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Ensaio
O beatnik dos Pampas
por Ésio Macedo Ribeiro

 

A poesia vive, hoje, um momento privilegiado. Pelo menos no Brasil onde este gênero literário tem apresentado os melhores resultados estéticos dentro do insosso panorama literário atual. Mesmo com a falta de editores propensos a publicar poetas, mesmo com a pouca vendagem, mesmo tendo poucos e cada vez mais raros leitores, ela resiste. O que tem a poesia para fascinar tanto, para embriagar cada vez mais quem queira praticá-la? É uma pergunta de múltiplas respostas e não cabe aqui fornecê-las.

Neste quadro de crescimento da qualidade poética e dos questionamentos a ela inerentes, é que se apresenta a nós, no ano da graça de 2006, um novo poeta: Joelson Ramos. Um gaúcho, de Canoas, de 29 anos, que abandonou a música para enveredar-se pelo espinhoso mundo das letras.

Estréia com o livro Elegias Prozac+Annas & Outros Poemas, editado pela Editora Brejo, sediada na capital gaúcha, com um projeto gráfico bastante original a partir da idéia de Joelson, que era a de compor a sua “droga” a partir da capa, que lembra uma caixa de remédios de tarja vermelha, contendo trinta “poemas-drágeas” e mais uma “Bula”— espécie de manifesto — que vem encartada nela. O título é uma mistura de lamento com drogas e mulheres — as “Annas” — e remete-nos, de imediato, aos dois primeiros títulos publicados pelo escritor beatnik norte-americano, Allen Ginsberg, que são Howl and other poems e Kaddish and other poems. E esta remissão não é de todo infundada, já que Joelson, ele mesmo, é um profundo admirador da obra deste autor.

Curiosidade é o que não falta neste livro, que é composto de 30 poemas titulados e organizados de modo a que a “dor interna”, contida neles, vá sendo resolvida a partir da “droga” inicial da “caixa de remédios” antitudo, a “Elegia prozac+anna 10 mg”, aumentada à medida que o leitor vai consumindo com os olhos os paliativos que antecedem a nova “dose”, que é elevada, pelo poeta, para 20, 40 e 50 mg, diretamente de seu mundo devastado de adolescente transportado para adulto, numa tentativa de suportar “doenças” da alma e do coração.

A vivacidade e o interesse literário de Joelson Ramos brotam do furor que, nele, parece transbordar. Há uma luzinha que capturei em seu olhar quando, juntos, caminhávamos, em 2002, pela mostra especial de pinturas de Edoard Münch, na Bienal do Mercosul, em Porto Alegre. Os olhos jovens do poeta fisgavam com avidez o “belo” nos quadros do artista norueguês e ficavam embebidos de luz. Uma luz que era transportada dele para mim, principalmente quando estacamos diante de uma das versões da tela “O Grito”. E, agora, põe essa luz aqui, no livro de estréia, que, desde já, vale como uma comunhão com o inefável.

O sedutor e original título, Elegias Prozac+Annas & Outros Poemas, já nos dá uma pista sobre o que nos espera no interior do invólucro. Embora o termo “elegias” nos remeta aos poemas líricos de tons geralmente ternos e tristes — esta é uma característica da poesia e da pessoa de Joelson —, compostos de versos hexâmetros e pentâmetros alternados, elas não têm presença neste livro, pela ausência do tom lamentoso e da métrica inerente à elegia. Pois Joelson faz poesia moderna, mas de tonalidade sombria, numa provável reverência aos poetas simbolistas franceses, em especial, a Arthur Rimbaud, que comparece no livro, no poema-homenagem “No túmulo de Rimbaud”.

O conjunto de poemas dialoga entre si. Os temas abordados são os da vida, do cotidiano, como amor, família, trabalho, religião, natureza, miséria e, sobretudo, drogas.
Joelson traz para a letra de forma seus anseios e vicissitudes, suas angústias e remorsos, suas tristezas e questionamentos, seus amores e desafetos, numa obra cujos dois principais pilares são o passar-do-tempo e as desditas da vida. Enigmas que o poeta parece não conseguir resolver ao longo do livro. E nem poderia, pois os mistérios do mundo jamais serão exauridos pela mente do homem.

Parece-nos não ser fácil exortar toda esta gama de sentimentos contidos neste ser que se chama Joelson Ramos. A “alma”, para ele, não é uma representação mas algo vivo, como o demonstra no poema “Travelling no quarto”: “Se há alma, está atrás da câmera”.
O tempo na poesia, como no teatro e na prosa, é de extrema importância. O poeta deve ter a sensibilidade para o momento propício de realizar ou de perceber a ocorrência de algo, ou ter o senso de oportunidade quanto à duração de um processo, de uma ação, enfim, de saber o “timing”. O texto precisa causar alguma estranheza, pois sem ela o livro se dilui, fazendo com que o leitor muita vez abandone a leitura. E Joelson consegue nos fazer deslizar os olhos por seus textos com entusiasmo, por versos como estes: “Meu sofrimento é o peso dessa armadura / ostentada por minha alma: trágica, / teu olhar  minha culpa  estragou nossa mágica.”

Em muitos momentos sua poesia sugere guinar para o prosaico — dadas as devidas diferenças —, à moda de Arthur Rimbaud e, ainda e principalmente, dos poetas beatniks norte-americanos, mas, quando isto acontece, o modernismo irrompe enxugando o possível jorro poético que poderia advir da combinação subjetiva de sentimentos e de pensamentos, como acontece com a poesia simbolista, por exemplo.

A musa de Joelson não o abandona na tessitura de seus versos. Há poemas de rara beleza, como aquele “Infância”, em que a concisão e o poder imagético das palavras vigoram:

Pobre de minha mãe.
Pobre de meu pai.
Os Pink Floyds de minha irmã.
Os Black Sabbaths de meu irmão.
A família carpia o dia.
A criançada brincava de primeiro mundo.

Noutros momentos, seus poemas são típicos do movimento literário e artístico lançado em 1924 pelo escritor francês André Breton (1896-1966), o Surrealismo, que se caracterizava pela expressão espontânea e automática do pensamento — ditada apenas pelo inconsciente — e, deliberadamente incoerente, proclamava a prevalência absoluta do sonho, do inconsciente, do instinto e do desejo, pregando a renovação de todos os valores, inclusive os morais, políticos, científicos e filosóficos, como podemos perceber em seu poema “Versículo do ventríloquo”:

Está fluindo, a noite inteira.
A noite está fluindo a noite inteira.
Aos pés da cama o mundo está parado.
Está a cama dormindo seu sono egoísta.
O sonho é estranho e não se modifica:
Num mundo sonâmbulo alguém acordado
Continua fluindo a noite inteira.

Ou ainda no poema “Último dia”, em que o sujeito rejeita o conformismo dos costumes e valores convencionais, assumindo uma filosofia de vida e um comportamento pessoal exóticos para o padrão médio, mais próximo da escrita beatnik: “Antes, bebíamos. Amigos e pecados católicos / jogavam basquete na terra do futebol!”
E é nesta angústia existencial, de não entender o mistério que envolve certas coisas, que Joelson vai apresentando ao leitor seu relato de vida, especialmente no poema “Elegia prozac+anna 50 mg”, em que o sujeito se lê: “Gramaticável tornei-me e incomensuravelmente delirantes / foram as narrativas que eu vivi.“ O sujeito é já passível de interpretação, como se fora uma teoria e, ao mesmo tempo, declara que o que o representa é fruto das experiências “delirantes” vividas por ele. Numa espécie de dualidade de si consigo mesmo, autofagicamente, revela o eterno conflito entre o vivido e o aprendido: “Dois de mim se encontram aqui: / o que consome (e) o consumido.”
O que se percebe ao lermos seus poemas é que ele não está fazendo poesia para agradar o público, mas simplesmente para satisfazer o seu íntimo. O que é muito louvável, pois, agindo deste modo, sua “verdade” chegará mais fortemente ao público-leitor. Assim, a sua poesia pode ser considerada como a tradução dos seus anseios revelados, como neste “Momento final”:

Agora, conto quantas armas usei.
Joguei todas as cartas postas
e fui derrotado. Meus
adversários: amaldiçoei;
as rosas sobre a mesa, mortas.
Eu precisava ser sepultado.
Perdido, sem perdão, não pedirei.
Guardo forças para arrumar as hortas,
tudo tem de ser replantado.

Os quatro primeiros versos do poema que encerra o livro, “Ecos de um sonho ainda vivo” (Nos oferecemos ao mundo. / Venha, iniciado o ritual, / nos untamos de vida, / e iremos gastá-la.”), são, como se pode notar, o mote do livro, ou seja, uma apresentação do sujeito ao mundo e, ao mesmo tempo, um convite ao leitor para entrar no “ritual” da vida que o acomete. O que é reforçado nos versos finais deste poema:

Mais ao sul do éden,
me acompanhem pelos versos
sem guitarra baixo bateria,
ao som dos roncos da barriga,
a evolução das maravilhosas cidades
em função dos cânticos de esquina.

Joelson, ao passar estas experiências ao leitor está, de certo modo, cumprindo o seu sacerdócio. Aquilo que ele escreve auxilia o outro que também está se buscando. Porque escrever e ler são formas que o homem encontrou para buscar-se e se situar no mundo. Os versos deste poeta gaúcho são versos cujos elementos e circunstâncias apresentadas definem o sujeito, o seu norte e o seu ofício.

Finalmente, ao encerrarmos a leitura de seu livro, temos a nítida sensação de que tomamos contato com o que há de mais elementar para o homem: o mundo exterior e o mundo interior. Elegia prozac+annas & outros poemas configura, assim, um pródigo e belo exemplo de leitura da existência, por alguém que, se supõe, conhece e ama a sua vida e a de seu semelhante.

ELEGIAS PROZA+ANNAS & OUTROS POEMAS
Joelson Ramos
Brejo Editora
R$ 28,00

 


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