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Tribuna
Diogo Costa

 

HOTEL CALIFÓRNIA

Explodiram um tapa no ouvido; o telefone era pra ele. Poderia ser pior: seringa no saco, cheia de éter, no meio do escroto pra queimar o juízo. Encapuzaram. Lançaram num abismo. Queda vertical. Alcançou o chão. “O quê eu fiz?!”. Ninguém respondeu. Atravessou uma ponte de um lago abandonado; esqueletos de carpas estavam grudados no fundo. O letreiro faltando o R do Califórnia relampejava na parede.  

Pisou no tapete da entrada. Uma aranha dedilhava sobre o balcão da recepção. O vitral quebrado se remontou num piscar de olhos. Da aranha, se fez uma mulher com chapéu de aeromoça.  

- Isso é sonho?
- Talvez, disse uma voz dentro de sua cabeça.  
- Quem é você? Quem me trouxe aqui! Isso é sonho, não é?
A moça apontou um salão dourado; uma banda tocando valsa, pingüins de barba, e um noivo bêbado.

Ninguém o percebeu entrar, só ela; uma estátua branca, viva, indicou uma escada e subiu. Uma noiva fugindo; um cisne com pernas grossas, de cinta-liga vermelha, voando nos degraus, ao som de uma televisão ligada, que embala o sono e guia os sonhos.

Hipnotizado, a seguiu maquinalmente. Os jarros se encheram de flores, as luzes acenderam. Entrou no clichê de filmes eróticos: no quarto do fim do corredor, a mulher se livrou do vestido. Corpo nu, pálido, translúcido. Deu um beijo sufocado, tateou o corpo procurando o sexo.

Na teia vermelha, o delicioso toque; macio, e sem tempo de dizer o resto. Ela se desfez; perfume, pó, vestígios, nada restou da mulher. As luzes apagaram. A banda parou de tocar. Um ruído de engrenagem ecoou: o noivo engatilhou uma longa escopeta de caça.

- Intruso! Por que veio aqui, hein? Vai morrer!    
- É sonho não é? Vai me levar pra casa, não vai?
- Só consegue dizer isso imbecil?!
- É sonho não é? Responda!
- Menino chorão! Pare de repetir isso!

O noivo alisou o gatilho, experimentou o peso, poderia atirar, e num comando tornou-se estático; um soldado de chumbo. O intruso não sabia que era intruso, apenas foi jogado ali.  Enfiou a cabeça entre as pernas e sentiu o cheiro; urina. Um esguicho rápido amarelo-verde, pra lembrar que um bicho ainda estava vivo; pra amolecer as fezes secas e diminuir o volume do que ali já estava. E alguém se divertindo, sentindo-se bem em causar medo.

Entorpecido, cruzou as pernas; amarrou-as com o lençol e desabou para trás. “Com as pernas cruzadas não escapo de mim mesmo. Filhos da Puta! Agora quero ver! Dei laço!”.  

Aumentou o volume do rádio. Fechou os olhos. Do lado esquerdo da cama, alastrava-se um riso baixo e pausado; “deve ser o rádio, é o radialista rindo da piada do ouvinte”.

Puxou a coberta até a altura do ouvido. Forçou cantarolar a música, acompanhando o som familiar do rádio, com as luzes vermelhas aconchegantes, pra tentar dizer que não estava em outro lugar. Espremeu o primeiro refrão; “welcome to Hotel Califórnia, such a lovely place, such a lovely face”.

Calou-se. Deixou o rádio completar. Aproveitou pra engolir o cuspe, mas a garganta estava seca. A graça da piada retornou. O mesmo riso baixo dentro de sua cabeça; um martelo de éter, nas têmporas, vasculhando uma doença que ninguém sabe.

Ele rezou um Pai Nosso. Atropelou o Vosso Reino com a Vossa Vontade. Simulou cair num sono profundo; fingiu tão bem que se convenceu: dormiu, preso, atado, na dúvida.

 

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