pequeno Grenouille escapa de ser atingido por uma fruta podre, arremessada por seus colegas de orfanato, porque a farejou no ar. Praticamente o sentido de aranha de Peter Parker. Exagero flagrante. Grenouille não é um super-vilão de histórias em quadrinhos.
A direção de Tom Tykwer é boa, embora um pouco pesada. Peca por abusar do uso de efeitos gráficos em cenas dramaticamente complexas. Ao invés de sugerir, mostra, em prejuízo da sutileza. Deixa a sensação de que optou pelas soluções mais fáceis, visualmente mais exuberantes e, pretensamente, mais atraentes. Acertou na escolha do elenco principal. A interpretação de Ben Whishaw, no difícil papel do protagonista, é o ponto alto do filme. Notável, tanto nas poucas falas quanto nos longos momentos de silêncio. Transmite com perfeição a mescla de iconoclastia, loucura e crueldade do patético, e genial, perfumista. Dustin Hoffman e Alan Rickman exibem a competência habitual. Rachel Hurd-Wood, interpretando a vítima principal de Grenouille, é lindinha e engraçadinha como manda o figurino. O deslize ficou por conta da escolha dos figurantes. Ao invés de levantar um elenco de extras com rostos excêntricos, fellinianos, como Jean-Jacques Annaud fez em O Nome da Rosa, Tykwer escalou um vasto grupo de pessoas bonitas, maquiadas para parecerem feias e sujas.
O pseudo-erotismo de O Perfume sofre pela falta de ousadia. Ao invés de esmerar-se em criar climas, como convêm ao bom cinema, fica no estranho limbo entre a nudez gratuita e o recalque. Limitou-se a mostrar, timidamente, algumas mulheres nuas, por mera imposição do roteiro. Mas erotismo não é pornografia, como provou Philip Kaufman em A Insustentável Leveza do Ser e Henry & June. É um tema delicado, exige tato. Quando Tykwer precisou ser mais explícito, resvalou no risível. A cena da orgia final parece ter sido filmada, e rejeitada, para uma comédia do Monty Python. As centenas de extras não parecem um exército de animais desprovidos de qualquer tipo de amarra social, e, sim, um bando de adolescentes envergonhados e inexperientes, incertos sobre onde podem ou não pegar, amassar, beijar etc., etc., etc. Uma vez que Tykwer optou por mostrar o bacanal em luz direta, em forma de coreografia, poderia ter dirigido melhor seus figurantes.
Mas não é o caso de crucificar Tom Tykwer. Trata-se de uma questão de padrão de excelência. Não se pode exigir que Francis Poulenc, com certeza um ótimo compositor sacro, componha a Missa em Si Menor. É preciso ser Bach para fazer isso. Da mesma forma, não seria conveniente exigir que Omar Souto pintasse seus painéis primitivistas na Rodovia dos Romeiros com o mesmo brilho com que Michelangelo pintou o teto da Capela Sistina. Tom Tykwer é um cineasta de talento e bom domínio técnico, mas não é, absolutamente, um gênio do cinema. O Perfume poderia ser sua chance de se consagrar. Não foi desta vez. A adaptação do livro de Süskind, em virtude de todas as suas nuances, exigia um monstro sagrado.
A sensação de anticlímax é maior porque se sabe que Stanley Kubrick flertou com o projeto durante um bom tempo, nos anos 1980, quando o livro estava na moda. Desistiu para filmar o mediano De Olhos Bem Fechados, seu filme-testamento. Creio que não quis se sujeitar a ser veículo para Süskind, como foi para Nabokov, em sua versão de Lolita, preferindo se dedicar a adaptações de obras menos populares, às quais poderia moldar como bem entendesse. Lamentável. Em suas mãos, é provável que Jean-Baptiste Grenouille se tornasse uma figura cinematográfica da estatura de Alex, o Largo, o terrível e impagável criminoso de Laranja Mecânica.
Circula que Süskind, depois da desistência de Kubrick, e de negar os direitos a muitos outros diretores, ofereceu a adaptação para Milos Forman. O tcheco não se interessou. Uma pena. Sua obra-prima, Amadeus, carrega o tom que O Perfume precisaria para fazer história. Afinal, quem soube lidar tão lindamente com a fluidez dos sons, certamente saberia fazer o mesmo com a fluidez dos odores. Bons e ruins.
Mas, enfim, O Perfume está condenado a ser reconhecido apenas no terreno da literatura. Sua versão filmada será como uma fragrância razoavelmente agradável que, de repente, toma o ambiente. Um perfume um tanto adocicado que infesta nossas narinas, provoca algumas sensações, e logo se dilui no ar, sem deixar muitas lembranças. Nenhum Chanel nº. 5.
* Ademir Luiz é professor da UEG e ficcionista. Autor do romance Hirudo Medicinallis.
topo | página inicial
|













Vânia Medeiros
@Flickr
|
O QUE ROLOU ANTES

PARCEIROS









|