
Colunas: VÉRTEBRA
por Rã Cinza
Vôos domésticos. Viajar com criança, tirando o idealismo ou um estressezinho que pode ocorrer, é ótimo. A criança tem aquela famosa curiosidade que a tudo estranha e desautomatiza. Num momento está atentíssima, olhando para um ponto ínfimo, o detalhe de onde parte uma pergunta sobre uma organização geral, sobre o tempo, sobre algo que de tão difícil de responder, não dá para não sorrir, num outro parece um ventilador, daqueles que viram para todo lado.
Uma criança de quatro anos possui uma tamanha vitalidade. Faz lembrar um broto que cresce forte, dá a impressão que se crescesse visivelmente rápido, estalos e violência decorrentes das transformações, seriam facilmente notados. O ato de crescer traz em si uma veemência. Um curto circuito afetivo, desorganizador. É só ver e conviver para perceber uma presença ainda não comprimida, é a vida expandida e em expansão que quica, muda de volume, de forma, até de matéria, e tudo isso acontece de maneira intermitente. Só pára quando dorme. Aí são anjinhos de respiração calma, de pele bonita, dá vontade de beijar e beijar.
Numa viagem há uma organização ocupada anterior ao trânsito, comoção para os grandes e os pequenos. Os primeiros lidam com as maneiras de concretizar o trânsito, e os segundos... bem... eles olham, manuseiam, são entidades realizadoras, por isso dão palpites e fazem um cem número de perguntas a respeito de quase tudo. Para as crianças de olhos atentos tudo interessa e é passível de virar brinquedo.
Num aeroporto, afetam-se por tudo. O mecanismo de torneira inteligente é um acontecimento que merece atenção interativa e perguntas desejosas de saber/fazer como funciona. Uma sala de embarque traz um universo de elementos interessantes, são as cadeiras, são estruturas de metal, painéis coloridos, o piso, tudo se torna para esses seres perscrutadores motivo de grande curiosidade que culmina e encontra um portal para outras novas descobertas na hora do embarque. O túnel que leva à aeronave é um achado, um encontro cuja competência de lugar de passagem vale nota e observações inimagináveis. Ao lado esquerdo, logo antes da entrada do avião, tive de reparar numa mesa que portava luzes, mais máquina. Algumas crianças são atentas às máquinas que para elas são objetos gráceis.
A hora do vôo. O momento da decolagem: todo fragmento entra na categoria dos notáveis. A reclamação do ouvido que tampou, a alegria com as comidinhas vulgares que são servidas, os pacotinhos, o folheto de emergência (para uma criatura fóbica, explicar o porquê, para o inocente perguntadeiro, de um avião estar na água, é um tormento) as nuvens, o céu, a terra que parece ter virado de cabeça para baixo. Nessas narrativas excitadas e alegres, não tem como não deixar de lado o jeito indiferente e meio cansado de ver a vida, se o cansaço e o estresse não são tão grandes, as novidades vistas pelos olhos da infância, novidades vindas do cotidiano, constituem-se como lições para ver melhor, ver diferença no habitual. Oportunidade de se deixar atravessar por um novo que vem e que gosta de estar no mundo.
Comprei um livro da Taschen, fresco de 2005, chamado, Art now traz 81 artistas do início desse novo milênio. Pessoas que realizam, que produzem, seja em pintura, em instalações (adoro), fotografia... Devorei o livro e fiquei igualmente fascinada com os retratinhos dos artistas. Buffon disse que o estilo é o homem? Mas poderia ser... A mulher? A criança? Artista tem estilo.
Eu, mais próxima ao povo acadêmico – antes convivia mais com os psis, de estética triste quase estática, com exceção das denominas, pelos pares críticos-analíticos, psicanalista-histérica, obviamente mais coloridas, transadinhas e descoladas – vejo um estilo, de uma estética bem menos colorida. Se os acadêmicos fossem retratados numa foto 3x4 seriam mais... normais (?), são assim, de forma geral, mais intelectualmente desencarnados, desencanados? Não. Mas certamente comungam de uma outra modalidade de arrogância – talvez, nem todos. Existe sempre o perigo das opiniões generalizantes.
Tenho um amigo artista, das artes das cores. Ele usa e veste, veste e usa óculos e roupas coloridas. Há alguns dias atrás, ele me explicava sobre uma camisa, ou melhor, uma manga de camisa que fora comprada pelos lados de cá, no nordeste. Dizia que os entendidos de moda da região quente agora fazem camisas que têm manga até o meio do braço. Segundo os modetes elas são mais práticas, pois são mais fáceis de dobrar até antes do cotovelo, o que fica mais confortavelmente vaporoso. Ele estava com uma verde linda. Mas o desvio foi por conta do retratinho dos artistas. O livro traz também a data e o local do nascimento desses inventores de moda. Vem um texto sobre o percurso deles no mundo das artes e citações de alguns, uma ou outra frase que dá uma noção, muito geral, sobre o que eles pensam a respeito da própria arte.
Eu gostei muito dessa, “Não penso que meu trabalho seja assim tão estranho. É apenas uma questão de se ter a disciplina de percorrer totalmente uma idéia, de a esticar até aos seus limites”. Gostei dessa possibilidade de pensar algo até seu limite, creio que os limites não são os da idéia, mas são de quem a desenvolve. Concepção de Wittgenstein, sobre o limite do mundo estar circunscrito pela capacidade de linguagem do pensante. Um outro sentido de limite pode ser computado, concernente à possibilidade de considerar os artistas serem uma espécie de atletas, quando se levam aos limites, da própria diferença. Aí a frase cai bem, se leva às últimas conseqüências. Acho que é isso o que eu penso que vejo quando olho para eles, reproduzidos nessas pequenas fotos, no canto oposto ao dos seus trabalhos, que têm um espaço maior que o destinado à própria figura.
Relativizo as importâncias desses espaços porque lembro do texto de Foucault, o que é um autor, quando ele diz que a culpabilidade daquele que produz determinado bem cultural muda o status desse indivíduo perante a sociedade. Muda porque, daquele momento em diante, mais importante do que o material produzido vem o nome. E, em nome do nome muita arte é e foi feita. Um exemplo pode ser trazido se lembramos da arte conceitual ou do readymade, eu gosto dessa materialidade de idéia, assim como aprecio os deslocamentos significativos. A idéia pode vir antes da coisa, mas a coisa sempre aparece; mesmo quando não aparece, já existe toda uma movimentação ao seu redor, e é isso que vale. Para terminar o livro, vale pelo glossário, aprendi o que é camp, além dos outros estímulos.
Termino com uma instalação conceitual, que fica na cabeça dos que leram essa coluna. Arte que te quero.
Um quarto amplo retangular quase sem luz. No canto direito ao fundo está uma cadeira vazia, e em cima, um pequeno facho de luz que incide nela. Há sensores nesse quarto que ao ser pisado acionarão outras luzes que estarão acesas no teto, mas que não são de iluminação direta, pois uma espécie de sanca que está distribuída por todo ambiente impede que a luz desça, ela ilumina de cima para baixo, porque a sanca lança-a para cima, com isso se vê melhor a cadeira que surge ao mesmo tempo em que a luz clareia o ambiente. São duas modalidades de luz, aquela que está sobre a cadeira e a que se espalha pelo quarto. As paredes são brancas e o lugar é frio e úmido, um zumbido intermitente é mantido enquanto há alguém dentro dele. O que deve conferir um embaralhamento nos sentidos. Nesse ambiente, deve-se entrar sozinho e a cadeira pode ser usada. Ao sentar-se nela, a luz envolve a pessoa dando uma impressão de isolamento, porque ela estará sobre o corpo sentado. A cadeira não é confortável, é simples, de madeira, não envernizada. O piso, igualmente, branco, como as paredes, acentua uma sensação de frio.
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Vânia Medeiros
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