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Colunas: KAOS KAPITAL
Também tô querendo
por Alex Cojorian

 

Com certeza. É só ir folheando os jornais, bisbilhotando os canais e os portais de notícias que a constatação vai surgir natural: tá todo mundo querendo, e nós também.
O dólar baixou, o governo mandou subir. Particular tá faturando um pouquinho em aplicação miúda, o Banco Central já logo não gosta. CPMF vai acabar, a situação manda prorrogar – a oposição é contra, mas na verdade é contra a situação, e não contra a CPMF, e certamente nunca a favor de nós.

Perguntareis vós, aflitos leitores: nós quem, cara-pálida? Nós, muito pedestremente, significa só isso que se lê: nós mesmos, cidadãos simples, nós mesmos, os que povoamos as cidades e os campos, mas que só contamos com a gente mesmo, nós mesmos, os que não somos exportadores, os que não mandamos no governo, nem que vivemos de renda. Ou seja: quase todo mundo nesta terrinha do Brasil.

Dito isto, volto ao meu dia-a-dia: pior do que ler essas coisas no jornal é ver-me e a meus pares – em quem, claro, me espelho – tendo já cruzado o meio do caminho desta vida, como obliquamente gostava de dizer Dante (estimam que o fenômeno sucede aos 35...) ou tendo já dobrado o cabo da Boa Esperança, como mais lusitanamente preferem outros, com a clara consciência aflorando o óbvio das nossas angústias terrenais: ninguém ainda brilhou a estrela, nem rachou de ganhar dinheiro (só de cortar lenha...), nem já é tão saudável quanto outrora, e já estamos começando a desconfiar das nossas esperanças de achar um lugar digno ao sol, ou à sombra, conforme a conveniência.

Falo assim, meio tergiversando, porque a nossa sina é mesmo tragicômica – a pequenez dos nossos sonhos de aburguesamento tranqüilo convergindo nas idéias mais mirabolantes: uns entendendo de aprender a aplicar em ações, fazer fortuna na bolsa de valores, outros de comprar terras em cooperativa para plantar madeira, outros tantos de ganhar na mega-sena, ou ainda de faturar editais governamentais de milhares de petrodólares para fazer ecologia e cinema com cacife, até chegarmos àqueles pobres-diabos que vêem a tábua de salvação da existência boiando num dos milhares de cursos de direito que pululam pelo país. Enfim, seja lá como for, furar esse bloqueio aristocrático impermeável ao comum das gentes.

Foi-se já o tempo em que, instaurada a República, continuaram a transitar despudorada e pomposamente muitos barões, condes, viscondes, marqueses, pela nova democracia antecedidos por seus títulos, sem que lhes rolassem as cabeças. Decorrido um século e tanto, perdura ainda o vaticínio inevitável do príncipe Salinas: “no futuro tudo será igual, só que pior”. Ou aquele outro, mais a la Voltaire: democracia é igualdade para os iguais – riqueza para os ricos, pobreza para os pobres.

Chamai como melhor vos parecerdes, nobres leitores: desejo de aburguesamento, desejo de inclusão, desejo de uma vida menos ordinária, sei lá! Só sei que aquele “também tô querendo” lá de cima ainda não cessou de tilintar nos meus ouvidos...

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Maiesse Gramacho é fotógrafa e jornalista. Nasceu em Brasília, colaborou com entrevistas e resenhas para a Verbo21.



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