
Entrevista
André Seffrin
por Luís Antonio Cajazeira Ramos
Foto: Lia Sampaio
O poeta entrevista o crítico ― Após uma longa conversa numa livraria soteropolitana, onde se discutia a situação atual da Poesia no Brasil, o poeta Luís Antonio Cajazeira Ramos aceitou a provocação da Verbo21 e trouxe para o centro do debate um crítico do porte de André Seffrin, inaugurando, deste modo, uma série de discussões sobre o tema.
André Seffrin nasceu em 1965 (Júlio de Castilhos, RS) e reside no Rio de Janeiro desde 1987. Crítico e ensaísta, organizou, entre outros livros, a Antologia poética de Foed Castro Chamma (Imprensa Oficial do Paraná, 2001), as novelas O desconhecido e Mãos vazias e Inácio, O enfeitiçado e Baltazar de Lúcio Cardoso (Civilização Brasileira, 2000/2002), os Contos e novelas reunidos de Samuel Rawet (Civilização Brasileira, 2004), os Melhores poemas de Alberto da Costa e Silva (Global, 2007), os Melhores contos de Fausto Wolff (Global, 2007), Roteiro da poesia brasileira – anos 1950 (no prelo) e A poesia é necessária de Rubem Braga (no prelo). Escreveu dezenas de apresentações, prefácios e ensaios para edições de (e sobre) autores como Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz, Ruy Espinheira Filho, Antonio Carlos Villaça, Aleilton Fonseca, Gilberto Amado e Flávio Moreira da Costa. Também publicou centenas de textos sobre literatura e artes plásticas em jornais e revistas: O Globo, Jornal do Brasil, Última Hora, Jornal da Tarde, Gazeta Mercantil, A Tarde, Manchete, OPasquim21, EntreLivros etc. Atualmente, organiza para a Civilização Brasileira o Dicionário Walmir Ayala de artistas plásticos no Brasil, edição prevista para 2008.
Luís Antonio Cajazeira Ramos – A poesia atual é novidade, ou somente estilhaçamento do que se fez no século XX?
André Seffrin – Se pensarmos nos grandes clássicos, aqueles que realmente significam, é verdade, a poesia atual parece um tanto desfibrada.
LACR – A poesia dispensa o verso?
AS – A poesia literária, como ainda a conhecemos, não. Vale a palavra escrita.
LACR – Por que não há o diálogo Brasil x Portugal x demais lusófonos?
AS – Diálogo há, apesar de acidentado. No entanto, não sou bom leitor dos portugueses. O assunto foge à minha alçada.
LACR – A poesia como discurso acessível ao público acabou? Sim ou não, quais os responsáveis?
AS – Não podemos dizer que a poesia acabou como discurso acessível ao público, uma vez que continua de certa maneira viva no cotidiano de muita gente, embora de outras formas que não a do livro publicado em papel. Ela está presente em diversos veículos, principalmente na internet, com suas revistas eletrônicas e seus blogues. O mundo muda, e os responsáveis pelas mudanças somos sempre nós mesmos, para o bem e para o mal. A poesia acaba mudando nesse mesmo ritmo.
LACR – A poesia está limitada a uma comunidade de poetas leitores críticos, ou há um público leitor extramuros?
AS – Em certo sentido, os bons leitores de poesia vivem um pouco confinados, pois são os próprios poetas e os poucos críticos e leitores mais assíduos. Mas com certeza existe um público leitor que desconhecemos, e grande, extramuros.
LACR – Poesia é forma, ou os conteúdos dão o tom do objeto poético?
AS – O Massaud Moisés escreveu um livro chamado “Literatura: mundo e forma”. Vejo a resposta nesse título. Nem preciso acrescentar que, para saber mais, é indispensável ler o livro, por sinal muito bom.
LACR – Qual a função da poesia? Pode-se considerar ou se pretender uma poesia pedagógica e uma didática poética, ou, ainda, uma poesia social e uma política poética?
AS – Função da poesia? Existe “função” no amor, na vida em si? Quanto à poesia pedagógica, didática poética ou mesmo poesia social (ou outro termo qualquer que o substitua), o Moacyr Félix costumava dizer que era o maior poeta socialista da literatura brasileira. Sem comentários.
LACR – Onde se esconde, se revela a poesia? No ritmo, nas imagens, na construção frasal? O que é exatamente poesia? O que a faz diferente de outra espécie de discurso?
AS – São muitas perguntas numa só. Respondo com outras. A poesia está no poeta ou no leitor? No verso ou no poema inteiro? No romance “O Atheneu”, de Raul Pompéia, ou nos vários volumes publicados por J. G. de Araújo Jorge?
LACR – Há temas não-poéticos? Há uma linguagem que, pelo vocabulário, é não-poética? Por que há críticos sérios que repudiam certos temas e certo vocabulário?
AS – Só os poetas sabem se existem ou não temas não-poéticos. Serão sérios esses críticos aos quais você se refere? Serão bons críticos os críticos “sérios”? Erico Verissimo costumava dizer que não devíamos nos levar demasiadamente a sério. Ainda fico com ele.
LACR – O que interessa mais: obra completa ou melhores poemas? Vale a pena conhecer todas as besteiras escritas por um grande autor?
AS – Para estudar determinado autor, é sempre bom conhecê-lo melhor, e aí contam também as páginas ruins. Isso porque certos autores parecem se definir melhor nos seus defeitos do que nas suas qualidades. Há poetas que merecem obra reunida, ou obras completas. Outros, um volume de melhores poemas. E ainda há os que nem merecem reedição – no caso, os não-poetas (e são tantos e tão prolíficos esses não-poetas).
LACR – A originalidade está para os românticos como a intertextualidade para os contemporâneos?
AS – É bom assinalar que boa parte de nossa poesia moderna nunca deixou de ser romântica, ou neo-romântica, como preferirem. E não sei se a intertextualidade pode ou deve ser considerada um atributo apenas dos contemporâneos. A história literária é cheia de alçapões, e é preciso tomar cuidado com as generalizações.
LACR – Por achar que ficou chato ser moderno e resolver ser eterno, Drummond é o poeta-síntese da modernidade lírica brasileira?
AS – Gosto demais da obra do Drummond, mas precisamos dar o devido valor a muitos outros poetas mais ou menos da mesma geração, a exemplo de Jorge de Lima, Joaquim Cardozo, Mário Quintana, Sosígenes Costa, Abgar Renault. Devemos valorizá-los da mesma maneira que valorizamos Cabral, Drummond ou Bandeira, cada qual na sua medida, no seu contexto. A poesia, como qualquer outra forma de arte, não é obra de um único autor, mas de um conjunto de vozes, cada qual com seu timbre e seu alcance junto ao público.
LACR – O crítico que não faz poesia é um poeta frustrado?
AS – Há poetas e não-poetas, da mesma maneira que há críticos e não-críticos, romancistas e não-romancistas. O bom crítico é tão raro quanto o bom poeta, assim como o grande crítico é tão raro quanto o grande poeta ou o grande romancista. No meu caso, ficaria feliz se um dia pudesse me realizar como grande crítico, algo que já de antemão posso considerar impossível. Não tenho boa formação, não sou disciplinado, não tenho talento suficiente para isso. Tudo na minha vida foi acontecendo aos trancos e barrancos, à minha revelia. De maneira que sei por onde ando e tenho consciência dos meus limites.
LACR – Como organizador de uma antologia de poetas brasileiros da década de 50 que será lançada pela editora Global, faça aqui um apanhado dessa turma.
AS – Década riquíssima, ainda subavaliada. Não posso citar todos, mas alguns nomes não devem ser ignorados por qualquer antologia que se proponha reunir o melhor da poesia brasileira do século XX: Hilda Hilst, Paulo Mendes Campos, Mauro Mota, Renata Pallottini, Foed Castro Chamma, José Alcides Pinto, Edmir Domingues, Carlos Pena Filho, Affonso Ávila, Alberto da Costa e Silva, Ferreira Gullar, Reynaldo Jardim, Mário Faustino, Ariano Suassuna (até agora só incensado como prosador), Walmir Ayala, José Chagas, Lupe Cotrim Garaude, Lélia Coelho Frota, Jorge Tufic, Octavio Mora, Fernando Mendes Vianna, Theon Spanudis, Mario Chamie, Maria Lucia Alvim, Sosígenes Costa.
LACR – Por que se fala pouco de Walmir Ayala poeta?
AS – De fato, ele é bem mais conhecido como crítico de arte e autor de “À beira do corpo”, romance sucessivamente reeditado. Mais ou menos no espírito de toda a geração que estreou nos anos 50, dominada por grandes artífices do verso emparedados entre o Concretismo e a chamada Geração de 45, sua poesia não é das mais acessíveis. Mas a Global já anuncia para este ano, na coleção “Melhores poemas”, uma antologia de Walmir Ayala organizada por Marco Lucchesi.
LACR – Não quero nem saber, mas vai ter de apontar alguns poetas de hoje e por que o são.
AS – Pela obra que produziram e por estarem ainda publicando, vários dos já citados dos anos 50 e muitos mais, a exemplo de Lêdo Ivo, Alphonsus de Guimaraens Filho, Alberto da Cunha Melo, Ivan Junqueira, Ruy Espinheira Filho, Adriano Espínola, Myriam Fraga, Alexei Bueno, Paulo Henriques Britto, Ivo Barroso, Afonso Henriques Neto, Roberval Pereyr, Antonio Brasileiro, Iacyr Anderson Freitas, Fernando Fábio Fiorese Furtado, Eucanaã Ferraz, Claudio Mello e Souza, Antonio Carlos Secchin, Emil de Castro, Carpinejar, Claudia Roquette-Pinto, Davino Ribeiro de Sena, Maria Carpi, Renato Rezende, Luis Augusto Cassas, Mauro Gama, Florisvaldo Mattos, Soares Feitosa, Luís Antonio Cajazeira Ramos, Astrid Cabral, Suzana Vargas, Reynaldo Valinho Alvarez, Antonio Barreto, Kátia Borges, Miguel Sanches Neto, Geraldo Falcão e uma jovem poeta ainda inédita em livro, Karen Éler. Tantos. Por quê? Ora, porque todos são, neste momento, indispensáveis, e a lista não termina aqui, naturalmente. Como disse antes, a poesia não é feita por um único poeta...
LACR – Foda-se, mas vai ter de fazer o mesmo numa pequena relação de maus poetas.
AS – Não chegam a ser maus poetas, mas, entre os vivos, são certamente supervalorizados Décio Pignatari e Augusto de Campos.
LACR – Se Décio, Augusto e, por extensão, Haroldo não são lá esses poetas todos, se o verso é fundamental em poesia, qual o lugar do Concretismo em nosso mapa poético histórico e geográfico?
AS – O Concretismo, com seus equívocos e acertos, ocupa um bom lugar em nossa história literária. O acerto maior foi deflagrar o debate e, queiram ou não as vozes discordantes, mexer com o sistema literário como um todo. Nesse sentido, ficou e é página virada em nossa história. As conseqüências ruins frutificaram: ignorou-se grande parte do que se produziu de melhor na poesia brasileira daquele período (e basta aqui lembrar os poetas que citei entre os estreantes dos anos 50, alguns deles ainda ignorados pela maior parte dos leitores e da mídia em geral). Hoje, Décio e Augusto arrogam-se maiores entre os maiores. Apóiam-se numa repercussão estrangeira que, ao que tudo indica, é extra-literária e tem a ver com as boas relações que eles souberam cultivar com grandes nomes internacionais. Ora, a literatura, a boa e a má literatura, como tudo mais, vive disso, de boas relações, de contatos. Quanto à produção dos concretos, fora a pretensão ilimitada, restaram alguns bons poemas e uma legião de diluidores do discurso concretista. Há que se ler algumas páginas de José Lino Grünewald e até mesmo de Augusto, Haroldo, Décio e Ronaldo Azeredo. Mas as contribuições mais interessantes são mesmo de Ferreira Gullar, Reynaldo Jardim, Theon Spanudis, que optaram logo em seguida pelo neoconcretismo e depois, sensatamente, libertaram-se desses rótulos. Porque o que verdadeiramente interessa é a obra do poeta, o que ele individualmente tem a dizer e diz.
LACR – Quem define a qualidade: o leitor, a academia, a crítica, o cânon?
AS – Nenhum em particular. O sistema literário como um todo.
LACR – Há algo de novo depois de Homero e Safo? Até onde é importante o novo, o inédito, o jamais-dito? Criatividade é novidade?
AS – Desde Homero que a literatura se repete. Os temas são mais ou menos os mesmos, varia apenas o talento (ou a genialidade) de cada um. Nesse sentido, Homero é tão ou mais atual que Fernando Pessoa ou João Cabral de Melo Neto, e assim por diante.
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Vânia Medeiros
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