
Colunas: DAGUERREÓTIPOS
Prentice, o aprendiz de Deus
Em Salvador, pintor de azulejos mantém “oculto” ateliê visitado pelo mundo inteiro
por Tom Correia*
O casarão fica quase em frente ao antigo Hidroporto, no Porto dos Tainheiros, na Ribeira. No calçadão, amendoeiras fornecem sombra e abrigo a casais de namorados. Do outro lado da enseada, avista-se o subúrbio. Quem olha um certo imóvel, de aspecto envelhecido, não suspeita o colorido que se encerra nos seus cômodos ventilados pela brisa marinha. Abre-se o pesado portão de ferro pintado de verde, que faz barulho anunciando mais uma visita. Um senhor simpático, calvo, usando camisa pólo e calça jeans nos recebe de forma amistosa, como se fôssemos velhos conhecidos cuja conversa houvesse parado no tempo e acabasse de ser retomada, após vários anos.
Há 48 anos Prentice [pronuncia-se Prêntice] labuta com tintas, pincéis e arte. Começou adolescente, ilustrando um jornal da cidade. Ia para o Campo da Graça e lá ficava observando os saltos dos goleiros, atento aos detalhes para depois reproduzi-los no papel. Jogou futebol até se machucar, aos 19 anos. “Dei 3 a 1 no Real Madrid num amistoso, com Puskas e Di Stefano”, fala com propriedade.
Conheceu Udo Knoff (1912-1994), ceramista e colecionador alemão que viveu na Bahia. Trabalhou para ele durante anos. Na minha ignorância, receoso de ofender o artista, digo que alguns traços dele lembram os de Carybé. Não se mostra ofendido. Diz que trabalhou também com o argentino. “Tenho consciência da qualidade do meu trabalho, mas nunca tive padrinho. Carybé (1911-1997), Calasans Neto (1932-2006), Carlos Bastos (1925-2004) e muitos outros tiveram padrinhos fortes, por isso ficaram conhecidos”, diz sem mágoa. Prentice costuma colecionar os cartões de visita dos seus admiradores. “Muita gente influente vem aqui. Já consegui empregar algumas pessoas devido a essas amizades”, afirma. Os livros de visita estão abarrotados de assinaturas vindas de todas as partes. Exibe uma pasta repleta de fotos e dedicatórias dos seus visitantes. O Embaixador da Rússia já passou por lá. Ministros de Estado, muitos israelenses, paulistas, asiáticos, gaúchos, africanos, mineiros. Um casal de chilenos levados por um guia de turismo, circula pelo espaço. Baianos, são a minoria. [Descobri o artista através de um discreto anúncio na Revista Piauí nº 7, do mês passado]. “Gilberto Gil já esteve aqui?”, pergunto. “Nunca.”, ele responde. Já fez diversos trabalhos na casa de políticos importantes, mas todos honraram seus compromissos. “Até um acusado de corrupção”, ri. Nem sempre foi assim. Já levou muito calote e já foi muito explorado por atravessadores. Compravam seus trabalhos e os revendiam por valores muito mais altos. Demoravam de lhe pagar e lhe pagavam menos do que o acertado. “Uma vez parou aqui na porta um senhor num fusca caindo aos pedaços. Entrou, perguntou o preço de um trabalho. Achou caro, pechinchou. Dias depois ele retornou, dessa vez dirigindo uma Mercedes. Perguntou de novo o preço do mesmo trabalho, eu mantive o que havia dito. No final ele pagou sem reclamar e levou o que queria. Não sou de explorar ninguém. Peço o que acho justo”.
Prentice cobra barato. Um azulejo com motivos típicos da Bahia, custa 10 reais (cerca de 5 dólares). Existem painéis maiores variando de 350 a 1.350 reais. Reclama da burocracia e dos impostos que impedem que ele exporte seus azulejos, mas no fundo aprecia as intermináveis visitas, alimento de sua prosa. Os azulejos com o nome das ruas do Centro Histórico são todos pintados exclusivamente por ele. Prentice não faz marketing (sobre o anúncio na revista, desconversou). Prefere a propaganda boca-a-boca. Segundo sua esposa, a fachada do casarão fica descuidada de maneira proposital. “Ele gosta de ver a reação das pessoas ao entrar aqui”. O impacto visual contrastante entre o que se vê fora da casa e o que se vê dentro dela não é desprezível. Uma exposição de centenas de azulejos pintados, pratos decorados, telhas ornamentadas, um grande painel que mostra Yemanjá, painéis de motivos religiosos, santos e orixás. Um sol amarelo pintado no teto paira sobre a cabeça do artista, inspirando-o enquanto trabalha.
O pai foi médico e dentista. Prentice um dia acalentou o sonho de seguir a carreira paterna. “Quando uma pessoa entra aqui, reconheço o tipo de energia dela”, diz acreditando que sua sensibilidade pudesse ser útil se ele tivesse se tornado médico. Ao falar sobre a origem do seu nome, aponta um retrato na parede que mostra Prentice Mulford (1834-1891) escritor norte-americano considerado o pai do movimento ocultista na América. Pergunto se ele gostaria de ver sua vida e obra retratadas em documentário, numa biografia. “Se for para deixar o meu nome gravado na história, claro que gostaria. No futuro quero ser lembrado como um artista comprometido apenas com a minha Arte, nada mais”, afirma.
Nesse meio tempo, atores e artistas que passavam para participar do Festival Internacional de Rua da Bahia entram no casarão-ateliê. Termino servindo de intérprete para uma canadense que queria saber o significado do seu nome. “Prentice quer dizer ‘o aprendiz de Deus’”, traduzo para ela o que ouço. O pintor demonstra satisfação ao se ver rodeado por tanta gente subitamente interessada pelo que tem feito a vida inteira. Um dos canadenses compra um dos seus azulejos, que ele embrulha com cuidado.
Depois de agradecer todos os elogios que recebe, Prentice faz questão de nos levar até a saída e de nos fazer um convite para um retorno. Só assim a sua outra arte torna-se perceptível: a de permanecer tão oculto e ao mesmo tempo tão óbvio.
* Tom Correia é escritor e estudante de Jornalismo.
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