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Entrevista
Toninho Vaz
por Lima Trindade
Foto: Lima Trindade

TONINHO VAZ é jornalista e roteirista de televisão. Escreveu três importantíssimas biografias: as de Paulo Leminski, Torquato Neto e Darcy Ribeiro. Começou escrevendo no Diário do Paraná em 1969. Nos anos 70 e 80, editou e colaborou com diversos jornais alternativos como Pasquim, Anexo, Raposa, Nicolau. Trabalhou também como editor de texto na Rede Globo por 14 anos. Atualmente, colabora no blog do cartunista SOLDA, amigo e conterrâneo curitibano, e prepara 3 livros a respeito do Grupo Severiano Ribeiro, detentor da maior rede de cinemas brasileiros.

Lima Trindade – Leminski, Torquato, Darcy Ribeiro, Sta. Edwiges e, agora, Severiano Ribeiro. Há um motivo especial para o seu interesse em biografias? Há um traço comum nos seus biografados? Como pintou esse lance?

Toninho Vaz – Sempre considerei o trabalho com biografias uma conseqüência do jornalismo investigativo. Cada biografia é uma grande reportagem. Procuro escolher personagens interessantes que tenham algo de positivo e uma boa conduta ética, mesmo que pelo avesso, como são os poetas malditos. De alguma forma, eles são modelos raros de pessoas. Alguns deles me escolheram, indiretamente, como o Leminski e o Darcy, meus amigos particulares. No caso da St. Edwiges foi um convite da editora Objetiva, que tinha uma coleção em andamento e me permitiu escolher o santo. O Severiano Ribeiro é um caso especial, pois fui contratado para escrever um livro que se desmembrou em três, incluindo a Atlântida e as chanchadas, empresas de Luiz Severiano Ribeiro Júnior. Todos meus personagens têm uma medida de herói e outra de bandido.

LT – É esta medida de ambigüidade, em forma de pergunta, que te move a iniciar um projeto? Como aconteceu de o Leminski te escolher para biografá-lo, foi algo que te marcou?

TV – Na verdade, o sentido é figurado, pois foi uma sugestão da Alice Ruiz, a poeta que foi casada com Leminski por 19 anos. Ela me fez o convite que desde o inicio foi irrecusável, pois tudo se encaixava. O Leminski já tinha falecido e eu era a pessoa mais indicada para fazer este trabalho, que me ocupou por mais de dois anos, entre pesquisa e escrita.

LT – Como você se sente em relação aos sonhos alimentados por sua geração, ao se deparar com políticos como Serra, Fernando Henrique e Lula? Acredita que as condições do país antes e depois do golpe militar melhoraram ou pioraram?

TV – O Brasil está evoluindo, é claro! Os erros permitem a evolução. Quando terminou a ditadura, com a abertura do Geisel, todos sabíamos que 20 anos sem a prática política da democracia, poderia fazer a máquina emperrar e os equívocos surgirem. Resultou na eleição de Fernando Collor que levou o país para uma aventura. O PT nos enganou e sua integridade e pureza eram de fachada. O Serra e o FH eram previsíveis e, portanto, menos enganadores. Caiu o manto que cobria estas instituições, revelando a baixeza da nossa prática política, via Congresso Nacional e a onda de corrupção que parece não ter fim. Hoje, política é sinônimo de corrupção. Portanto, temos muito que aprender. Eu continuo trabalhando de maneira independente e sem nenhum vínculo partidário, infelizmente.

LT – E a Arte? A transgressão se banalizou ou apenas mudou de endereço?

TV – A cultura de massa tem o poder de gerar mediocridades. Como diz a teoria da comunicação: para um grande auditório, um baixo repertório – e vice-versa. Hoje, sim, temos uma grande geléia geral, proporcionando um desconforto ético e estético de ruborizar Torquato Neto. Via internet. O mercado nunca falou tão alto enquanto mercado; todos querem dinheiro e são candidatos a Big Brother em potencial.

LT – Mas vc não acha que nossas elites intelectuais têm uma parcela de culpa nisso, ao ignorar a linguagem da cultura de massa e não ressignificá-la? A aproximação de Leminski com a propaganda e a música popular não gerou muita crítica dos grupos mais conservadores?

TV – Bem, digamos que as elites sempre foram destemperadas com relação à cultura; eles compram livros para decorar as prateleiras e a mesinha de centro. Não temos patrocinadores nacionais ou mantenedores suficientes para sustentar, por exemplo, o nosso Museu de Arte Moderna, o MAM. Você já viu postura mais pobre e mesquinha? Neste sentido, os empresários e as instituições norte-americanas chegam a nos humilhar.

LT – Qual a dimensão de Leminski hoje? Acredita que sua força verbal se mantém intacta?

TV – Eu posso garantir que o poder da poesia de Paulo Leminski é bastante significativo e vem crescendo nos últimos anos. Não se trata de nenhum fenômeno de popularidade, mas da perseverança da palavra certa. Tenho feito palestras pelo interior do Brasil sempre lotadas, um interior que apenas agora parece descobrir a sua obra, que se mantêm de maneira irregular nas prateleiras das livrarias. A biografia que escrevi – O bandido que sabia latim – está indo para a 3ª. edição e a comunidade Paulo Leminski no Orkut tem quase 20 mil participantes. E as teses se sucedem.

LT – Acha que ele deixou herdeiros? Conhece poetas contemporâneos que aliem tradição e invenção à militância literária e artística?

TV – Se existe eu não fui apresentado. Conheço e admiro alguns poetas novos, mas comparar suas performances a esta entrega absoluta que poetas da estirpe de Leminski e Torquato fizeram, para citar apenas estes dois, vai uma grande diferença. Os tempos não são heróicos, pelo contrário, sobre a cabeça de todos paira uma nuvem de suspeita. Mesmo que estejamos falando apenas de poesia.

LT – Seria uma suspeita de ordem ideológica?

TV – Certamente. Ou não existe diferença entre Paulo Leminski, Mario Quintana e Patativa do Assaré, por um lado, e Afonso de Romano Santanna e José Sarney, também poetas, de outro?

LT – Consideraria que sobram escritores e faltam intelectuais ou, sim, que não há é espaço de visibilidade para pessoas que pensam as novas realidades do país e do mundo?

TV – Existem mais escritores do que intelectuais, certamente. As oportunidades existem, mas nunca elas estiveram tão associadas ao fator reality show, mesmo na literatura. Na música esta prática está consagrada pelos programas do tipo American Idol ou Fama. O mercado sabe que as músicas que tocam nas rádios são embaladas por jabás, propinas, verbas destinadas a comprar espaço na programação e na lista das 10 mais. Podemos chamar isso de visibilidade, ainda que de forma precária.

LT – Você trabalhou um bom tempo na Tv Globo. Como foi essa experiência. Você gozava de liberdade para criar e ditar seus próprios rumos ou as coisas eram definidas de antemão?

TV – Eu tive a sorte de participar da fase criativa da TV Globo, no início dos anos 80, quando cada edição do Globo Esporte, por exemplo, era uma aventura de formas e conteúdo. Estes experimentos só eram possíveis na linguagem esportiva, jamais na editoria de política ou economia. Posso dizer, sim, que gozávamos de liberdade para criar e criamos. Depois, quando o romantismo acabou, tudo se burocratizou, pois o esporte passou a ser o único segmento do jornalismo que dá dinheiro direto, sem merchandising embutido.

LT – Qual a lembrança que guarda de Ayrton Senna? Ele tinha consciência do uso que faziam da imagem dele como modelo de um vencedor ou estava alheio a isso?

TV – Ele era um sujeito especial e tinha consciência desta condição. Era, assim como o Pelé, um raro talento para o esporte competitivo. Quando me perguntam se ele era gay, eu costumo dizer que não era – mas estou convencido de que ele gostava mais de carros do que de sexo.

LT – E seu convívio com Darcy? Ele era ainda um homem otimista em relação ao futuro do país e de nossa política, mesmo no final da vida, quando a doença já o consumira?

TV – Darcy era amigo da minha família e um sujeito admirável. Tenho boas recordações dele e de sua autêntica vontade de viver e criar em nome do Brasil. As idéias do Imperador, como se auto proclamava, deveriam ter sido melhores aproveitadas para o fortalecimento das nossas instituições, principalmente na questão da educação. Seu modelo de escola pública integral – os Cieps – ainda me parece a melhor proposta para cumprir a obrigação constitucional do governo de dar escola gratuita e tirar as crianças da rua, numa só cajadada.

LT – A que você credita o pouco caso que o país dá à educação? Falta de vontade política ou mau caratismo mesmo?

TV – Os políticos e governantes têm comportamento de bandidos quando o assunto é educação. Falta de vontade política, neste caso, é atitude criminosa. Depois os bacanas da classe média ou mesmo da elite se perguntam e se escandalizam com o cerco que sofrem das glebas em revolta. E gastam um volume fabuloso de dinheiro com segurança, mas pouco fazem para mudar esta realidade...

LT – Tenho a impressão de que a biografia do Torquato Neto foi o seu trabalho mais difícil de realizar. Você enfrentou muitos problemas para colher os depoimentos? Há fatos que deixou de abordar por não receber autorização das fontes para a publicação?

TV – Eu tive problemas com alguns amigos do Torquato, que não quiseram dar seus depoimentos. Isto aconteceu com Wally Salomão (que morreu logo depois) e Dedé Gadelha, na época casada com Caetano Veloso. A viúva do poeta, que no início estava colaborando nas pesquisas, no final tornou-se inimiga e ameaçou a editora Record com um processo por danos morais caso o livro fosse editado. Eu fui obrigado a trocar de editora, depois de oito meses de negociação, por não aceitar restrições ao conteúdo. O livro saiu sem cortes por uma editora menor, a Casa Amarela, de São Paulo, que publica a revista Caros Amigos. O trecho polêmico e condenado fala da bissexualidade do poeta.

LT - Uma das razões do suicídio dele poderia ter resultado da repressão de sua sexualidade?

TV – Não diretamente, mas como conseqüência sim, acredito. Ele tinha um diagnóstico médico que o qualificava como esquizofrênico, mas certamente sua comprovada bissexualidade foi durante anos reprimida e tornou-se desconfortável.

LT – E no final, sentiu-se satisfeito com o resultado? Acredita que foi possível decifrar o enigma do homem e do poeta?

TV – O Torquato era uma personalidade complexa e acredito ter desvendado isso para o meu leitor. Mas, certamente, não o assunto não foi esgotado, pois como diz o sábio a respeito do jade de três faces: existe a minha opinião, a sua e a verdadeira.

LT – Fale do seu último projeto. De que modo Severiano Ribeiro contribuiu para o difusão do cinema no Brasil?

TV – Os adversários dizem que Severiano Ribeiro não contribuiu para a difusão do cinema no Brasil. De um modo geral, estou convencido de que a crítica foi injusta com ele, que sofreu a ação da censura e era confundido com Primo Carbonari, que também mantinha um jornal nas telas e era porta-voz voluntário dos governos militares depois do golpe de 64. Severiano Ribeiro era um empresário preocupado em multiplicar seus lucros – e este era seu único defeito. Quando morreu, em 71, tinha mais de 50 cinemas no país. Seu filho e seguidor, Ribeiro Jr., deixou mais de 70 cinemas. Atualmente, o herdeiro Severiano Ribeiro Neto está à frente de uma cadeia de 209 cinemas em vários estados. O livro conta a historia desta obstinação.

LT – Você traça um paralelo do auge das casas de cinemas de outrora e as atuais salas de projeção, instaladas em shopping centers?

TV – Sim, o livro conta 90 anos de história de Severiano Ribeiro, uma dinastia de pai para filho. Começa com o primeiro cinema, em Fortaleza, na época do cinema mudo, e termina nos dias de hoje com a geração multiplex. Eles sempre foram uma potencia no setor de exibição, e ainda hoje mantêm a segunda maior rede do Brasil, com 209 cinemas funcionando em vários estados. A primeira rede é a americana Artplex.

LT – Afora o trabalho de repórter investigativo, publicou também ficção?

TV – Eu escrevi alguma ficção, mas publiquei apenas uma vez, numa antologia de jornalistas que fazem literatura. Publiquei um conto que escrevi depois de uma visita a Budapeste, em 1986. Tenho poemas publicados em vários suplementos literários e atualmente escrevo com regularidade para o blog do cartunista Solda, de Curitiba:

www.cartunistasolda.blogspot.com

 

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