
Colunas: CINEMA RISCADO
Chanchadeiro, sim! E daí?
por Renato Cunha
Outro dia precisei ir aos dicionários para ver as definições de chanchada. Na pele de cineasta e apreciador do cinema brasileiro, desanimei. Acho até que me irritei. Mas, na de pesquisador, pude compreendê-las, observando que o rótulo de processos histórico-culturais, não raro, é negócio difícil de ser descolado.
O Aurélio diz: “1. Peça ou filme sem valor, em que predominam os recursos cediços, as graças vulgares ou a pornografia; 2. Qualquer espetáculo de pouco ou nenhum valor”.
Já o Houaiss vai um pouco mais adiante: “1. Teatro: espetáculo popularesco de baixa qualidade conceptual, formal e cultural, geralmente mesclando música e humor; 2. Cinema, televisão: espetáculo ou filme em que predomina um humor ingênuo, burlesco, de caráter popular; 3. Cinema, televisão (uso pejorativo): filme cinematográfico ou programa televisivo de baixa ou má qualidade”.
Cá entre nós, será que cabe considerar tais conceitos para se entender o que foi e o que significou o gênero chanchada para o cinema brasileiro? Sugestiva de paradoxo, minha resposta é, ao mesmo tempo, sim e não.
Essa contradição, contudo, deve ficar apenas na aparência, porque, ao se dizer sim, coloca-se em primeiro plano o discurso, quase geral, da crítica da época, que se deleitava com farta e depreciativa adjetivação para classificar o gênero. A bem da verdade, essas fitas de comédia somente se tornaram sinônimo de infâmia e vulgaridade para um seleto grupo pequeno-burguês, visto que para boa parte da população era entretenimento, era cultura.
E o não? Ora, esse soa óbvio por ficar evidente, nos mesmos dicionários consultados, a falta de uma acepção que, pelo menos, assinalasse a origem de uma corrente estética na cinematografia brasileira. Para quem se interessar, vale buscar os verbetes de neo-realismo, futurismo, dadaísmo e outros ismos mais, que provavelmente gozam de prestígio por serem reconhecidos como movimento intelectual. Talvez fosse preciso neologizar: que tal chanchadismo?
Mas a Chanchada, com cê maiúsculo, habita outras moradas, reside além dos vocabulários. Não é — nem poderia ser — entrada de verbete apenas. É, sim, expressão cultural que mostrou — claro que nas devidas proporções — consciência crítica em relação aos problemas nacionais. Podemos percebê-la como uma crônica carnavalesca que retratou, com ironia pungente, tanto os diversos tipos e fatos populares quanto os caricatos incidentes da alta-roda, principalmente a do Rio de Janeiro. E foi mais. Hoje, enxergamos que foi antropofagização, em forma de paródia, de parte do universo cinematográfico hollywoodiano, demonstrando que não mirava um único alvo.
Outros críticos, pós-Chanchada, no empenho de tachá-la de cinema alienado ou alienante, ou ainda os dois juntos, insistem em sua contraposição ao Cinema Novo, apresentando uma fórmula desgastada que já foi vista várias vezes em terrae brasilis, como, por exemplo, no débil episódio musical Tropicalismo versus Jovem Guarda. Eis o recorrente processo de elitização das experiências humanas, em que arautos de uma pretensa intelectualidade tentam erguer muralhas intransponíveis entre as diversas manifestações culturais, trabalho esse que, ao longo da história, vem mantendo firme a linha excludente da política social do país.
Celeumas à parte, o que nunca deveríamos nos esquecer é da importante contribuição da Chanchada para a formação do cinema brasileiro. Por isso, em um brasil no qual já fomos chamados de caipiras (e com orgulho!) por um breve presidente, por que também não sermos chamados de chanchadeiros? Seria denominação pra lá de louvável, levando-se em conta a criatividade de uma escola que produziu pérolas como Nem Sansão nem Dalila, Matar ou correr e Este mundo é um pandeiro.
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