
Tribuna
Zezão Pezão*
UM APROVEITADOR DESCARADO
PARTE UM: ANTECEDENTES DO APROVEITADOR
SONETO #1
Pequeno ainda, eu tinha como esporte
fazer outros meninos de cavalo.
Montava-lhes no lombo e, nesse embalo,
curvavam-se à vontade do mais forte.
Um deles, sem amigo que o conforte,
é a vítima ideal: posso tratá-lo
do jeito que quiser. Tudo que falo,
fará, pois seu azar é minha sorte.
Ceguinho ele não era, mas perdeu
a vista há pouco tempo. Mais gostoso
ainda, diante do olho bom, que é meu.
De quatro, ele rebela-se, queixoso,
mas lembra que é Sansão, e o filisteu
aqui sou eu: importa só o meu gozo.
SONETO #2
De corpo, ele era até maior, e tinha
mais peso que meu físico franzino.
Mas cego apanha fácil, e o menino
levava soco, chute e "paulistinha".
Cansei de cavalgar. Ele engatinha,
agora, à roda, enquanto disciplino
seu lombo com um látego bem fino,
que não viu mão mais hábil do que a minha.
Já pronto a ajoelhar, fica defronte
à rola que lhe empurro boca adentro.
Ou chupa, ou toma o tapa que o amedronte.
Se a língua não mexer enquanto eu entro
e saio, "Vai comer", lhe digo, "um monte!"
Se empenha ele, e no orgasmo me concentro.
SONETO #3
Mudei-me do subúrbio e, duma casa
para um apartamento, em cujo prédio
não faltam chances para um bom assédio
a alguma menininha que me apraza.
Aquela que namora uma "rapaza"
ficou marcada, e a turma mata o tédio
pegando-a. Meu pau ela pega e mede-o,
centímetro a centímetro, hirto, em brasa.
Um dia, a surpreendemos no terraço,
transando com a outra: ou ela dava
pra todos nós, ou deda-se... e um abraço!
Assim, nas duas demos foda brava!
De xota enchi-me! Enfim, perdi o cabaço!
Eis como um molecote se deprava!
SONETO #4
Da lésbica a família se mudou,
mas uma solteirona, da janela,
me vê bater punhetas loucas. Ela
também vai fazer parte do meu show.
Sorrio. Ela me acena, chama. Vou
ao seu apê, mostrar que um magricela
tem fogo e autoridade. Ela me fela
na marra: vai saber quem é que eu sou!
Enquanto meu bimbão lhe cala a voz,
pergunto: "Que tal, tia? Gosta disso?"
E logo imponho um código entre nós:
Eu mando, ela obedece. Só lhe piço
a xota após chupado. Sempre a sós
nos vemos, e ela é grata ao meu chouriço.
SONETO #5
Assim funciona: quando eu quero, ligo,
e a dona solteirona me recebe.
Eu tomo seu conhaque. Ela não bebe,
exceto suco e porra. Entro e já digo:
"Me tira o tênis! Fica de castigo
aí, cheirando a meia!" Ela percebe
que a classe média está servindo à plebe:
"Se não me obedecer, vai ver comigo!"
Depois que se humilhou, deixo que meta
na boca a rola suja. Então decido
se gozo-lhe na língua ou na buceta.
Jamais no prédio alguém tinha comido
aquela dona como este capeta!
Já lava até meu tênis encardido!
SONETO #6
Um dia, entediado, variei,
levando dois amigos ao apê
da dona, de surpresa. Ela nem crê
naquilo que está havendo. Aí, falei:
"Você vai dar pro Bruno e o Claudinei
enquanto eu fico olhando! Ai de você
se não colaborar! Faço um auê
danado!" E uma vez mais ditei a lei.
Os dois fizeram dela uma cachorra:
foi posta de gatinhas, enrabada,
fodida em sanduíche... E tome porra!
Até documentei a surubada
filmando no aparelho! Quem percorra
a rede virtual não perde nada!
SONETO #7
Mudou-se, também. Fico sem a escrava.
Fazer o quê? Desconto e vandalizo
o muro, o elevador... "Não tem juízo?
Moleque sem-vergonha!" A bronca é brava.
Quem fala é o zelador, mas eu estava
na minha: "Cala a boca! Só lhe aviso
que aqui sou seu patrão! Ainda piso
na sua boca!" E foi mandado à fava.
Jogando-lhe na cara o que eu sabia
de podre a seu respeito, ele se dobra:
"Você ganhou! Você manda, chefia!"
E teve que provar: se fez de cobra
e fiz que rastejasse. A serventia
da língua é minha bota: mãos à obra!
SONETO #8
Primeiro, ele hesitou: "Não! Isso não!
Não lambo essa botina! Tenha dó!"
"Não lambe? É bom lamber, ou vai ver só!
Se o síndico souber, é demissão!"
Só falta ele chorar! Meus pés estão
bem perto do seu rosto. Vendo o pó
do couro, ele recua. "Vai, bocó!
Engraxa a bota! E sirva de lição!"
Enfim a língua sórdida se espicha
e molha a superfície do calçado.
Poeira grossa adere àquela lixa.
De nada adiantou ter se humilhado,
pois foi mandado embora: sua ficha
sujou, mas nada sobra pro meu lado.
SONETO #9
Cresci, mas continuo magro e fraco.
Na mente é que, porém, a gente é forte,
além da pica dura. Minha sorte
é tanta, que não falta-lhe buraco.
Agora é uma casada em quem eu taco
cacete: seu marido tem um porte
de atleta, mas na mão deixa a consorte
fogosa, e ela me acossa, me enche o saco.
Pois sabem o que armou a bela dama?
deixou que no flagrante ele pegasse
nós dois em plena foda! Explico a trama:
Sacando que ele é frouxo, em sua face
joguei a condição: ou ele mama
meu pau e é corno manso, ou perde a classe.
SONETO #10
Temendo algum escândalo, ele topa
o chifre e até se assume como bicha:
dou logo foda em ambos, e a salsicha
de porra as bocas, cus e xota ensopa.
Percebo que ela bebe e ele se dopa,
mas pouco estou ligando: ele capricha
se mando me chupar, e a gala esguicha
na buça, onde há lugar para uma tropa.
Assim, gigolotando, levo a vida
até que novo ofício me apareça.
Quem olha o meu jeitão, até duvida.
Magrelo, pé maior do que a cabeça,
nariz e orelhas grandes... mas comida
não falta, nem que um cego me ofereça...
(*) A obra "Um aproveitador descarado", completada em março de 2007,
combina ficção com poesia e poderia ser qualificada de "mininovela em
sonetos". Quanto ao lado ficcional, baseia-se parcialmente em fatos
verídicos obtidos de várias fontes ou vivenciados por mais de dois
depoentes, sendo o relato, portanto, menos fantasioso do que se suponha.
Quanto ao lado poético, a forma fixa e rigorosa do soneto ganha ritmo
cinematográfico na seqüência narrativa, perdendo assim aquele caráter
lírico ou idílico que o poema de catorze versos costumava apresentar,
desde o classicismo até o parnasianismo. O resultado é uma espécie de
tragicomédia folhetinesca dividida em três partes, sendo a segunda
composta de vinte sonetos e as outras duas de dez cada, perfazendo um
retrospecto de cunho autobiográfico. O protagonista Zezão tipifica um
jovem mulato suburbano que, órfão de mãe e abandonado pelo pai,
sobrevive às custas daqueles que o "adotam": solteironas de classe
média, namoradas descartáveis, casais promíscuos, homossexuais, e até
deficientes físicos, um dos quais (cego, aposentado e solitário)
desempenha papel de verdadeiro escravo do aproveitador, para quem
trabalha como pedinte em público e como massagista particular. Após
ascender socialmente a serviço de políticos corruptos, Zezão decai e
regride à condição de subempregado que se deixa aliciar pelo crime
organizado, assumindo enfim sua marginalidade e sua falta de escrúpulos.
O personagem não chega a performar o clássico herói picaresco, mas reúne
traços dos anti-heróis "sem nenhum caráter", como Macunaíma, e dos
eternos vilões aventureiros do imaginário popular, desde o Pedro das
"malas artes" (artes más, literalmente) até os bandidos rurais ou
urbanos de Guimarães Rosa, Rubem Fonseca ou José Louzeiro, passando pelo
sádico Lampião folclorizado pelos cordelistas nordestinos. Se Zezão é
politicamente incorreto demais para um mero "pé-de-chinelo", tal detalhe
apenas ajusta o malandro romântico à realidade contemporânea: o que o
marca é aquela carência afetiva que se esconde por trás da índole
impiedosa dos gigolôs nas literaturas de todas as épocas. Quanto à
autoria, sob o pseudônimo de Zezão Pezão oculta-se a real personalidade
do sujeito que, em primeira ou terceira pessoa, figura em vários poemas
de Glauco Mattoso, tais como as décimas que compõem a "Peleja do
Ceguinho Glauco com Zezão Pezão" (editada em folheto de cordel) ou o
ciclo de sonetos "geométricos" composto pelos de número 290, 292, 294 e
296, intitulados, respectivamente, "Triangular", "Quadrangular",
"Circular" e "Retangular", que aparecem no livro "Geléia de rococó:
sonetos barrocos".
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