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Crônicas Havaianas
Sereias e Salamandras
por Eliana Mara


“Para mim, estranha mesmo é a gente tida como normal. Não é bizarro alguém em casa lavando pratos?” -  Jane Campion 

Aloha. Se você já é freqüentador desta coluna, sabe do que estou falando. Se não sabe, leia a crônica anterior. E vamos direto ao ponto. Sábado à tarde, pouco mais de três horas, vi uma cena tão interessante, que determinei logo por começar por ela esta crônica. No entanto, agora me sinto indecisa, julgando que talvez não seja tão interessante aos leitores. Se este for o caso, terei perdido meu tempo ao escrever, e os leitores, ao ler. Agradar aos leitores é minha meta maior. Em vez disso, inaugurarei, a partir de hoje, outro sistema, fundado no princípio de que homens e mulheres devem dizer tudo o que pensam. Se minha vizinha pensa que é uma sofredora por motivos idiotas, por que não hei de dizê-lo? Se eu cuido que sou uma cidadã cumpridora de meus deveres, por que hei de calar-me? A verdade, quer ofenda minha vizinha, quer me lisonjeie, deve ser pública. Nua saiu ela do poço, nua deve ir às casas particulares. Uso uma linguagem esmerada, providencio adornos estilísticos e cá estamos diante da verdade vestida de cetim e ostentando umas pulseiras douradas: em vez de dizer imbecil, direi - vizinha mentalmente perturbada.

Bem, estava eu aproveitando a brisa que vinha de minha janela. Aproveitava a ocasião para dar uma boa olhada nos acontecimentos lá embaixo. Moro no último andar de um prédio razoavelmente alto. Surge uma mulher jovem, aparentando vinte e poucos anos, trajando um vestido de verão, com estampas floridas em tons de rosa. Usava, acreditem, sandálias havaianas. Caminhava em direção ao telefone público e pensei que iria fazer alguma ligação. Estranhei, então, seus movimentos seguintes. Esta moça de aparência tranqüila, ligou o seu aparelho celular e iniciou uma conversa. Gesticulava muito, andava de um lado para o outro na calçada pública, obrigando uma senhora simpática a levar seu poddle para fazer cocô em outro ponto da rua. Em algum momento da conversa, a moça simplesmente reproduziu o hábito de Nelson Rodrigues, em momentos de desespero: sentou no meio-fio e chorou. Chorou, chorou, e quando eu já estava achando esta parte monótona, levantou-se, com ar decidido, jogou o celular no outro lado da rua, onde há um matagalzinho mantido graças à displicência da prefeitura local. Continuei a observar a cena. A jovem começou a rasgar alguns papéis. Lia rapidamente, chorava mais um pouco, rasgava e colocava no buraco da calçada. Após rasgar todos os papéis, apertando para que coubesse tudo, a mulher, novamente em pranto, tirou do bolso do vestido um isqueiro e iniciou o ritual urbano. Reproduzindo milhares de mulheres ao longo dos anos e de terras distantes, pôs fogo nas memórias que a torturavam. Olhava fixamente para o fogo, que ia aumentando. Alguns transeuntes desviavam para a outra calçada e torciam o pescoço para xeretar. Um casal de atletas passou, exibindo roupas de caminhada. O homem fingiu amarrar o cadarço do tênis enquanto olhava para a cena insólita. Saíram rindo e se cutucando, olhando para trás, cheios de curiosidade. O fogo foi diminuindo aos poucos. Ela passou alguns minutos olhando e levantou-se. Soltou os cabelos, atravessou a rua e pegou o celular de volta. Desceu a rua e de repente, para minha surpresa, entrou no meu prédio. Afinal, aquela mulher era minha vizinha.

Saber ser discreto e não se meter na vida alheia é uma grande virtude. Principalmente quando a vida alheia é a de uma vizinha que faz rituais na via pública, senta no meio fio e chora. Sempre tentei ser discreta, mas, devo admitir, meu editor-chefe, Lima Limonade, é um sujeito temperamental e lembra muito meu velho pai. Mantenho com ele uma óbvia relação de transferência e não consigo agir como adulta. Diante dele, me sinto submissa e amedrontada. O prazo estava se esgotando, eu não encontrava nenhuma inspiração para escrever a segunda edição das crônicas. Vou para a janela, com o inocente intuito de respirar e ouvir o canto dos pássaros, presencio a cena folhetinesca. Não dá para culpar as janelas pelo que acontece na paisagem. Meu amigo Cris Navarro, de Porto Alegre, me contou que, em tempos de escassez, muitas vezes liga para as tias pedindo histórias para usar nos seus contos.

Assim que vi a fulaninha incendiária entrar no meu prédio, corri para o interfone e subornei o porteiro do turno com a promessa de um prato quentinho de espaguete com almôndegas para o jantar. Por sorte minha e para sorte de vocês, este é um dos porteiros mais fofoqueiros do prédio todo. Uma xícara de café quente já seria suficiente para ele me contar tudo que eu queria saber. Lá pelas sete da noite, desci, com a refeição completa, seguida de um copo bem gelado daquele refrigerante imperialista. Sem nenhuma cerimônia, ele foi falando com macarrão entre os dentes. A vizinha se chama Érica, é filha única, faz curso de Enfermagem numa faculdade particular. É considerada uma das moradoras mais chatas no ranking dos porteiros e, talvez por isso, ele tenha me dado informações nada discretas e muito pessoais que não poderei revelar neste espaço da coluna, que é um espaço transnacional. A revista Verbo 21 está na internet, então, a essa hora, qualquer internauta do mundo pode ter acesso aos detalhes da vida de Érica, minha vizinha incendiária. Quem quiser mais informações, pode solicitá-las pelo meu endereço, apresentado anteriormente, se decidir aprender a escrever cartas. Nem adianta fazer solicitações por email. Bem, voltando ao porteiro. Ele mesmo me contou, dois dias depois, que a mesma vizinha ficou histérica porque não pôde tomar banho e perdeu uma entrevista de emprego. A culpa, evidentemente, foi colocada na funcionária que trabalhava fazendo os serviços domésticos. Parece que Érica é a rainha do mau humor e má educação com os subalternos. 

Nesta história do ritual que presenciei de minha janela, houve uma combinação quase catastrófica entre os elementos fogo e água. Não sei se Érica conseguiu os resultados que pretendia ao fazer o ritual da queima de todas as cartas de seu ex-amado, mas conseguiu destruir uma parte da tubulação. Todo o condomínio foi atingido pela jovem colérica: ficamos sem água durante o final de semana. Érica destruiu uma parte do sistema de distribuição de água e por isso, ela mesma ficou impedida de tomar banho na segunda-feira de manhã. Perdeu o horário para a entrevista, perdeu o emprego, demitiu Conceição e perdeu o noivo. De acordo com os estudos dos seres elementais, as sereias são do time da água e as salamandras são do time do fogo. Na briga de amor entre Érica e seu noivo, as salamandras de seu ritual apagaram as sereias das águas do condomínio. Lembrei-me agora de uma mensagem curiosa que encontrei, na parte de dentro de um orelhão na mesma calçada em que tal fato aconteceu: “Mulher, você é feliz? Está passando por momentos difíceis? Tristeza, solidão, angústia? É carente? Está infeliz no amor? Busca amizade? Quer desabafar? Busca companhia? Fale comigo, conte para mim sua dor! Quero ser teu amigo. 9122-0065/8705-4917. (Pode ligar, guardo sigilo absoluto.) “Marcos”.
Talvez, se Érica tivesse lido essa mensagem antes, poderia ter encontrado consolo em braços cálidos, e, para se vingar do ex-noivo, poderia ter aproveitado toda as ofertas de Marcos (ah, para outras interessadas o código da cidade é 071). Não chegaria atrasada na entrevista e, a esta hora, nem ela nem Conceição estariam procurando emprego. 
 

Hasta la vista, baby.

 

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Valtério é escultor e desenhista de humor. Há alguns anos exercita seu traço, a lápis e ao vivo, desenhando gente pelas praias, bares, eventos culturais, aniversários, casamentos.... Tem preferência pelos tipos comuns de rua, com suas caras marcadas vergastadas.


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