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Ensaio
Ó PAÍ Ó
Por João Carlos Rodrigues

 


O que mais surpreende nesse filme de Monique Gardenberg é que, apesar dos muitos erros, ainda mereça ser visto e recomendado.

Adaptado de uma peça teatral do Márcio Meirelles, encenada pelo Grupo Olodum na década passada, ele se desenvolve entre os habitantes do Pelourinho, ameaçados de dispersão pelas reformas urbanas realizadas pelo governo da Bahia. Não assisti ao espetáculo teatral, que acredito possuísse uma força muito grande para a platéia local de Salvador, não apenas pelo tema, mas principalmente por ser interpretado por um elenco da raça negra, majoritária na capital baiana, e frequentemente esnobada pela elite local – salvo no período eleitoral. Vi outros espetáculos de Meirelles, hoje Secretário de Cultura do estado, e a ele não se pode negar o talento, embora devamos apontar, entre os defeitos, um certo tom panfletário já ultrapassado nos anos 60, que se reflete num radicalismo racial muito representativo dos intelectuais quase brancos que pretendem ser porta-vozes da comunidade negra (e não apenas na Bahia). Querem ser mais negros que os próprios negros, como se isso fosse possível. O resultado, com todo respeito, reforça as caricaturas dos negros como malandros, espertalhões, grandes dançarinos, mulheres boas de buceta, homens de paus descomunais y otras cositas – divertindo platéias burguesas em busca do pitoresco. Acontece o mesmo no Rio em relação aos sambistas. A realidade é outra coisa. Um dia, também nesse tema, chegaremos à uma Abolição.
Mas retornemos ao filme, que é o assunto em questão.

Considero que a adaptação, feita pela própria cineasta, é o ponto mais fraco do produto final. Realmente, na primeira parte do filme, os atores não interagem, falam para o espectador, recurso que funciona bem no teatro agit-prop do Olodun, mas não no cinema, onde a linguagem é outra. Chega a cansar. Depois, aos poucos, conseguimos ir entrando no filme, e até nos emocionar. Isso se dá principalmente através dos personagens da mulher evangélica e da mulata que volta do estrangeiro – que são mais humanizados, demonstram conflitos, em suma, são seres humanos e não meros tipos sociais arquetípicos.

O personagem da evangélica (dona Joana), certamente concebido no teatro para ser a antagonista, a vilã da história, devido ao brilhareco da atuação da atriz Luciana Souza, transforma-se na verdadeira protagonista. Essa atriz, paginada como a ex-senadora radical Heloísa Helena, merece a partir de agora toda a nossa atenção. É com ela que a platéia vai se identificar, já que nenhum dos outros personagens é flor que se cheire (não pagam aluguel mas querem água corrente, roubam os turistas que alimentam o comércio local, se agridem mutuamente com piadinhas ferinas, e por aí vamos). Não acredito que isso tenha sido intenção da diretora, mas um erro de dramaturgia que se transformou em qualidade. No final (não estou desmanchando prazeres, espero) vemos que dona Joana tinha suas razões: lugar de menino é em casa, e não batendo carteira de gringo pra virar vítima de justiceiros fajutos. Seu drama é tão pungente que merece toda nossa solidariedade, apesar das divergências.

O mesmo já não se pode dizer de Wagner Moura, em geral excelente ator, aqui numa equivocada caricatura digna dos piores programas cômicos tipo Praça da Alegria. Que boca mole é essa, companheiro, teatro infantil de escolinha primária?!

Retornemos ao roteiro. Há cenas inteiramente desnecessárias como a visita de dona Joana ao antiquário interpretado por Stênio Garcia: ela entra, senta, levanta e sai – sem nenhuma função dentro da narrativa, nenhum diálogo esclarecedor, sem fornecer nenhuma informação ao pobre espectador. Se a intenção era mostrar que os dois se conheciam, bastava um breve diálogo na porta da loja. Num curso de roteiro, qualquer professor, mesmo mediano, mandaria cortar. Pois no cinema comercial (e esse é um filme estritamente comercial, segundo as produtoras Paula Lavigne e Sara Silveira) só deve existir o que tem uma função narrativa muito específica. Também na mise-em-scène vejo um excesso de closes, planos e contraplanos (le cinéma du papa et maman).
Pouca inventividade e muita obviedade, os males de Ó pai ó são.

Agora chega de apontar defeitos. Vamos garimpar as qualidades. É paradoxal que muitas estejam na mesma área dos equívocos. Como os maravilhosos diálogos, onde toda inventividade espontânea do lumpem proletariado soteropolitano explode numa sinfonia de sons, entonações e sub-intenções. Ou a garra dos atores do Olodum, mesmo os que foram escalados para encarnar personagens rasos, meros tipos sociológicos sem vida própria. Acredito ser qualidades vindas da peça. Do filme, e aqui tiremos o chapéu para a diretora-roteirista, a grande contribuição é o esboço de um musical brasileiro popular, e a constatação do carnaval como uma geléia geral onde tudo se mistura: drama e comédia, vida e morte, crime e castigo, numa cruel cornucópia do melhor e do pior, tudo e todas as coisas, per omnia seculum seculorum.

O espectador atento pode, além do feérico, perceber críticas nem tão veladas à máquina comercial da folia baiana, que enriquece poucos à custa de muitos, realidade crudelíssima por detrás da fachada de alegria. A gota de sangue no fundo da taça de champanhota. Uma representação do Brasil no que ele tem de melhor e pior. Pra tudo continuar bem além da quarta feira. Parece longe daqui, mas é aqui mesmo. ////


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Maiesse Gramacho é fotógrafa e jornalista. Nasceu em Brasília, colaborou com entrevistas e resenhas para a Verbo21.


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