
Entrevista
Yara Camillo
por Lima Trindade
YARA CAMILLO é escritora, diretora de teatro e atriz.
Nascida em São Paulo no final dos anos 50, formou-se em Comunicações com especialização em Cinema pela Fundação Armando Álvares Penteado - FAAP. Em 2004 publicou Hiatos, livro de contos com capa e ilustrações do artista plástico Wilson Foca Neves e apresentação de Caio Porfírio Carneiro. Prepara agora uma nova investida literária: Volições, livro de contos onde repete a parceria com Foca e tem lançamento marcado para o dia 17 de março na Casa das Rosas (SP). Numa manhã chuvosa e pré-carnavalesca, dividindo sua atenção entre cães e gatos, concedeu esta entrevista exclusiva para Verbo21.
LIMA TRINDADE – Sua formação artística é bastante heterogênea. Comunicação, cinema, teatro e literatura. Isto me parece ser algo bem característico de uma geração que, no final dos anos 70 e início dos 80, tinha a ambição de romper fronteiras pré-estabelecidas, tratando de políticas outras, cotidiano, rock, sexualidade, desrepressão... Em que medida isso tem a ver com a abertura do fim da Ditadura Militar?
YARA CAMILLO – Essa vontade de romper com as fronteiras, inclusive com o conceito da especialidade, existia, sim. Você não podia tentar várias linhas, buscar várias formas de Arte, ou de que outro trabalho fosse. Era preciso escolher um caminho. Para usar um termo da época, o sistema dizia que você deveria optar por uma profissão e ser o máximo, um super. Se você fosse especialíssimo em alguma área, poderia ser um retardado em outras. Aquele conceito básico do Clark Kent... Parece que o cara tem que ser super, já que não consegue simplesmente ser. Então, já havia uma vontade de romper com essa regra, que era também uma forma de opressão. O pessoal da minha geração era criança na época brava da ditadura. Tínhamos de brigar de outro modo. Que tudo isso, que todas as lutas – e não dá pra esquecer a das gerações anteriores, gente que deu tudo e um pouco mais – tiveram a ver com a Abertura... Claro, mas as coisas não acontecem isoladamente. No final dos anos 70, início dos 80, já estava pra lá de provado que aquilo não funcionava. Até os opressores compreenderam que era o fim de um processo. Compreenderam, inclusive, que era possível dominar de outro modo. E aí estão, já não muito firmes, mas ainda muito fortes.
LT – Quando você cursou a FAAP, teve algum contato com o pessoal do Pod Minoga? O grupo teve alguma influência na sua construção autoral?
YC – Não tive contato com o Pod Minoga. Mas claro que a linha do grupo influenciou todos os que admirávamos o trabalho do Naum Alves de Souza, do Flávio de Souza, do grupo em geral. Era uma linha de trabalho muito livre, era o que mais se precisava, naquele tempo. Em todos os tempos.
LT – Nesta época, teve oportunidade de assistir a alguma apresentação do Asdrúbal trouxe o Trombone?
YC – Assisti ao “Trate-me Leão”, uma delícia de trabalho. O pessoal do Asdrúbal conseguiu concretizar e traduzir o que muitos grupos de Teatro da época desejavam fazer. Foi marcante, acho que todo mundo que viu não vai esquecer.
LT – Depois que se formou, chegou a fazer cinema?
YC – Não. Fiquei mais na área do Teatro, mas ainda quero trabalhar com Cinema.
LT – Tem maior prazer em atuar ou dirigir teatro? Fale das suas primeiras peças.
YC – Gosto tanto de atuar como de dirigir. O Teatro foi meu primeiro amor na Arte, a primeira linguagem com que tive contato, quando criança. Por volta de 1967, comecei a fazer parte do Timol, Teatro Infantil Monteiro Lobato, fundado pelo Iacov Hillel, na Biblioteca do mesmo nome. O Teatro acenava com uma liberdade de ver e criar e ser, que eu nem imaginava existir. Hoje penso que a Monteiro Lobato exercia um papel fundamental na vida das crianças e adolescentes que a freqüentavam, todos os dias, durante anos. Era uma biblioteca aberta ao público dos 6 aos 16 anos. Nós entrávamos, assinávamos um caderno de presença, íamos direto para a Sala de Leitura, onde era preciso ler por meia hora, no mínimo. Depois disso, podíamos ir para a Sala de Pintura, Sala de Jogos, Discoteca, Sala de Pesquisa, e também ao ensaio de Teatro. Havia crianças de várias classes sociais, mas acho que a maioria, ou seja, a molecadinha que freqüentava a Biblioteca diariamente, era – éramos – de classe média baixa. Só íamos para casa ao anoitecer, quando a Biblioteca fechava. Então, hoje, vejo que ela funcionava como uma espécie de creche, embora de modo não declarado. E, para completar a resposta, aqui vão alguns trabalhos: A Verdadeira História da Gata Borralheira, como Aconteceu no Brasil, por Volta de 1930, de Maria Clara Machado, com direção de Iacov Hillel, 1971. Pingo e Pongo, autoria e direção de Edson Biller, para a Secretaria de Cultura, 1983-85. E, finalmente, como autora e diretora, quero citar Cortázar Assim, uma interpretação da obra de Cortázar (1984), que se originou de um trabalho sobre Histórias de Cronópios e de Famas (1983). Vale também lembrar que volta e meia a Biblioteca Monteiro Lobato recebia a visita de escritores como Menotti Del Picchia, Cassiano Ricardo, Hernani Donato, Paulo Bomfim, Stella Car e outros.
LT – E hoje, acompanha o movimento artístico paulistano? Como você avalia os atuais grupos intelectuais e artísticos? Ainda é possível enxergar ações coletivas, propostas de real intervenção no cenário ou está tudo uma pasmaceira (risos)?
YC – Sou meio “gato’, meio reservada. Nunca estou muito a par “do que anda acontecendo”. Participo de alguns eventos, fico sabendo de alguns movimentos... Mas não tenho exatamente uma avaliação a apresentar sobre os grupos intelectuais e artísticos de São Paulo, pelo simples fato de que não conheço a maioria deles. Agora: existem ações, sim, propostas que valem a pena. Ocorre-me, no momento, o trabalho de Nelson de Oliveira, de Marcelino Freire, que não se acomodaram ao papel de escritor e estão sempre agitando, subvertendo, criando movimentos, cobrando incentivos, organizando antologias... Por aí. Outro movimento que também merece respeito é o Desconcertos, de Claudinei Vieira. O Desconcertos é um conceito, uma postura, um site literário visitado com incrível freqüência, um evento que ocorre mensalmente na Casa das Rosas, uma série de saraus pelas livrarias paulistanas e até fora de São Paulo, é um trabalho admirável, enfim, que reúne tudo isso e muito mais.
LT – Quando você decidiu que tinha de escrever? Seus primeiros textos foram contos? Não escreveu peças?
YC – Não sei se existe um momento de decisão. Sempre gostei de escrever, tanto quanto de atuar e dirigir. Escrevi “Cortázar Assim”, fiz algumas adaptações de obras literárias para o palco. E continuo escrevendo contos, tenho um projeto de dramaturgia e um projeto que poderá resultar numa novela, ou romance.
LT – E a oportunidade de publicar? Hiatos tenta falar do que está “entre”, do “não-oficial”, do “fora” que nos circunda?
YC – Pois é, você e algumas outras pessoas fizeram esse comentário. Não foi proposital. Mas acabou resultando nisso. E não me desagrada que seja assim; ao contrário...
LT – E a parceria com o Wilson Foca Neves? Era um projeto antigo ou surgiu com a possibilidade de publicar o livro?
YC – Somos amigos há muito tempo. Além do mais, sempre admirei o trabalho do Wilson, seja no Teatro, na Música, no Desenho. Já trabalhamos no Teatro, na montagem sobre Histórias de Cronópios e de Famas, por exemplo. Mas ainda não tínhamos criado juntos, desse modo. A chance surgiu com Hiatos.
LT – Ambos ficaram satisfeitos com o resultado?
YC – Pergunta simples e também difícil de responder. Sempre que se conclui um trabalho, é impossível não conjugá-lo no presente e no futuro... do pretérito: o que o trabalho é e o que poderia ter sido. Sempre falta alguma coisa. Mas, também, não se pode escrever ou desenhar ou compor a mesma obra infinitamente. Há um momento em que é preciso lançar o barco. E la nave va. Então, é hora de partir para outra. Mas considero Hiatos um bom início, digamos assim. Os contos de Hiatos, com exceção de “Anjo”, foram escritos na década de 80. São bem diferentes, na estrutura, do que escrevo agora.
LT – Alguns dos contos já eram premiados. Você os julga mais bem realizados do que os demais? Acredita que a qualidade esteja aliada a algum reconhecimento?
YC – Respondendo à primeira parte da pergunta: de modo algum. Gosto de “Copydesk”, por exemplo, mas não acho que ele seja melhor que “Anjo”. Quanto ao reconhecimento, claro que é bom, mas como conseqüência. Qualidade é bem outra estória. Com o “Copydesk” aconteceu algo curioso, e foi nos anos 80: eu estava de passagem por São Paulo e um amigo me deu um recorte de jornal com a chamada para o concurso. Pelo tom da nota, achei que seria um daqueles concursos “domésticos”, sabe como? Uma coisa meio “panela”... por aí. Resolvi mandar “Copydesk”, só pra horrorizar. Imaginei o pessoal do júri: senhorinhas e senhores cheios de preceitos e preconceitos, lendo aquilo e se arrepiando. Caí do cavalo, foi bom cair. O júri era formado por Marcos Rey, Ilka Laurito e Lourenço Diaféria. Ganhei o concurso e, pela primeira vez, ouvi a pergunta, feita por Marcos e Ilka: “Quando é que você vai lançar um livro?” Até então, não tinha pensado nisso.
LT – Enquanto incentivo para autores inéditos, qual a importância dos concursos? Você se preocupa com questões de política cultural?
YC – Há concursos que honram quem participa, que ajudam quem ganha a se aprumar, seguir adiante. E há também uns absurdos por aí. E claro que me preocupo com política cultural. Acho, inclusive, que não dá para trabalhar sequer a questão social, sem a Arte. Uma vez o Almir Schediak falou que a música poderia resolver tudo, inclusive o problema da fome, no Brasil. Dá para entender o que ele estava dizendo, não?
LT – Volições vai ser publicado por qual editora?
YC – Massao Ohno Editor.
LT – Uau! E como é a sensação de trabalhar com um editor tão importante para nossa historia literária? Ele opina muito ou se detém mais nos aspectos do livro enquanto objeto gráfico?
YC – Há algum tempo, houve um momento em que eu não sabia bem para onde conduzir ou para onde me deixar conduzir pelo Hiatos. Tinha participado de alguns eventos, divulgado um pouco o livro, distribuído... E não sabia qual seria a seqüência, ou melhor, como dar uma continuidade ao que havia começado. Daí, conheci Massao. Um mestre da edição. Reunindo a maior parte dos contos de Hiatos, alguns contos inéditos e algumas Iluminuras, Massao concebeu este segundo livro. Inclusive, o título é sugestão dele. Assim nasceu Volições, que contou também com a arte e generosidade da fotógrafa Marjorie Sonnenschein.
LT – O Wilson Foca Neves também ilustra Volições? Há muitas mudanças na contribuição que ele apresenta em relação ao livro anterior?
YC – Sim. Ele criou novas ilustrações para os contos de Hiatos que constam de Volições, além das ilustrações para os contos inéditos. Mas o que considero um ponto alto em nossa parceria pode se resumir nas Iluminuras, onde fizemos o caminho inverso ao que trilhamos em Hiatos: em vez de Wilson desenhar sobre meu texto, escrevi sobre os desenhos dele.
LT – Muitos contistas particularizaram o olhar e criaram um estilo. Penso isso no caso de Hemmingway, Bukowski, Caio Fernando Abreu e, principalmente, Cortázar, só para citar alguns. Em que medida Volições se aproxima ou se distancia de Hiatos?
YC – Volições abriu a lente, “viu” mais e aproximou-se de uma síntese que me pareceu desejável. Acho que o caminho é esse, não? Escrever menos, dispensar os excessos e, assim, dizer mais.
LT – Estão previstos lançamentos por todo o Brasil? Como será a distribuição?
YC – “Por todo o Brasil” seria ótimo. Não sei se dará para tanto. Vou lançar em São Paulo, claro, fazer algumas cidades do interior e algumas capitais, como aí em Salvador.
LT – Por fim, poderia falar um pouco do seu projeto Pandorga Ilustrada?
YC – O Pandorga Ilustrada foi concebido em parceria com Wilson Neves, que já colocou o site no ar. Mas confesso que ainda não fiz minha parte, não trabalhei na apresentação, nos textos, nas chamadas para os itens do menu, para os caminhos do site. Vou cuidar disso, junto com Wilson, depois do lançamento de Volições. Nossa idéia é colocar, no Pandorga, o que consideramos Arte, seja na literatura, teatro, pintura, dança, vídeo... E também divulgar os trabalhos, as linhas, as pessoas em que acreditamos.
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Vânia Medeiros
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