verbo21
créditoscontato
seções
selva studio webdesign

Ensaio
Extrato do romance inédito O Colaborador Bento
por Mayrant Gallo

 

MAYRANT GALLO é contista e poeta. Autor de O inédito de Kafka (CosacNaify, 2003) e Dizer adeus (Edições K, 2005). Já publicou textos na Entrelivros, Continente, Iararana e no Rascunho. Colabora regularmente no Correio da Bahia, com crônicas, contos e ensaios. O colaborador Bento narra a história (em primeira pessoa) do escritor Dino Endre, que, enquanto escreve um roteiro de quadrinhos por encomenda, o qual ele não vai assinar, envolve-se com Póli Rios, amante-aluna de seu melhor amigo. O relacionamento oscila conforme ele aceita ou recusa os conselhos de um segundo amigo, ao mesmo tempo machadiano e noir. O capítulo 49, de um total de 65 (mais prólogo e epílogo) está localizado no terceiro terço do livro, mais misterioso e cifrado. Uma novela de entretenimento. Simples, direta, irônica e engraçada.



49

Alugamos um carro e fomos até o extremo sul de Lus. As instruções do obscuro Fernando mencionavam um cais abandonado e, em volta, um cemitério de navios. Dissera que o cais ainda estava intacto e que era seguro, podíamos até chegar com o veículo sobre ele e esperar.

Durante um quarto do percurso Póli dirigiu. Logo que nos reacostumamos um com o outro e voltamos a nos falar com naturalidade, ela me passou a direção. Mais tarde, chegamos a dar umas boas risadas, como nos velhos tempos. Claro que eu ainda não tinha ânimo para piadas, mas ria do que ela falava, de suas lembranças dos nossos melhores equívocos, todos realmente risíveis e que, em qualquer pessoa, formam a parte mais substancial da vida. Talvez, depois, chegássemos aos momentos mais líricos e, por fim, aos picantes, que voltariam a nos unir, corpo sobre corpo.

No meio do caminho, paramos no restaurante de um posto de gasolina e fizemos uma refeição rápida. Enquanto comíamos, mal nos falamos. Percebi que, à medida que nos aproximávamos do nosso destino, Póli ficava mais quieta e preocupada, quase abatida. Eu não sabia aonde íamos, nem qual era o motivo daquela viagem. Nem me interessava saber. Depois de tudo, daquele tal Valdo, poeta medíocre, e do silêncio que nos separou por tantos dias, eu preferia gozar da presença de Póli – ainda que sob risco de perder a vida – a amargar sua ausência. Isso talvez provasse que eu a amava. Sim, talvez. Querer ficar com alguém já é um indício do quanto a pessoa nos é indispensável. Ou então é só desespero. Medo de estar só, de parecer rejeitado, num mundo que nos impõe a cada dia mais estranheza, um ar asfixiante de calabouço.

Póli parou de comer, abriu a bolsa e me mostrou o que eu jamais esperaria encontrar na bolsa de qualquer mulher, pelo menos não em vida, e ademais na bolsa de Póli, que não passava de uma garota.

– Pra que este revólver?!
– Nando pediu que eu trouxesse – esclareceu, com uma expressão de vaidade e ironia.
Parei de comer e fiquei, como um débil mental, olhando o interior de sua bolsa. Póli atentava à sua volta, cuidando para que os fregueses do restaurante não percebessem o que ela me mostrava. Seus lábios tremiam de excitação.
– Póli Rios, o que vamos fazer naquele cais? – perguntei, num tom sério, de censura.
Ela se levantou.
– Pegar uma encomenda.
– Mas o quê? É droga?
– Não sei. Sei apenas que temos que pegar a coisa, guardar e esperar um contato por telefone. Não posso dizer mais nada, mesmo porque não sei mais do que isso.
Fechou a bolsa e a atravessou no corpo.
– Bem, vou ao banheiro – avisou.
Fui ao caixa, paguei a conta e fiquei esperando. Um minuto depois ouvi o disparo. Todos no restaurante se levantaram e olharam em direção ao som. Corri e, para a minha felicidade, ao abrir a porta, me deparei com Póli diante do espelho estilhaçado, a arma fumegante. Ela me olhou:
– Foi mal, disparou... – disse, num tom infantil, balbuciante.
Tomei-lhe o revólver e o guardei dentro de sua bolsa, que ficou comigo, atravessada em meu corpo.
– Vamos embora! – ordenei.

Uma multidão se postara diante da entrada do banheiro e tivemos que atravessá-la, aos trancos e empurrões, as mãos alheias nos tocando como se fôssemos santos ou heróis. Expliquei que não acontecera nada, que estava tudo bem, e escapamos. Quando alcançamos o carro, o gerente do restaurante veio correndo em nosso encalço, aos gritos. Ignorando-o, liguei o motor e manobrei, o homem como mosca à nossa volta, auxiliado agora por dois garçons enfurecidos. Deixamos o posto e ganhamos a estrada.

– Bem, você acertou o alvo – brinquei, mais calmo. Meu humor voltara, quase de repente e sem qualquer motivo.
– O quê? Não entendi... – Póli ainda estava abalada.
– Seu reflexo. Você acertou seu reflexo.
Depois de um segundo, ela afinal sorriu.



topo | página inicial

 


tribuna
entrevista
ensaios
opinião

colunas
crônicas havaianas
dagerreótipos

eros+errante
kaos kapital

verde
vértebra

 

artista do mês



Vânia Medeiros
@Flickr




O QUE ROLOU ANTES

verbo21 vintage

 

PARCEIROS

bestiário

selva

União Brasileira de Escritores