
Tribuna
Tom
O meu nome é Amirton Alves dos Santos, nascido em Frei Gaspar-MG. Assino meus livros somente com Tom. Os poemas aqui publicados integram o livro “Identidade Solitária”. Escrevo há aproximadamente 30 anos , mas somente agora decidi publicar meus escritos.
DEUS É GAY –
Deus chama-se Rimbaud e se mandou pra Abissínia.
Deus chama-se Pasolini e morreu a pauladas.
Deus chama-se Andy Warhol e seu anjo, Joe Dalessandro.
Deus chama-se Tenesse e viaja nUm Bonde Chamado Desejo.
Deus chama-se Caio Fernando e foi pro céu cultivar Morangos Mofados.
Deus faz filme pornô e se diverte.
Deus é um tesão.
Judas é namorado de Deus e Madalena, sua puta amante!
Deus beija-me com hálito de vinho e sangue.
Deus canta em inglês e italiano e de vez em quando em Russo.
Deus é michê após as três da madrugada.
Deus dá duro pra sobreviver.
Deus é Leonardo e pinta Lisa, a Mona dissimulada.
Deus amanhece de ressaca comigo.
Deus é masoquista, lava-pés e morre crucificado.
Deus apanha como um condenado.
Deus abençoa os beijos de Davi e Jônatas.
Deus é míope, usa óculos, mas enxerga muito bem.
Deus é transformista.
Deus goza em nimbos e cirros.
Os trovões são gemidos de prazer de Deus.
Deus oferece a face para beijos e bofetadas.
Eu como do corpo de Deus.
Deus é Lês.
Deus tem cara de Sal Mineo.
Deus chama-se James Dean e morreu num acidente de automóvel.
Deus chama-se Greta garbo e quer ficar sozinho.
Deus beija de língua.
Deus convidou Leonard Bernstein para compor uma sinfonia.
Deus é um suculento Mapplethorpe de chifres.
Mas Deus não é torpe.
Deus é fashion.
Deus é drag.
Deus é king.
POEMA COMO MOTE PARA A SOLIDÃO SEM FIM
Os tubarões andam se alimentando de surfistas.
Aquele navio asiático permanece ancorado
com porões cheios de carne estragada.
Tenho medo, mamãe, do Canibal de Milwaulkee.
Tenho medo do assassino que mata casais na praia.
Tenho medo de ser torturado por policiais por causa do beijo que dou em meu namorado – cobram caro pelo flagrante de um abraço.
Não temos glória, mamãe.
Só uma luta infinda.
Pedradas, imprecações!
Eles não nos aceitam, mamãe!
Só suportam nossas cores,
nossas gargalhadas,
nossos falsos decotes,
nossos quadris,
peitos e bundas
de silicone e anabolizantes.
Mas somos mais desaforados que eles, mamãe.
Porque não podem nos eliminar a todos.
PRIMAVERA DE EDUARDO
“(...) todo anjo é terrível” – Rilke
No mês de setembro,
Juliano,
que prefere ser chamado de Eduardo,
transou com
um motorista de táxi,
um vendedor de crack,
um bêbado,
um cantor decadente,
um trocador de ônibus,
um pedreiro,
um feirante
e um vigia de prédio.
Nenhum deles
foi ao seu enterro,
mas
inexplicavelmente
seu túmulo permanece florido.
No mês de setembro...
TREZENTAS MANHÃS
Naquela manhã
Ele acordara em silêncio.
Sequer fizera
As brincadeiras de costume
Como perguntar
Se deveria ou não
Permanecer de barbas.
Naquela manhã
Ele era o silêncio
Instalando-se em pânico.
Vestira a camisa,
Colocara a jaqueta
- porque fazia frio –
e antes de abrir a porta
dissera que não mais voltaria.
Então permaneci trancado
Do lado de dentro
Durante três semanas,
Três meses,
Três séculos.
Fiquei trancado trezentas manhãs.
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