
Colunas: KAOS KAPITAL
Sobreviverei às DRs (ou não)
por Alex Cojorian
Para Sonja, que entende tudo de acrônimos e DRs
Isto é: sobreviveremos. Claro, porque uma DR, uma “Discussão de Relacionamento”, demanda mais do que a unidade, no mínimo um casal. Outro dia passei por uma livraria e li na vitrine: Como Manter um Relacionamento sem Discussões. Incrédulo e maravilhado, deixei o título intacto e passei ao largo, acreditando piamente que se trata de um livro mágico, e que é possível, em Salvador ou em Brasília, e quiçá alhures, existirmos sem DRs.
Dizem, ou dizem que as mulheres é que dizem, não sei bem, que os homens não gostam de “conversar”, e que elas, sim, gostam. Eu mesmo não gosto não. Mas pior do que uma DR, só mesmo a verdade. De vez em quando alguém ainda tem a pachorra de vir recordar aquele refrão dos tempos da darklândia: Love will tear us apart, o amor vai nos dilacerar. Antes fosse! Cessado o romantismo juvenil que ceifou seu autor em pleno desabrochar da vida, resta aos que ficaram adultos algo bem mais amargo no lugar do amor: a verdade.
Dizem também que a ultima necat, a última hora é a que mata. Mata mesmo, mas, por mim, bem pior é a verdade, que mata sem matar: dor e desgosto sem nenhum benefício pela sua aquisição. Hoje estou algo inspirado e cheio de citações, portanto venha de lá a próxima: se não me engano, foi Nietzsche quem falou alguma coisa do tipo “a arte existe para que a verdade não nos destrua”, e muita gente já filosofou e agiu em prol da ars amatoria, a arte de amar, de Ovídio a Vinícius, passando por Casanova e Bocage, Bataille ou Genet. Generalizo um pouco e digo que o drama é de todos nós, homens ou mulheres, homos ou heteros, cristocêntricos ou libertinos, casamentos convencionais ou relacionamentos abertos, triângulos, quartetos e seus múltiplos, e não nos esqueçamos daqueles que optam por amar em silêncio, ou por não amar, ou por não se relacionar, o que também termina por ser relacionamento.
Estou sim falando, é óbvio, da terrível e afamada Lâmina Descarnadora da Razão, que vai cortando primeiro a epiderme, depois a derme, depois, camada após camada, os tecidos todos, até chegar ao... nada que habita o cerne de uma cebola! Esse é o instrumento de precisão cirúrgica, legado inevitável de todas as pós-modernidades, fruto do nosso afastamento do mundo e da nossa descrença nos processos mágicos – no caso, do amor – que, cada vez mais, tem nos possibilitado encontrar todas as verdades, cristalinas e inevitáveis, mas que vem deixando tudo o que não for verdade em destroços fatiados e inaproveitáveis.
Nós também somos o inferno dos outros. O axioma invertido – foi a Dani Lobo quem veio com o achado – me conforta. Constato que ainda páira no ar algum tanto da razão cínica, e eu, cínica, oportuna e sorrateiramente, aproveito para sugerir: calar, lisonjear, sorrir, entregar-se em silêncio, pálidos mas validos recursos contra a Lâmina terrível, que possibilitem protelar minimamente o difícil exercício de amar, sem demolir esse pouco de beleza que nos custa tanto construir no dia-a-dia.
O dia-a-dia. Eis o mal, a causa nefasta das DRs e doutras mazelas d’amor. Até aí, nada de novo sob o sol. Mas sem maiores pessimismos, estou enjoado desse papo de DRs, de predições futurísticas astrosas e desastrosas, tanto quanto de seus correlatos psicanalíticos e religiosos. Mais modestamente, tenho preferido procurar me concentrar no dia de hoje – e eis o carpe diem latino... Sim, porque, apesar dos desacertos, ou por isso mesmo, ainda somos (somos mesmo?) seres humanos, e não seres de luz ou de lama infernal, e o livrinho ainda há de estar naquela vitrine.
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Vânia Medeiros
@Flickr
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