
Colunas: KAOS KAPITAL
Carnaval de paulista
por Alex Cojorian
Memória recente: carnaval não é falta, não é negação. Ou, talvez, seja. Mas um carnaval em terras paulistas só podia dar nisso mesmo. Passado e presente superpostos. E vamos na compasso da crônica... Recauchutando, colando com super-bond.
Depois de alguns anos, finalmente resolvi encarar uma rave. Não cheguei a passar “réiva” – assim paulistanamente dizia Adoniran – como sempre imaginei que fosse acontecer, mas não posso dizer que entrei em êxtase. Acho que foi por falta de drogas mesmo…
Vi que a segurança do evento estava dando a maior dura em qualquer rodinha de fumaça; mas os sintéticos… quem é que vai saber? Afora isso, constatei ali várias características da contemporaneidade, quer ver? Música de massas, retorno a valores tribais, agregação coletiva suplantando individualidades, ritos corporais, tatuagens, piercings, uso e às vezes abuso coletivo de drogas, psicoativas ou não, transe coletivo, desconexão entre o grupo humano e o meio-ambiente – um bando de citadinos em plena boca da mata atlântica, em pleno mormaço–, realidade artificial suplantando a realidade natural; e muito óculos escuros! Enfim, os cabalísticos sintomas do signo de aquário em crônica exposição! O que será que disto diriam os exercícios de futurologia de Gilberto Freyre?
Volto à experiência pessoal. Tive o bom senso – o que é o bom senso? Foi pura preguiça mesmo… – de dormir a noite inteira e só dar a minha contribuição pouco participativa entre as dez e as doze. Plena manhã de sábado de carnaval. Se não me causou incômodo, causou-me ao menos certo estranhamento, porque não vi (também não procurei), em momento algum, em nenhum dos dias em que por ali estive – no litoral paulista – algazarra ou ruído carnavalesco; quanto mais um sambinha…
Pra não mentir, confesso que na casa de nossos mais do que generosos e simpaticíssimos hospedeiros, em algum momento rolou um disco da Clara Nunes. Não sei nem se alguém prestou atenção; quanto a mim, senti o mesmo e intenso calor n’alma de velhos anos: estando nos confins dos Balcãs, em plena Bucareste, e visitando um jovem e amigo casal de estudantes brasileiros, não foi sem surpresa que me deparei com um LP dela mesma! Muito melhor do que isso foi fazer o disco girar, e a música e a voz negra e calorosa preencheram o apartamento e o meu espírito inteiro, trazendo uma luz, um reconforto, um acalanto, que eu verdadeiramente não conhecia, e que me revigoraram e me fizeram “estar” de volta no Brasil imediatamente!
Confesso, confesso. Eu, um arrenegado paulista do “B”, prefiro antes a mata à rave, o jardim à edificação, a solidão à multidão, a praia à vila, a serra à cidade, o calor do sertão ao calor da poluição, a natureza à realidade virtual. Um romantismo incurável e sem jeito, porque mesmo preferindo, aquele trabalhador do mar do Victor Hugo, quase uma expressão dos elementos, teve o seu fim igualmente decretado já naquele tempo, há bem uns cento e cinqüenta anos… No meu espírito está tensionada a corda: carnaval versus paulistas – será que psicanalista resolve? Porque hoje São Paulo – e o meu espírito – abriga vários Brasis em suas ruas…
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