
Entrevista
Índigo
por Lima Trindade
Índigo nasceu em Campinas. Na verdade, nesta época, era ainda chamada por outro nome: Ana Ayer. Ela só se tornou Índigo quando, após trabalhar num bar homônimo, de tanto as pessoas se referirem a ela como Indigogirl, resolveu adotar o apelido. Depois disso, Índigo escreveu sem parar. De blogues a livros. Vamos dizer que alcançou uma pequena fama. E conquistou prêmios. Só em 2006, arrematou um prêmio do Governo Federal, o "Literatura para todos", na categoria contos, e a Bolsa de Criação Literária do Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Tem gente que insiste em dizer que ela faz literatura infanto-juvenil. Acredite quem quiser. O certo é que ela é dona de um humor extremamente inteligente que conquistou a mim, ao desenhista-escritor-cartunista-quadrinista Laerte (O melhor desenhista vivo, para mim!) e mais um porradão de fãs.
Lima Trindade - Bem, primeiro, gostaria de saber como tudo aconteceu - será demais? (risos). Isto é, quando você decidiu ser escritora?
Índigo – Eu estava viajando sozinha, em Buenos Aires, e alguém me perguntou o que eu fazia da vida. Respondi que era escritora e me assustei com minha própria resposta. Eu não tinha nenhum livro publicado, apenas uns contos na rede. Mas como ali ninguém me conhecia, falei. Voltei ao Brasil e, um ano depois, publiquei meu primeiro livro. Isso foi em 2001. Logo depois larguei meu emprego em publicidade e resolvi me dedicar à literatura. Passei por um período bem difícil, financeiramente. Mas não me arrependo. O plano deu certo. Virei, de fato, escritora.
LT – Você lia muito? Quais os autores te seduziam nesta época? E hoje? Quais escritores admira?
I - Desde criança, prefiro livros à televisão. Os primeiros autores que me encantaram foram Machado de Assis e Lygia Fagundes Telles.
Hoje em dia meus top são: Margaret Atwood, Mercè Rodoreda e Simone de Beauvoir. Acompanho de perto a produção contemporânea e leio todo mundo que conheço na vida real. Minha leitura, na verdade, é meio bagunçada. Vou lendo de tudo. Agora mesmo estou lendo “O Quarteto de Alexandria”.
LT – E o lance com os blogs? Me surpreende sua criatividade e disciplina em atualizar o bichim. Quantos já teve? São, em sua maioria, temáticos, seguem um perfil?
I - Tive três blogues: “73 obsessões”, “73 bichos” e “73 subempregos”. Esses seguiam a mesma fórmula. Um pequeno texto por dia até dar 73, e nesse ponto eu parava. Isso foi necessário porque no começo eu tinha muito medo de blogues, de não saber o que fazer com aquilo. Com um tema bem definido seria mais fácil. Seriam tarefas diárias a serem executadas com prazo definido.
Estou no quarto blog: “Diário da Odalisca”. Esse é para ser um blog normal, e como eu desconfiava, está sendo difícil. Acabo falando da minha vida pessoal, coisa que desgosto.
LT – Como é a resposta dos leitores? O sucesso chega a incomodar ? Você sai de casa com óculos escuros, peruca e capote (não o Truman)?
I - Os leitores são a única razão para eu continuar escrevendo. Sinto uma espécie de responsabilidade em fornecer textos diários para eles. É também meu único retorno. Os leitores dos livros raramente se manifestam.
Quanto a assédio, não há. Os leitores parecem ter medo de mim. Ficam encabulados e saem correndo. Minha vontade é de correr atrás.

LT – Quantos livros já publicou? Possui muitos originais na gaveta?
I - São 7 livros publicados:
“Saga Animal” – 2001
“Caixinha de Madeira” – 2003
“Festa da Mexerica” – 2003
“Perdendo Perninhas” – 2006
“Como casar com André Martins” – 2006
“Cobras em Compota” – 2006
“O Segredo do Vô Juvêncio” – 2006
Sim, quase sempre tenho originais na gaveta. Escrevo muito. A produção é diária. Em 2007 lançarei mais 3 livros: “A Maldição da Moleira” (Editora Girafinha), “Casal Verde” (Editora Hedra) e “Um Dálmata Descontrolado” (Editora Hedra), e relançarei “Caixinha de Madeira”, que sai da Editora Altana e vai para a Brinque-Book.
Não consigo ficar sem escrever. Quando isso acontece, me dá um tremendo mal-humor.
LT – Você participa do processo de editoração dos livros ou isso é uma função exclusiva da editora? Considero seus trabalhos objetos que, além de poderem ser lidos, podem funcionar perfeitamente como adereços decorativos, tão bonitos são (risos)!
I - Não gosto de participar de escolha de ilustrador, imagem de capa. Prefiro trabalhar com editoras nas quais confio e deixar tudo por conta deles. Meu interesse está na escrita. A etapa de transformar o texto em livro me causa uma sensação estranha, uma espécie de comercialização dos meus pensamentos, que de fato é.
LT – O seu humor é bastante peculiar, me impressiona pela acuidade, pela observação dos cotidianos, pela preocupação com o contemporâneo. Gosta muito de política? Acompanha o noticiário, lê jornais ou participa de reuniões clandestinas de grupos anarco-sindicalistas?
I - Detesto política. Acho chato e burocrático. Não assisto televisão (nem tenho) e acompanho o suficiente para saber o que acontece no mundo. Participo de um grupo anarco, mas nada sindicalista.
LT – Considera-se humanista? Vê outras possibilidade de ser no meio de tanto ter? É uma mulher idealista?
I - Eu separo a existência em dois módulos. Tem a vida protocolar, que considero terrivelmente chatinha, e tem a outra vida, que acontece nos bastidores. Essa é a que me interessa e que ocupa a maior parte do meu tempo. É graças a ela que consigo funcionar na esfera protocolar. A vida aparente, baseada na sociedade globalizada capitalista, é desesperadora. Se isso fosse tudo, acho que eu já teria caído fora.
LT – Você fez teatro? Como foi a experiência? Todo escritor é ator, vive uma personagem? Se sim, qual personagem sempre sonhou em ser?
I - Fiz teatro quando adolescente e foi uma experiência importante. No ano passado tive a oportunidade de encenar meus próprios textos no projeto “Autor em Cena” do Itaú Cultural. Dividi palco com a Ivana Arruda Leite. A direção era da Fernanda Dumbra. Dessa vez foi um baque. A Fernanda fez um trabalho de texto super intenso. Percebi que aquilo que escrevo não é necessariamente o que acho que é. No palco o texto ganhou uma grandeza que eu nem imaginava ser possível. Depois desse trabalho passei a ler meus textos com outros olhos. A experiência teatral ajuda a deixar o texto mais sonoro, limpo e forte.
Eu adoraria ser qualquer mulher da Dorothy Parker. Elas são neuróticas, engraçadas e coquetes.
LT – Hoje, sobrevive só escrevendo? Que mistérios tem a Índigo?
I - Sobrevivo escrevendo, mas não apenas de literatura. Também faço trabalhos para publicidade. Ultimamente estou terminando “Um Dálmata Descontrolado”, que é a continuação do meu primeiro livro: “Saga Animal”.
Os mistérios não podem ser revelados, por serem mistérios.
topo | página inicial
|