
Ensaio
Algum lugar...
Por Suênio Campos de Lucena
Nos últimos anos, o fremente escritor paulista Nelson de Oliveira, 40, tem lançado diversos títulos – cinco livros de contos: Os saltitantes seres da lua (1996), Naquela época tínhamos um gato (1998), Treze (1999), O filho do crucificado (2001), Sólidos gozosos e solidões geométricas (2004); dois romances, Subsolo infinito (2000), A maldição do macho (2002), e os livros de ensaios O século oculto (2003) e Verdades provisórias (2003), mas só agora, com Algum lugar em parte alguma (Editora Record; 288 págs; R$41,90), coletânea de seis longos contos, ele finalmente encerra sua estréia literária. Isso porque no final do livro, o autor explica que estas histórias foram escritas há mais de quinze anos, recentemente retomadas e revisadas.
Nele, vamos encontrar temas e questões recorrentes do autor – ironia, humor, certo desencanto –, mas com uma abordagem fabular, entremeada por uma perspectiva social que surge de forma sempre inusitada, inesperada, mas também cruel, perversa. O livro decerto também deve ajudar a demolir de vez alguns tijolos atirados contra uma certa “Geração 90”, há muito desfeita. Nelson é constantemente associado a este “grupo” por ter organizado dois livros (Geração 90: manuscritos de computador, 2001, e Geração 90: Os transgressores, 2003), mas, passado o firmamento e desaparecimento de alguns de seus autores, além de vagas polêmicas um tanto fabricadas, o melhor é ver que ficaram alguns bons prosadores, como ele. Assim, parece-nos que hoje a tal geração deve ser vista apenas como um rótulo que colaborou para alguns se fixarem (e outros não).
No primeiro conto de Algum lugar..., “Senhora aos domingos”, há uma riqueza de detalhes que beira o kitsch, o naif, mas a ironia da história se reverte a seu favor. Em destaque, o excesso de cores, cheiros, sujeitos, descrições minuciosas deflagrando a solidão devastadora da protagonista Madalena, retratada quase como um velho móbile passeando numa alegre e ensolarada tarde no parque. Aos poucos, vem a constatação da perda de coisas, sujeitos, lugares. Nada mais é uniforme neste mundo contemporâneo. E Madalena parece se ressentir disso ao deixar seu hotel e encarar um parque devastado, embora esteja mais interessada em viver a vida dos outros. Uma frase resume sua sensação de isolamento, quando o narrador indaga (“ela está à espera de quê?”, p. 17), mas não há respostas. O conto tem apenas um parágrafo, sem o uso de pontos e está repleto de aliterações, repetições que dão um tom bem humorado.
A super proteção de pais e tios a uma criança a transforma num Pobre patinho Frank cheio de si e de vento, título da segunda história, isso porque é assim que o próprio garoto se vê, um patinho, a despeito de o chamarem de coelhinho. Esta poderia até ser uma história infanto-juvenil, mas talvez seu grau de perversão ultrapasse os anseios do filão. O menino vê seus familiares como monstros (“Então, após dizer algumas palavras numa língua estranha, em poucos minutos ele se metamorfoseou, quase em silêncio, em um cachorro enorme e negro!”, p. 39) e, em dado momento, se perde numa feira de rua e encontra “a realidade”, uma roda de jovens assaltantes.
Talvez o conto mais cruel seja “Os antepassados, os porcos”, quando porcos invadem lentamente uma casa – índice do desarranjo e da decadência familiares. Num lamento, quando tudo parece estar bem, o absurdo da situação vem à tona (“há seis meses que não vamos a lugar nenhum, mamãe diz, quebrando o encantamento dos nossos olhos embaçados metidos na fogueira”, p. 163). Como nos filmes de suspense de Alfred Hitchcock, a invasão alcança os espaços (e nervos) dessa família que se destrói e é aniquilada: “Concluímos a partir disso que há porcos também no sótão e no telhado. E muitos” (p. 182). Outra história emblemática e também com bichos é a do cão Otto (que “corre devagar porque tem as patas doentes, cobertas de ferimentos, e já está velho e cansado” p. 89) do conto “Algum lugar em parte alguma”, que dá título ao livro. O cão – que se perde nas vielas movediças da metrópole – é mais uma metáfora da família, esta sim desamparada, perdida, desestruturada.
Vale ressaltar que, embora a ficção do autor esteja repleta de fábulas escritas ora em tom de sonho ou pesadelo, tudo parece verossímil, mesmo que as narrativas sejam incomuns e repletas de absurdos. Com freqüência Nelson de Oliveira expõe uma sociedade que esconde suas chagas, dores e misérias, mas que um dia são expostas de forma brutal. Nas histórias de Algum lugar... (algumas quase novelas) há um insistente mapeamento do modus-operandi de diversos grupos sociais e de sua luta pela sobrevivência.
A literatura de Nelson trata da condição humana, por isso não há como dispensar o sujo, a miséria. No entanto, calma. Não há violência gratuita nem tanto desalento assim porque há humor. Pode-se perder a ternura mas nunca a esperança, embora ela nos chegue áspera, cínica. De fato, a ironia, o cinismo sempre inteligente, o cuidado com as descrições e a riqueza de detalhes são marcas de praticamente todas as suas histórias. Com este livro, diria que Nelson de Oliveira atinge sua maturidade e marca seu nome em nossa prosa – basta se permitir ser provocado a encontrar Algum lugar em parte alguma.
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Suênio Campos de Lucena é jornalista, escritor e doutorando de Letras da USP sobre a obra de Lygia Fagundes Telles. Autor dos livros 21 escritores brasileiros e Depois de abril.
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| Valtério é escultor e desenhista de humor. Há alguns anos exercita seu traço, a lápis e ao vivo, desenhando gente pelas praias, bares, eventos culturais, aniversários, casamentos.... Tem preferência pelos tipos comuns de rua, com suas caras marcadas vergastadas. |
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