verbo21
créditoscontato
seções
selva studio webdesign

Colunas: VERDE

Aquecimento global, responsabilidade global!
por Cláudia Conceição Cunha


A esfera pública, enquanto mundo comum,
 reúne-nos na companhia uns dos outros
 e contudo evita que colidamos uns com os outros
Hannah Arendt


Talvez os leitores que acompanham esta coluna estejam esperando encontrar um texto sobre o aquecimento global. Afinal, os jornais falam disso, a TV fala disso e um documentário sobre o assunto ganhou o Oscar. Sinto decepcioná-los, mas recuso-me a ser pautada por estes veículos que citei. Recuso-me a “descobrir” o aquecimento global neste momento, como um modismo que redescobre aquele “vestido que já foi moda antes, estava esquecido no armário, mas agora todos estão usando”. No entanto, sem querer furtar-me ao debate, tento abordá-lo “ao revés”, dar uma outra roupagem. Tento discuti-lo em aspectos que não estão na mídia, fazendo, como sempre, um convite à reflexão.
Mais do que me incomodar por ter que utilizar o ventilador e/ou o ar condicionado mais vezes, por saber que alguns lugares paradisíacos poderão desaparecer, que o lugar onde inúmeras pessoas moram, vivem e produzem pode desaparecer, que várias espécies entrarão em extinção por conta da perda de seu habitat; incomoda-me o tom de “descoberta” de Al Gore em seu premiado documentário, e dos noticiários que seguem a onda e tentam alguns pontos de ibope a cada catástrofe ou risco dela.
Há tempos esse assunto vem sendo discutido e alertas vêm sendo dados, mas agora, há uma “redescoberta”, com uma roupagem mais bonitinha, ou pelo menos, menos comprometedora, que não coloque os grandes poluidores em situação de ter que modificar muito os seus padrões de produção. Discutamos o que falta na pauta. Sobram apelos à mudança individual de comportamento, fala-se rapidamente nos acordos que podem ser feitos para diminuição de emissão de gases que ocasionam o efeito estufa, na redução do uso de derivados de petróleo, no empréstimo de “crédito de carbono” aos países poluidores, mas nada se comenta sobre a necessária revisão aos chamados “padrões de comportamento societário”, a um modelo de desenvolvimento que se pretende mundial, e que só se mantém através de acelerada depredação dos recursos naturais e acumulação de resíduos.
Por isso resolvi tratar o tema da “responsabilidade global”. Está intrinsecamente relacionado ao assunto acima, mas entendo como mais abrangente e necessária. Em um ano em que o “Tratado da educação ambiental para sociedades sustentáveis e responsabilidade global” completa, junto com a Rio 92, seus quinze anos, é importante discutirmos o que queríamos (e ainda queremos) dizer com o termo “responsabilidade global”.
Diferentemente de uma abordagem individualista, abordamos o coletivo, pensando não apenas no nacional, no internacional, mas no Global! E em um global não globalizado, sem fronteiras, mas interligado. Longe de querer derrubar as fronteiras, queremos interligá-las em um sentimento de mundo comum que une e separa, que delimita o conjunto e o individual, mas que não perde a noção do que é autonomia, do que é união e do que são limites. Não é na derrubada dos limites que se encontra a solução e sim no estabelecimento e reconhecimento destes de forma que sejam acordados e respeitados. De forma que não sejam “colocados de lado” para que sobressaia o interesse de uma minoria.
Quando nos referimos à responsabilidade global, dizemos que um País não pode poluir e colocar “na conta do outro”, dizemos que um País não pode crescer “às custas” do outro, e dizemos principalmente, que fazemos parte de um mesmo mundo, de um mesmo “global”, que tem inúmeros “locais” que devem estar imbuídos de responsabilidades próprias e comuns. Que cada País, cada “local” tem sua própria dinâmica, suas próprias preocupações, mas que estão ligados irremediavelmente pelo Planeta Terra, pelo mundo.
Nesta ligação estão presentes semelhanças e diferenças que não podem ser esquecidas, mas que devem ser respeitadas e consideradas na organização de um projeto comum de mundo não permitindo sobreposições e muito menos exploração de uns sobre outros. Nessa perspectiva, não podemos eliminar o uso de combustíveis fósseis substituindo-os pela cana de açúcar sem considerar os impactos socioambientais que sua superprodução ocasiona, por ser produzida na forma de uma monocultura em larga escala. Não podemos pensar em bio-combustíveis sem inseri-lo em um projeto de distribuição de renda que favoreça a produção em pequena escala, por famílias, portanto local, que favoreça a fixação de famílias na terra. Não se fatia o problema, e sim o consideramos como um todo complexo e interligado, em que o todo é influenciado pelas partes e vice-versa, ao mesmo tempo.
Não queremos minimizar os efeitos dos gases estufa, nem desconsiderar a gravidade do aquecimento do Planeta, mas não podemos deixar que o assunto seja tratado com maquiagem, na tentativa de buscar soluções paliativas ou que apontem apenas para um lado da questão. Trata-se de um excelente momento para repensarmos o modelo de desenvolvimento que vem sendo imposto (como já discutimos no texto anterior da Verde), de pensarmos soluções que considerem aspectos não apenas ambientais em sentido strictu senso, mas em um sentido amplo que englobe o contexto social e econômico, e que por isso, aponte para esferas que vão além de uma redução de uso individual, e que questionem padrões de consumo e de concentrações de riqueza. Ou seja, vamos a um debate sério, em busca de alternativas concretas, onde são imprescíndiveis a colaboração mútua e a percepção do real sentido de responsabilidade global!

 

topo | página inicial

 


tribuna
entrevista
ensaios
opinião

colunas
crônicas havaianas
dagerreótipos

eros+errante
kaos kapital

verde
vértebra

 

artista do mês



Vânia Medeiros
@Flickr



O QUE ROLOU ANTES

verbo21 vintage

 

PARCEIROS

bestiário

selva

União Brasileira de Escritores