
Colunas: DAGUERREÓTIPOS
Harpias
por Tom Correia
O escritório de contabilidade ficava no alto de uma ladeira, num bairro residencial nem chique, nem pobre. A fachada da casa era de excelente bom gosto, um trabalho feito por arquiteto em estado de graça. Apenas o ambiente, eu descobriria logo depois, era obscuro, assim como eram obscuros todos os que trabalhavam ali. Sem problema: eu também era um obscuro. Além disso, eu não podia escolher muito. Sentei no passeio do lugar e vi o quanto aquela residência estava entalada entre os prédios altos da rua. O movimento do tráfego já era intenso pela manhã e tentei me distrair olhando os tipos de carros que passavam. Eu estava nervoso com a possibilidade de colocar tudo a perder na entrevista. Eu era péssimo de entrevista. Um retrospecto desfavorável.
Luciano era muito magro. Parecia que não comia há anos. Conheci aquela figura na fila dos classificados. Eu havia juntado a última grana que tinha para publicar um anúncio no jornal de domingo me oferecendo como digitador. Isso vinha funcionando há algum tempo, mas era sempre temporário, o que temporariamente me deixava meio pra baixo. Com a cara-de-pau dos desempregados, abordei Luciano e logo ele estava com meu currículo na mão. Me ligaram no mesmo dia. Fui recebido por todos com grande simpatia e desconfiei de tanta polidez. No ar havia um odor de educação envernizada pelo cinismo, como se todos se esforçassem por uma convivência que fosse favorável ao único ponto em comum: não gastar dinheiro sob nenhuma hipótese. Deu tudo certo, falei pouco e dei as respostas certas. Sem invencionice.
Comecei no outro dia. Me mostraram a saleta apertada onde eu ia ficar durante algumas semanas, até eu terminar de digitar todo o material: milhares de códigos, cnpj's e registros de clientes. Era um banco de dados. Eu não queria muito contato com aquele pessoal, chegava cedo e começava a digitar com precisão e rapidez. Queria terminar logo e sair dali com minha grana. Com o tempo percebi que as três mulheres, sócias do escritório, conversavam apenas sobre um único assunto:
"Temos que reduzir custos! Temos que retirar o bebedouro dos clientes, temos que cortar as ligações, temos que tirar as extras do Luciano! Reduzir custos! Reduzir! Temos que reduzir a limpeza do banheiro para apenas um dia na semana, temos que ligar apenas um ar condicionado, temos que racionar os copos plásticos! Reduzir, reduzir! Cortaremos o cafezinho, os vales e os adiantamentos! O tempo de descanso também será reduzido! Precisamos terceirizar a terceirização!", assim gritavam na sala de reunião, excitadas por descobrirem novas formas de aumentar os lucros.
Rapidamente minha fama se espalhou na casa de verniz. Que eu era eficiente, que eu era pro ativo e multifuncional (as empresas gostam de criar novos termos), que eu era ágil, que eu era dedicado. Elas não sabiam, mas eu já havia me tornado impermeável aos elogios. Aprendi com o tempo que há sempre neles algo de funesto. Sempre foi assim. Me elogiavam muito, tentando inflar meu ego, pra depois aprontarem alguma. Tipo me pagar menos, me rebaixar a outra função ou pedir que eu fizesse um trabalho sujo. Como da vez que tive de servir cafezinho aos diretores imbecis numa reunião idem.
Um dia cheguei cedo demais. Encontrei apenas uma delas, a que fedia.
"Você é muito simpático", disse se aproximando.
"Obrigado."
"Obrigado? Isso é resposta que se dê a uma mulher?"
"Desculpe."
"Desde o dia em que você chegou eu estou de olho em você, sabia?"
"Não."
"É sim, você é simpático, mas é meio estranho... diferente do Luciano que também é estranho, mas é magro demais. Sabia que ele é virgem? 28 anos e virgem, isso é sério, hem?...Você não me quer?", me apertou contra a parede da saleta.
"Sim."
"Então me beija."
Ela fedia a nicotina. Uma nicotina que me ardeu na boca e na língua. Prendi a respiração, mas não adiantou: no meio do beijo, tossi sufocado.
"Que foi, está nervoso?"
"É."
"Vamos pra minha sala, lá eu ligo o ar."
Ela abriu o decote e os seus seios flácidos despencaram. Tirei os olhos de cima daquelas duas massas falidas. Terminamos. Eu não senti nada; ela parece que sentiu tanto que feriu meu braço com suas garras.
"Quero de novo, fora daqui."
"Certo."
Fui digitar meus códigos, ainda mais rápido.
A segunda delas, no dia seguinte, passou a me olhar esquisito. Começou a perguntar sobre minha vida pessoal. Quando terminei de responder, houve entre elas uma espécie de silêncio denunciador na sala de reuniões. Perguntei pro Luciano. "Não sei de nada", ele se esquivou. Saiu cheio de documentos na mão para autenticar. Eu sempre ficava sozinho com aquelas mulheres, aspirando aquele ar de nicotina. Daquele jeito eu ia pegar um câncer no nariz. Passei o dia digitando pilhas e pilhas de laudas numeradas. Quando deu meu horário, a segunda entrou na saleta.
"Preciso que você digite isso agora.", depositou mais uma pilha na mesinha.
"Agora? Preciso ir."
"Você vai ter de ficar até mais tarde. Espero você terminar."
"Certo", me arrepiei de novo. A primeira tinha sido na fila, quando toquei o ombro de Luciano numa forma de cativá-lo. Uma intimidade suspeita.
Já era quase nove, quando acabei. Estávamos sós. Fui levar os papéis e o disquete. Bati na porta da sala dela e aguardei. Ela não respondeu e quando entrei, levei um susto. Senti meus ossos estalarem: a mulher estava de calcinha e de sutiã, sentada na mesa de trabalho. Me chamou com o dedinho indicador, com a palma da mão virada pra cima. Nos olhos, que nada tinham de sedutores, havia olheiras e ganância.
"Vem cá, garotão."
"Como?", me aproximei, sem forças para recuar.
"Vem mais perto."
Ela não cheirava mal como a primeira, mas era ainda mais flácida. Me beijou com um hálito de comida azeda. Tive que disfarçar bem para terminar o serviço. O outro.
"Quando você sair daqui, podemos fazer isso todo dia."
"Podemos."
Não faltava muito para eu dar a empreitada como pronta ,mas passei a não mais ficar sozinho com elas, simulando conversas ao telefone sempre envolvendo minha saúde ou problemas com parentes imaginários. Na penúltima das semanas, houve mais uma surpresa ruim. Ao chegar no horário de sempre, não encontrei ninguém. Bati na porta, apertei campainha, chamei por cada um. Nada. Eu já ia voltar quando vi a ponta de uma chave escondida numa reentrância da janela. Outra vez, reneguei meus sentidos e desprezei outra onda de calafrios. Terminei entrando, com planos de adiantar meu trabalho. Sozinho eu sempre rendia mais. Nem tão surpreso assim, encontrei a terceira lá dentro. Me aguardava totalmente nua e sentada na sua cadeira de recosto alto. As pernas abertas me ofereceram a visão de fartas pelancas esbranquiçadas.
"Quero melhor que o delas.", ela parecia ter bebido.
"Claro.", eu partia para a tríplice coroa.
"Podemos ficar aqui o dia inteiro."
E ficamos.
Depois desses três eventos, subitamente passaram a me evitar. Deixei de ser chamado com freqüência e captei nuances. Fui isolado na saleta e só recebia recados através do donzelo. Não entendi muito bem isso, mas não me importava. Queria só terminar e sair dali. Como sempre, depois de tantos elogios fiquei sabendo por Luciano que demorariam um mês inteiro para me pagar. Não achei justo, mas fiquei na minha. Era melhor esperar trinta dias do que não receber. Luciano, o temeroso, depois que saiu me pediu que não ficasse ali por muito tempo. Elas não queriam. Eu disse que tudo bem, sairia logo, só iria imprimir alguns currículos, às escondidas, é óbvio. Realmente, imprimi o material e fechei a saleta. Só que ao passar pela sala de reunião, fui arrastado para a maçaneta. Talvez estivesse deixando de ser tão desleixado em relação a posses. Na intenção de surrupiar algum objeto ou aparelho qualquer, abri a porta da sala escura. Vi três enormes aves agourentas em volta de um monte de notas. O odor era fétido, havia claramente nicotina, suor e avareza no ar. Já estava me acostumando ao vício aéreo da casa e quase achei natural. Talvez até bom. Vi que elas bicavam-se e gralhavam num som rouco que me eriçou até o último dos fios. Disputavam as notas de dinheiro e com seus bicos afiados chegavam a perfurar algumas notas maiores. Havia três montes definidos e cada uma queria roubar do monte da outra. Vi que parte daquele dinheiro era meu e que seria meu direito levá-lo comigo. As aves abriram suas asas e pareciam dispostas a me atacar. Pressentiram que eu queria arrebatar algum. Elas desceram dos seus poleiros improvisados (da grande mesa, dos arquivos de aço, das prateleiras) para proteger as quantias. Eu ainda tentei me agachar para evitar ser atingido nos olhos e no peito. Recebi uma forte pontada numa das mãos e vi que havia sido ferido. As aves começaram a emitir um som tão ensurdecedor e enegrecido que fui obrigado a tapar os ouvidos. Saí, tropeçando nos móveis das outras salas em direção à saída. Elas vieram atrás e me alcançaram facilmente. A última coisa de que me lembro com nitidez foram três pares de asas escuras formando uma sombra sobre mim.
Amanheci, no meio da rua.
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