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Crônicas Havaianas
Pimenta nos olhos dos outros é refresco ou a propósito do humor que existe implícito em muitas tragédias
por Eliana Mara


“Cada época tem suas fatalidades próprias, inconfundíveis, inalienáveis.”
- Nelson Rodrigues

Aloha!

Vocês já devem ter ouvido falar das Panteras. Em qualquer versão em que o seriado foi produzido, aparece a figura enigmática do chefe das três heroínas: Charlie. Grande sacada do roteirista que criou um personagem misterioso, fundamental para a trama e não teve que contratar nenhum ator para fazer o papel. O Charlie dá as ordens e as panteras são completamente submissas a ele. Quero lembrar aos navegantes de primeira viagem meu medo, quase inexplicável, pelo editor-chefe, Lima El Editore. Foi justamente essa lembrança que me igualou às Panteras. Planejo formar um grupo de auto-ajuda intitulado MUTE-CHANON. Sei que a sigla é complexa e explico: Mulheres que Temem o Chefe Anônimas. Mas terei que encontrar outra dinâmica para os encontros semanais. As reuniões que freqüentei, no grupo MADA - Mulheres que Amam Demais Anônimas, não me fizeram bem. Éramos obrigadas a cumprir um ritual ridículo e nunca, nunca, nunquinha, havia um café decente. Groucho Marx ficou célebre pela frase: “Não confio no clube que me aceita como sócio.” Eu não confio em nenhum sujeito neurótico, famoso ou anônimo, que não seja viciado em café.

Pois é, nas últimas sessões, tenho desperdiçado o tempo da minha terapia com este tema. O chefe vai continuar sendo o que é. Não respeita meu ritmo nem minha sensibilidade. Simplesmente, como quem atira uma mosca morta para longe, me liga tarde da noite e me diz: quero as crônicas havaianas prontas, agora! Então, na falta de um fato genuinamente engraçado, e estando sob pressão, comentarei um fato trágico. A leitora, aquela que se acha muito perfeitinha, já faz sua admoestação costumeira. Para ela, aqui não é o espaço adequado para comentários de fatos não engraçados. Você, leitora implicante, quer exigir de mim algo que não tenho: sangue de barata. Então, se você deseja, sou uma serva sob seu comando. Aqui está o papel, aqui estão minhas anotações, posso enviar-lhe todos os arquivos, para que você mesma termine a crônica. Porém, se não tem competência e vai apresentar desculpas esfarrapadas, me deixe em paz para terminar meu trabalho.
Acho que estou numa maré de azar. Talvez eu tenha jogado pedras na cruz e por isso tive a má sorte de estar à mercê de um chefe destemperado e de uma leitora prepotente como essa. Leandro, meu amigo do Acre, que ouve minhas lamúrias, diz que azarado é ele e tem tem certeza que se fosse dono de uma loja de chapéus, as pessoas começariam a nascer sem cabeça. Atualmente, é meu personal selftrainer. Começou a ser influente quando relatei a dificuldade em realizar caminhadas sem stress. Então, ele me apresentou algo que, neste mês, tem revolucionado minha vida. Trata-se do SECH - Sistema Eficaz de Cumprimento Hierarquizado.

No Parque da Cidade, a trilha não é extensa. É preciso ir e vir, pelo menos umas quatro vezes, para cumprir um programa decente de emagrecimento. Há o que se espera de uma trilha dentro de um parque: verde. Afinal, é um caminhozinho curto e sem novidades, que me obriga a cumprimentar mais ou menos quatro vezes a mesma pessoa, se por boa ou má sorte, há pessoas mais ou menos conhecidas, caminhando no mesmo horário. Como fazer para não ser obrigada a interromper o passo e fazer cumprimentos, especialmente naqueles dias em que você acordou sentindo o piso frio embaixo de seu pé esquerdo e encostou a calcinha na toalha molhada que o namorado deixou em cima da cama. Para completar o quadro, seu filho pegou seus últimos trocados (você sempre tem que dar uns trocadinhos para o guardador, senão ele fura os pneus do seu carro). Bem, o fato é que, mesmo disfarçada sob o boné e usando óculos escuros, a pessoa te reconhece e começa a rir, à distância.

Você respira fundo, apressa o passo e diz: - Oi, tudo bem? Se você estiver com sorte, a pessoa segue a etiqueta, diz tudo bem e sai andando, cumprindo as ordens do médico de fazer uma caminhada ritmada. Mas se você matou seu pai, ela vai parar e vai responder. Se você matou seu pai com facadas, por exemplo, o que caracteriza um crime hediondo, ela vai responder e ainda caprichar nos detalhes. Lembre-se que para cumprir 40 minutos de caminhada, você pode reencontrá-la mais três vezes. Se você usar o SECH, estará livre dessa situação constrangedora. De quebra, fica livre dos pneuzinhos que invadiram sua cintura.

Posso dar uma breve descrição do método. Você estabelece 4 gestos para usar com 4 categorias de pessoas. E deve seguir à risca esta prática inovadora para cumprimentar pessoas. Os quatro gestos devem ser usados seguindo uma gradação: 1) leve aceno de cabeça para pessoas que você reza para não encontrar, mas Deus, que vive muito ocupado, não pôde ouvir suas preces; 2) discreto aceno de mão, para pessoas que foram importantes apenas na sua infância; 3) bom dia com expressão neutra, para pessoa das quais você depende financeiramente; e 4) dizer como vai com um sorriso e braços abertos, para pessoas que você quer manter na sua vida. Para iniciantes, há uma dica valiosa: em casos de emergência, faça como os cães adestrados e finja-se de morto.

Trocando de assunto e atendendo a inúmeros pedidos dos leitores, estou inaugurando dois novos espaços: utilidade pública e desafio havaiano. A utilidade pública de abril: ao matricular seu filho em alguma escola, faça uma visita não guiada. Agora, mantenha a calma, respire fundo e prepare-se para a grande revelação: se você caiu no conto da carochinha e matriculou seu filho após uma visita guiada, ele está em apuros. Puxe pela memória e verifique se durante a tal visita você ouviu apenas relatos articulados e polidos sobre: inovações fantásticas nos currículos, instalações espetaculares, lista de nome de professores que aparecem em fotos ridículas nos outdoors das cidades, premiações em rankings das revistas semanais mais vendidas, laboratórios incríveis onde seu filho pode obter competências proparoxítonas como robótica e mecatrônica, os inúmeros serviços de atendimentos para orientação, terapia, coordenação, blá, blá, blá. Se a funcionária que conduziu você ou o pai do seu filho estava vestida impecavelmente, aparentava bom humor, falava com voz mansa e demonstrava uma simpatia súbita pela sua pessoa, tenha certeza: a família toda está com problemas. Para saber se uma escola é boa mesmo e merece sua confiança, você deve solicitar, sem prévio aviso, uma visita não guiada. Só você, com livre acesso aos diversos ambientes fenomenais que a escola exibiu nos folhetos e outdoors. Se a funcionária impecável apresentar, com a mesma fala mansa, alguma desculpa, por mais fundamentada que seja, desista e imediatamente procure outra escola. Os fundos, a lata de lixo, o que há embaixo dos tapetes, é isso que você deve procurar. A propósito, seguindo o método de sempre revelar um endereço real em cada edição, a escola que sugiro para primeira visita, fica na mesma rua em que moro (leia a edição de fevereiro para saber), no número 178. É possível fazer uma visita aos fundos da escola, a qualquer hora do dia. O modo como eles acondicionam o lixo, desrespeitando as normas básicas de higiene e reciclagem é razão suficiente para não matricular qualquer ser humano nesta escola. Posso garantir que o repertório escolhido para as festas escolares é no mínimo indecente. No entanto, a fachada é maravilhosa e os pontos turísticos sedutores: belíssima sala da direção, muito bem decorada biblioteca, com livros de capas incríveis. Entendo que muitas pessoas preferem as mentiras sinceras. É melhor ser adepto dos óculos cor-de-rosa nestes tempos tão complicados. Posso entender que é mais fácil para alguns ter a chama da ilusão acesa e talvez por isso tantos pais optem por entregar a educação de seus filhos para a escola mais bonitinha. Como dizia o grande Nelson Rodrigues, há muitas coisas que são bonitinhas, mas ordinárias.

Para o desafio havaiano, a pergunta deste mês é: o que querem dizer os crentes quando afirmam que Deus é fiel? Aquele que enviar a resposta mais inteligente e bem humorada ganhará o prêmio. Perde tempo quem me indaga o motivo que me levou a eleger estes critérios e não outros tais como: clareza, concisão e coerência. Respondo prontamente que o desafio foi proposto por mim, no espaço das crônicas por mim escritas. Além do mais, é meu também o dinheiro que vai ser gasto para comprar o livro Se um viajante numa noite de inverno, de Ítalo Calvino, que enviarei pelo correio para o vencedor. Devo avisar que só serão aceitas as respostas enviadas por correio, em envelopes repletos de impressões digitais. Não aceito nada enviado por email. Aviso também que este romance é imperdível, uma masterpiece da literatura contemporânea. Não, não me peçam para traduzir o termo em itálico. É chique enfeitar as crônicas com termos em outras línguas sem tradução. A partir de hoje, preparem seus dicionários.

Bem, meu tempo está acabando. Para entender o título que escolhi para esta crônica, apresento o resumo de minha teoria, inspirada nos textos de A cabra vadia, de Nelson Rodrigues, segundo a qual pimenta nos olhos dos outros só é refresco quando os outros não são pessoas de nossa estima. Só de longe é que podemos rir de uma morte que tem humor. Chego ao fato: Timothy Treadwell passou trezes anos no Alaska, dedicado a proteger a vida dos ursos pardos. O fim desta história é que foi devorado por um urso, juntamente com a companheira, que o acompanhava. A tragédia se amplifica pois a morte estava sendo documentada por seu equipamento de filmagem. Ironia do destino o fato deste casal, que registrava detidamente o modus vivendi dos ursos, servir como ilustração viva de duas características de um urso normal: interpretar corretamente que o homem é um predador e interpretar corretamente que o homem serve é comida. Segundo consta, a mulher seguiu o marido nesta empreitada apesar de sentir medo dos ursos. Dizem as más línguas que ele havia sido rejeitado como ator de Hollywood, tornou-se um ébrio e de repente, traçou um plano de vida: viver com os ursos e fazer praticar uma boa ação ecológica, demonstrando amor incondicional aos animais. Mas como não era bobo, levou sua própria companheira para a floresta. Na minha opinião de scholar tropicalista, o cara queria aparecer de qualquer jeito. Por outra ironia do destino, o urso comeu o casal no período em que receberiam a entrega de mantimentos. O sujeito da entrega, ao chegar, estranhou a ausência do casal e sobrevoou a área com o helicóptero. Viu a barraca do casal destroçada. Conseguiu, inclusive matar um urso, mas ninguém pode garantir que tenha o urso assassino. O problema é que não encontrava os corpos. Até que, por uma associação livre de idéias, lembrou da célebre história infantil do Lobo Mau, resolveu abrir a barriga do urso e lá encontrou o corpo do amigo, ou algo semelhante. A moral da história: se você foi rejeitado pelo cinema de Hollywood, não decida viver com os ursos para ser famoso. Aconselho a todos que passem a utilizar o revolucionário método SECH em todos os momentos da sua vida: na dúvida, quando encontrar um urso em seu caminho, use expressão neutra instantânea e corra!

Hasta la vista, baby

 

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Maiesse Gramacho é fotógrafa e jornalista. Nasceu em Brasília, colaborou com entrevistas e resenhas para a Verbo21.


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