
Ensaio
A renovação da força simbólica e do imaginário poético
Por Jordeanes do Nascimento Araújo*
e
J.J. César de Araújo**
1. Canibalescos, Entediados e Eufóricos : o novo como agonia inevitável.
A literatura é marcada por rupturas extremas.Procurar entende-las é traduzir partes da cocha de retalhos que somos. Primeiro, em se tratando de Literatura brasileira, sempre estivemos de certa forma atraídos pelas angustias de outros espaços. A literatura latino-americana viveu desde sua origem o desejo de construir uma identidade, alimentada pelas insatisfações e pelo conjunto de contradições que se construíram na colonização e se multiplicaram no tempo e no espaço. Nesta fase transparece nossa vontade Canibalesca de comer, digerir e depois arrotar aquilo que compreendíamos dos movimentos literários. Assim os movimentos literários iniciados na Europa, tiveram aqui outra roupagem, outros conjuntos de valores, outros motivos e, sobretudo outra significação.
O Século XlX trouxe consigo a maturidade definitiva na literatura latino– americana, marcado pelo gradual desenvolvimento das tendências românticas e realistas e a brilhante explosão final do modernismo. A instabilidade política que se seguiu a conquista da independência favoreceu a rápida difusão, nos meios intelectuais dos ideais de liberdade e de renovação própria do romantismo, caracterizado no âmbito latino –americano, por sua idealizada exaltação do índio e pelas diferenças temáticas nacionalistas. O romance apresentou grande diversidade, embora tenha se centrado na recriação histórica e na critica de costumes.
O Romantismo, no Brasil e no restante da América, fez o caminho de ser o primeiro grito de uma literatura usando moldes estrangeiros e, conseguiu falar da cor local e por outro lado como amadurecimento para uma consciência nacional e a de uma referencia possível que indique uma alternativa, uma identidade frente à Europa. No Brasil, tal movimento, abre novas perspectivas, nova visão do passado, da nossa formação , da nossa passagem e principalmente da nossa realidade. Esse sentimento se reveste assim no presente que é tomado nos seus aspectos sociais e políticos defendidos ou combatidos sob o apanágio dos direitos do homem livre .Tudo isso porque o caráter combativo do romantismo batia de frente com uma característica brasileira e americana: real fato de termos escravos negros ou índios sendo molas mestras da economia e da vida social, que agora deveriam ser repensados como homens livres. Bernardo Guimarães na prosa e Castro Alves na poesia , dão conta desse ideário anti- escravista aqui no Brasil .
Na América Latina , o movimento romântico contou com as influencias européias múltiplas e simultâneas sobre a nossa sensibilidade e nossos ideais patrióticos , de liberdade e de afirmação política as sugestões de um Almeida Garret no Brasil e a inegável influencia de Byron , Musset, Lamartine, Chateaubriand,Goethe no restante da América comprovam tal fato. Mas, o afastamento dessas matrizes serão a tentativa de pintura da realidade local e a reafirmação dos ideais e das imagens do homem americano.Assim, ao mesmo tempo que dependíamos da temática romântica européia, fomos aos poucos nos afirmando como literatura nacional e pintando com corres românticas as florestas e os homens dos trópicos.
Entediados e cansados precisávamos de construções literária mais profundas, que estivessem mais apegadas ao real. Um escritura que saíssem, necessariamente, das nossas mãos nervosas das quais escorregava o fluido racionalista, explicando com respostas humanas, a realidade o ser e a existência. O Realismo/ naturalismo traz de volta nossos fantasmas. As alucinações de um homem que ao final de uma grande procura, encontrar o tédio. E ‘’a noite dissolve os homens ‘’. O silêncio (grito de angustia que todos víamos mas não queríamos ver) invade. O medo é mais forte que a esperança, a burqa está posta sobre nossos corpos e sobre a cabeça de todos e a nossa visão é impedida por deu véu negro e misterioso que fazemos questão de colocar no rosto.
Os movimentos de Vanguarda e o Modernismo rompem os véus, retiram a burqa, e preenche com sons estrondosos os mosteiros. A vida renasce brilhante.Experimentar é nosso único desejo. Inicia-se a Euforia. Caravelas literárias rasgam mares.Novos povos, nova gente, novo ouro.Mais lenha nos fornos que fazem girar as engrenagens do mundo.As caravelas são substituídas por motores, os teares por maquinas a vapor.Congregam forças e sobra produção. A arte não diz mais nada. Há um novo cheiro no ar.
2. Renovação e travessia: A contemporaneidade enquanto esgotamento na reavaliação da força simbólica da modernidade – olhos nos olhos de Maria Adélia Menegazzo na busca de reencontrar o imaginário das coisas e do mundo material.
A poesia contemporânea analisada segundo a ótica da evolução temporal e sob o signo da modernidade diante da evidencia da transição em Menegazzo, apresenta traços sempre envidáveis mais marcados pelos ‘’ismos’’ europeus e pelas teorias do pós-moderno. Menegazzo descreve a evolução poética através da evolução da representação. Segundo a autora, Walter Benjamim ao analisar a formas de representação da fotografia e a invenção da Art pop já deu notáveis indicações sobre o que se tornaria a representação do século XX, uma profunda instataneidade da Arte. A poesia, assim como todas as formas de representação, parecem viver um esgotamento discursivo, e tudo encaminha-se para a instataneidade e descartez da palavra e a adoção da imagem, do signo, do ícone como forma mais autentica e profunda de expressão de um homem que viver a reprodutividade técnica, e a urgência de sempre novos e inolvidáveis paradigmas, que devem sempre está em processos constantes de mutação.
Porém, Menegazzo não deixa de assinalar que a Arte pós- moderna não recusou ou destruiu as formas de representação que a antecederam, mas as utilizou de modo subvertido, deu-lhes nova roupagem, novo rosto, nova cor. Ela afirma:
‘’ A construção poética da poética pós - modernista se dá conforme Lyortard, pela ausência de concretude e de sentido unificado. Assim, a indeterminação permeia todo tipo de discurso reforçando a ambigüidade e a fragmentação de suas formas. Se não é mais possível identificar com precisão o que apresentado pelo discurso artístico isso se deve ao fato de que os descentramentos provocado pela Arte contemporânea atingiram seu objetivo: não é uma arte para representar o escritor e o artista plástico, constroem seus discursos a partir de recortes do já representado, acentuando o relativismo e provissoriedade das imagens. ‘’( p.68)
A Arte Contemporânea (e por que não dizer pós- moderna) apresentada segundo os olhares de Menegazzo apresenta-se recortada e multifacetada em vários recortes e também em diversas e surpreendentes formas de representar a ‘’eu – artístico’’. A Ironia,o Jogo, os Olhares prismáticos, O narrador dobradiça , Possibilidades praticas, O olhar dos bichos, O olhar fraudado, O outro olho, Olhos de Luz azul, A leitura do outro olhar, O olho de outro, O avesso do olhar , O olhar côncavo,Pelo rabo do olho, As camadas no olho do tempo,Aqui ninguém me ver, Onde é aqui, O viés do Olhar, são as diversas formas de representar da Arte moderna que construíram um mosaico de difícil entendimento. E preciso está atento as estas formas de representação para compreender o que elas em conjunto ou isoladamente buscam dizer.
Em nosso (restrito) entendimento o descentralização do ponto de vista e sua conseqüente multiplicação e simultaneidade do mundo contemporâneo provocam no olhar artístico uma serie de distorções em relação a imagem e ao mundo percebido em sua volta. É a percepção de um mundo veloz, fragmentado mas que deve guarda aqui e ali lapsos da infância, do imaginário, do fantástico, do sonho , da utopia n que elimina com freqüência as fronteiras entre o real e o ideal. Tudo no mundo passa ser uma grande imagem de vários pedaços e cores que deve ser consumida, com ou sem auto- reflexividade, e a intextualidade da intextualidade, a literatividade da multiplicação e interpenetração de tempo/ espaço/ discurso e visões: a urgência de produzir sempre como forma de torna tudo obsoleto, superado. É neste espírito de lucidez e perda que alguns autores encontram os objetos como forma de explicação da vida e da arte.
* Jordeanes do Nascimento Araújo é sociólogo, pesquisador de cultura oral , co-autor do livro Simbolismo e imaginário um olhar para a cultura no vale do Juruá (editora Valer 2006/2007). E- mail cassy_jonesaraujo@hotmail.com
** José Júlio César do N. Araújo é graduado em Letras, pós – graduado em Gestão Educacional, aluno do curso de Economia –UFAC, professor da rede estadual de ensino do Acre e do Amazonas, Coord. dos cursos de Pós- graduação FARO/ Cruzeiro do Sul –AC e autor do livro O homem Falando no Escuro e Simbolismo e imaginário ( Editora Valer / Manaus,2006/2007 ). Endereço para correspondências - Tv. da Amizade,191 QD.302- Floreta – Cruzeiro do Sul – ACRE- CEP.69980-000. E-mail: amadeus13julio@gmail.com
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| Maiesse Gramacho é fotógrafa e jornalista. Nasceu em Brasília, colaborou com entrevistas e resenhas para a Verbo21. |
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