verbo21
créditoscontato
seções
selva studio webdesign

Tribuna
Rodrigo Melo

PROMOÇÃO

- Ângela, telefone pra você – grita Luís, o cara que traz a água e que faz o cafezinho, um careca de bigodes metido num uniforme azul.
- Quem é?
- Não sei. Olha a porta aí!

A porta bate e o barulho espalha um eco por todo o escritório. O ventilador, de pé num canto, balança com o ar jorrado. Lá fora faz sol, perto do elevador as janelas transparentes parecem feitas de um vidro amarelo ou laranja.

Luís permanece parado, os braços estendidos rente ao corpo, com uma cara que mistura um pouco de culpa e de espanto.

Ângela caminha lentamente até a mesa em que o telefone está. É morena, anda rebolando, e usa um vestido branco com listras azuis - o uniforme que lhe deram. Puxa uma cadeira, senta-se nela e passa a conversar. Esta mesma cena se repetiu quatro vezes desde que cheguei.

O meu nome é Júlio, Júlio Souza, e eu estou há cerca de duas horas aguardando que o doutor Carlos Sydow, responsável pela seção de contratações da empresa, me atenda. Os papéis que devo assinar estão com ele. Fui transferido de um setor para outro e é preciso encarar toda a burocracia que essas coisas exigem. Sinto-me feliz, no entanto. De fiscal da produção de chaveiros e tampinhas de plástico para, a partir de amanhã, ser o novo gerente de vendas da seção de eletrônicos. Os anos investidos parecem ter valido à pena. Terei um salário melhor e uma sala só pra mim. Talvez uma com vista pro mar, como a do doutor Carlos Sydow.

Levanto-me e vou até as janelas fumar um cigarro. Vejo a cidade ali embaixo, um monte de gente fritando no sol das onze da manhã. Aquele movimento frenético, de certo modo, me passa a sensação de que eles estão felizes. A turba se contenta com o seu suor, mas talvez isso seja o mais importante. Sinto-me confuso. É como se não tivesse importância. E então penso que sou um solitário. Penso que coleciono inúmeras culpas. Penso que a felicidade é só o espaço entre uma lembrança e outra. Penso demais, ao mesmo tempo em que não me dou conta de um monte de coisas, coisas simples, e levo anos para conseguir descobri-las e quando finalmente as descubro, me sinto como o cara que perde sempre a vez. As ruas, agora que observo por sobre o vidro, parecem-se também com serpentes cinzas a ziguezaguear, as pessoas nas praças e nas calçadas sendo o couro brilhante que ela tem. Forço a vista um pouco para a direita e vejo um homem na praia caminhando na direção do mar. Usa uma sunga ou um short preto e anda sem pressa, tranqüilamente, como se a praia fosse sua e estivesse eternamente ali. Entra na água e, quando ela está um pouco acima dos seus joelhos, ele mergulha na espuma de uma onda, depois em outra e em outra. Então sai da água e retorna até a areia.

-Doutor Júlio, o doutor Carlos está aguardando – escuto Ângela dizer às minhas costas.

Jogo o cigarro na caixa de areia e volto para o escritório.

Ao entrar, noto que a sala é enorme. Possui ar condicionado, vista pro mar, quadros na parede, uma cópia do salmo 91, um computador, um telefone, uma imensa mesa negra e, por detrás dela, Carlos Sydow, um homem encorpado, na casa dos 50, de cabelos crespos penteados para trás. Aperta a minha mão e, depois que me sento, coloca alguns papéis por sobre a mesa e pede para assinar. No mesmo instante, passa a falar sobre o meu novo cargo, chamando-me pelo primeiro nome: ele diz que é um trabalho fácil, que eu sou um rapaz esperto, que tenho futuro e que tudo correrá bem. Parece ser um cara legal. A nossa conversa flui. Então o telefone toca. Fico na dúvida entre me despedir e sair, já que assinei todos os papéis, e ficar um pouco mais, para que ele me dê suas dicas e tenha simpatia por mim. Acabo ficando, talvez pelo ar condicionado e a poltrona macia, de couro marrom.

Não sei quem é a pessoa que conversa com Carlos Sydow do outro lado da linha, mas tenho a certeza de que os dois discutem – Carlos fala alto, xinga, inclusive, e vejo, quando se exalta, respingos de cuspe saindo da sua boca. O rosto fica um pouco mais vermelho também. Sua voz exala na sala. Aquilo tudo demora cerca de dois minutos, até que ele desliga o telefone e olha pra mim.

- Filho da puta. Alguém deveria matar um cara desses, um canalha que só pensa em se dar bem...

Depois se recosta na cadeira e alisa a testa.

Permaneço calado, esperando que ele fale algo mais, só que ele não fala. Os segundos passam, viram minutos. Seu olhar está preso na parede, perdido entre uma cópia de Monet e o salmo 91. Deixo-o assim, refletindo por um tempo sobre as coisas que vive. Não sei o que são, mas eu também me sinto estranho, meio distante, querendo mudar algo de lugar, sem no entanto saber o que é – penso ainda no meu salário novo, na minha sala, num carro melhor, à prestação, e na chance de que os anos tenham vingado tarde demais.

- Só isso? – pergunto, cortando o silêncio entre nós.

Ele me olha sem entender, distraído.

-...Sim, só isso – diz, em seguida. – Amanhã você já pode ocupar a sua nova sala. Boa sorte, garoto.
- Obrigado.

Aperto a sua mão e saio da sala. Do lado de fora, o ar quente me pega em cheio, envolvendo todo o meu corpo. Ângela está na recepção, conversando com Luís. Aceno para ela. Enquanto espero o elevador, olho mais uma vez para os vidros e para a cidade, as pessoas caminhando, um formigueiro amarelado pela luz do sol parecendo óleo de carro quando escorre. Passo a vista pela praia, mas o homem não está mais lá. Isso, de alguma forma, me faz sentir um pouco mais de inveja daquele cara que nunca vou saber quem é – somente alguém que, de uma forma simples e sincera, parece fazer o que quer. Sinto uma vontade de gritar, uma vontade enorme de abrir os pulmões e dizer: “Alou, caralho, puta que o pariu, meu nome é Júlio, Júlio Souza, e eu saibam que eu sou um cara foda também!”. Mas eu não grito. Então o elevador chega, é velho e faz um barulho de assustar, e eu entro nele, aperto um botão e começo a descer.

 

topo | página inicial

 


tribuna
entrevista
ensaios
opinião

colunas
crônicas havaianas
dagerreótipos

eros+errante
kaos kapital

verde
vértebra

 

artista do mês



Vânia Medeiros
@Flickr


O QUE ROLOU ANTES

verbo21 vintage

 

PARCEIROS

bestiário

selva

União Brasileira de Escritores