verbo21
créditoscontato
seções
selva studio webdesign

Colunas: CRÔNICAS HAVAIANAS
Soltaram a tiras? Corre que são paraguaias
por Eliana Mara


“Se você está na escuridão, experimente apertar o interruptor! Quem sabe não é esse o seu problema! Se mesmo assim, você continuar nas trevas, provavelmente é porque você esqueceu de pagar a conta de luz! Ninguém mandou ser um mão-de-vaca e achar que a companhia elétrica do destino iria ter paciência...”
- Minutos de estupidez: um manual de autodestruição, do Doutor Carneiro, na edição da Ópera Bufa.

Ora, aí está justamente a epígrafe, porque não me ocorreu outra. Não é somente um meio de completar os fatos desta crônica com as idéias que ficarem nebulosas, é também, um par de lunetas para que o leitor penetre naquilo que lhe parecer menos claro ou totalmente escuro. Por outro lado, seria de bom proveito que os leitores fossem me ajudando na escrita das crônicas, por uma lei de solidariedade, espécie de troca de serviços, entre o rico produtor de lixo e o incansável catador. O fato é que estou de mal humor, talvez porque tenha usado um par de sapatos chiquérrimos. Esse luxo deixou meu pé em carne viva (o preço da minha deselegância discreta). Minha amiga Nora sempre me avisava: Se os sapatos não couberam quando você os experimentou na loja, jamais irão caber. Obviamente, mais atrasada do que os aviões brasileiros, estou na linha de tiro do editor e preferia escrever um texto depressivo, assumindo meu momento de crise. Muito mais fácil falar das balas perdidas no Rio de Janeiro. Se bem que minha amiga me explicou que não existe bala perdida, existe bala achada. A bala que se aloja num corpo, está alojada e pronto, cumpriu sua função. O problema é de quem errou o alvo e de quem achou a bala. O cara que não foi atingido, ergue as mãos para os céus, se benze e dá graças a Deus.

Falando em Deus, na edição anterior, foi lançado o desafio havaiano e pude comprovar que, de fato, ninguém mais quer saber de comunicação por cartas. Então, parem de reclamar quando o porteiro entrega contas e contas e mais contas e de vez em quando a cartinha do SPC-SERASA. E saiba que cartas têm conteúdo discreto, mas os envelopes do SERASA os porteiros reconhecem e você cai na boca do povo. Cada um, enfim, colhe o que plantou. Bom, isso não funciona sempre. A depender das pragas ou do clima, as vezes o cara planta vento e colhe tempestades. O desafio havaiano recebeu apenas uma correspondência. Estaria tudo certo se nessa correspondência houvesse apenas uma resposta e eu não teria que me preocupar em estabelecer critérios. O fato é que a única carta foi enviada por minha irmã adotiva, que vive uma vida de Macabéa chique em São Paulo. Ela é de Itapetinga, uma uma cidade fantasma, inventada pelos baianos que nasceram na divisa com Minas Gerais e não têm coragem de admitir. Isso tudo porque Nelson Rodrigues disse, repetiu e virou verdade: o mineiro só é solidário no câncer. Mas ao invés de enviar a carta com a sua resposta, pura e simples, ela me mandou duas respostas: a dela e de carona, a resposta de um leitor preguiçoso: seu Silas, que mora no Itaim Paulista, meu bairro natal, que fica no fim da periferia de São Paulo. Lá onde dizem que o Judas perdeu as botas. Confesso que nunca entendi essa história de Judas que perde as botas. E fica aqui proposto, o próximo desafio havaiano. A premiação será muito melhor e muitos dirão que é loucura, mas sou um anjo de obsessão e vou até o fim. Defendo a volta das cartas e pronto. O desafio é me responderem que história é essa de que o Judas perdeu as botas. Enviar a resposta através do método do século XVII, de colocar a resposta num envelope e postar no correio mais próximo. Ao vencedor, nada de batatas, mas as obras completas de Fiodor Dostoiesvski, da Editora Aguilar. Vou logo avisando, a revista Verbo21 ainda não tem patrocínio e isto custa um dinheirão: capa dura, papel bíblia, edição criteriosa e cheia de babadinhos e novinha em folha. Amigos do peito passaram mal quando eu tomei esta decisão. A terapeuta suspendeu a sessão e pediu um calmante. Ninguém sabe o que eu sei: não se faz mais leitores como antigamente. No meu tempo, haveria um congestionamento nas agências de correios. Hoje, alguns lerão este desafio, e com um balançar dos ombros, vão se perguntar: por que esta mulher não simplifica as coisas e aceita logo as respostas por email?

Maricelma, minha irmã, e seu Silas, meu pai, são os ganhadores do primeiro desafio. A resposta da primeira: Deus é fiel porque é vendido há mais de 2000 anos e nunca cobrou direitos. Já a resposta do segundo: -Deus é fiel porque nunca se casou. Ninguém vai me acusar de nepotismo. Os únicos serão os primeiros. Confesso que prefiro a resposta do seu Silas, mas ele afinal deveria ter sido desclassificado porque não enviou a resposta, pessoalmente. Pediu carona na carta de Maricelma. O atenuante é que seu Silas nunca responde a meus emails. Em resumo, os dois receberão apenas um exemplar do livro de Ítalo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno, da Companhia das Letras (que inclusive, propagandas á parte, nos oferece tudo do Italo Calvino). Como farão para dividir o prêmio, eu não sei. Não sou Salomão nem nada e hoje estou com os humores alterados. Cada um puxe o livro para seu lado e resolvam aí em São Paulo como será a partilha. Conforme o combinado, o livro vai para o endereço enviado, Rua Dr Zuquim, s/n, apto. 13, Santana, próximo ao metrô. Antes eu teria receio de enviar o endereço de familiares pela internet, mas não há perigo algum. Ninguém mais envia cartas e seqüestros agora são feitos na rua mesmo. O sujeito vem andando, lá vem bala ou seqüestro.

Bem, estava eu no paraíso das balas achadas, resolvendo problemas pendentes. Estranho ainda tocar essa musiquinha do Rio, com a imagem de Cristo, bem grandão, todo disponível, com os braços abertos sobre a Guanabara. O cara que diz hoje: - Rio, você foi feito pra mim-, pode ser considerado masoquista ou suicida. E já que não devo satisfação a ninguém, também não vou contar o que fui fazer lá. Mas dou o endereço. O hotel onde fiquei fica no Flamengo, na Rua Honório de Barros. E não dou o número, por questões de segurança. O fato é que esqueci uma medicação que devo tomar diariamente, três vezes ao dia. Seria chique dizer que tem tarja preta, então não digo a cor. Telma, de Salvador, me enviou por Sedex as caixinhas dos abençoados comprimidos. Escolheu o SEDEX mais chique e mais caro, que teoricamente chegaria no endereço indicado até as 10 h da manhã. Eu não sei se o carteiro era especial também, mas pode ter encontrado uma bala no caminho. Quem encontra pedra no caminho não é carteiro carioca, é Drummond. Mas o remédio ficou andando de bar em bar, de agência em agência até voltar para a Unidade Central de Despachos, em São Cristóvão. Se Itaim Paulista é longe, esse bairro lá no Rio era para Judas perder até a compostura.. O nome de batismo é cu do mundo. Longe é apelido. E de repente, depois de cento e oitenta e sete minutos de viagem, incluindo baldeação, caminhada em estado de choque por uma avenida esquisita, cheguei aliviada por estar viva e pedi porá falar com Evandro. Eu explico a inserção desse novo personagem na história: Telma, muito preocupada com meu estado de saúde e empolgadíssima porque estava usando o serviço VIP dos correios, trocou o Honório por Mário. Mas os especialistas em endereçamento postal garantem que a rua Honório de Barros é localizada pelo número do CEP. O carteiro nem olha o que está escrito, segue o código de endereçamento. Pois bem, pela lógica da lei de Murphy, o carteiro, de mau humor porque o SERASA estava mandando umas cartinhas amorosas, fingiu que não sabia, carimbou logo: endereço desconhecido. Esqueceu o ilustre que o SEDEX 10 cobra uma nota alta para realizar um serviço de alta qualidade. Bobagens... tudo bobagens. O carteiro carimbou, os remédios saíram para passear e foram encaminhandos de volta para casa. Ninguém seguiu a regra básica: olhar para as informações do remetente e entrar em contato pelo telefone. Os cariocas, segundo as teorias de Adriana Pé no Calcanhoto, são bacanas. Talvez, nem tanto, não é mesmo??? Mas Telma não nasceu, Telma estreou e como boa baiana, rodou-se a si própria, e tendo rodado a baiana, conseguiu falar com o Evandro, o cara que iria mandar os remédios de volta para casa ( e isso acabaria com minha viagem). Não sei que peças ela usou do seu tabuleiro, mas lá na casa de Roman Brunni, meu grande amigo carioca, o telefone tocou e era o tal do Evandro, me garantindo que o “objeto de número 37564778760-32” (eles nunca pronunciaram a palavra “remédio” ou “caixa” e me parece que essa é uma imitação dos filmes sobre CIA e FBI) estava são e salvo. Em todos os setores que me atenderam, por telefone, sempre se referiam aos meus remédios assim: o objeto de número 37564778760-32. Eu, derretida pela voz de travesseiro de Evandro, soube que ele estaria na Bahia, para um treinamento, dali a duas semanas. Eu prometi o esperado: praia, sol, cerveja, muqueca e muita alegria, que é o pacote completo quando se fala na Bahia. Cheguei lá, depois de horas, e fui checada dos pés a cabeça por uma mulher grandona chamada Hilda (pensei logo em Hilda Furacão). Pediram minha identidade e os seguranças portavam umas metralhadoras de dar medo. Quem me entregou o objeto foi Jefferson que confessou sua tristeza e inveja de Evandro. Ao assinar o recebimento, vi o nome completo de Evandro: Evandro do Amparo de Jesus. E claro que passei a acreditar naqueles que dizem que Deus é pai, não é padrasto e, por isso, Jesus é meu irmão legítimo. Não sei se todos os cariocas são bacanas, mas Roman, Aguinaldo, Vivian, Lucas, Márcia e Débora são ótimos. Os outros, Jefferson e Evandro, só podem ser paulistanos ou baianos, que são as melhores pessoas do mundo.

Hoje recebi um email com este título, em negrito e letras maiúsculas: URGENTÍSSIMO. Enviado por uma pessoa que conheço superficialmente. Abri, então, com o mesmo descuido com que a maioria faz sexo sem camisinha, mesmo sabendo que a AIDS é de verdade. Ali poderia estar um vírus perigoso e levaria todas as minhas anotações para esta crônica que não estou conseguindo terminar. Ao invés disso, era uma mensagem séria, enviada por uma pessoas conhecida, com o título bom dia. Ai, eu sou obrigada a dizer que tenho razão: voltemos para as missivas. Se os emails chegarem na nossa caixa de mensagens como se fossem enviados por pessoas conhecidas, e trouxerem, disfarçados, sob o manto azul finíssimo do desejo de bom dia, vírus a mão cheia, como faremos? A resposta é simples: aceitaremos a mensagem, seremos infectados, mas nos últimos suspiros, vamos dizer que valeu a pena. Sucumbimos ao desejo de agir por impulso. Eu acho muito mais inteligente e saudável usar o método das cartas. Mas ninguém me leva a sério.

No início da crônica, não saberia dizer para onde ela iria. E não sei ainda. Sofri muito com a indefinição quanto aos títulos. O primeiro de todos: só porque um gato nasceu num forno, não quer dizer que ele vai ser um biscoito. Acho este título impressionante. Parece um chiste, uma frase de efeito, mas é de uma filosofia impressionante. Fala de questões muito complexas, como a identidade e a noção de si. Por associação, me lembrei de uma propaganda de biscoitos Tostines (eu estou fazendo muito marketing nesta crônica...). Era lançada a charada: vende mais por que é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais? Esta é a charada que vem ocupando a parte centro-esquerda do meu cérebro: César sente dor no pé quando dança por causa da cirurgia, ou fez cirurgia no pé por que não pára de dançar? Vocês não conhecem César, mas ele seria o típico pé-de-valsa. Este termo antigo descreve um cara que sabe dançar, que tem ginga e que atrai as mulheres. Mais adequado nestes tempos é dizer que César é um pé de salsa. Explico: ele dança salsa com tal naturalidade, que é como se estivesse andando. Mas o seus passos ao andar são um horror porque ele só anda mancando, já que seu pé está sempre cirurgiado. E quando não estão em cirurgia nem mancando, seus pés estão dançando. Neste ano, foi para o carnaval do Rio de Janeiro, acompanhado da Josefa, que é uma mulher esperta e vive dizendo: se ele dança, eu danço. Não vou deixar um pé de valsa solto na avenida. Fefa e César desfilaram na avenida, de fantasia e tudo e isso explica o motivo da vitória da Escola de Samba escolhida por eles. Para mim, a Beija-Flor ganhou este ano por causa dos pés de César. Mesmo que sejam os pés que vivem cheios de cicatrizes, hematomas e tudo que se espera encontrar num pé que alterna a vida entre sambar até cair no chão e depois ir para o pronto-socorro. César é pé de valsa, pé de salsa e pé quente.

Eu falo sozinha, dirigindo, em casa, no shopping. Dependendo das previsões do horóscopo, eu ensaio briga com algumas pessoas, discutindo sozinha na rua. Essa é uma boa técnica para ganhar as discussões. Um dia desses, interrompi uma briga em monólogo e comecei a falar comigo mesmo quando vi o nome de uma loja de aluguel de roupas, Em Resumo. É, acreditem, se tiverem dúvidas, mando o endereço para vocês conferirem. A loja tem esse nome e eu não entendi até agora o motivo. A única solução que me apareceu, foi sugerida por Lucas, meu filho caçula. Para ele, a mulher desempregada, cheia de dívidas por que comprava roupas demais, gastou todo o saldo do fundo de garantia para abrir esta loja e dar uma utilidade ao excesso de roupas. O marido, cansado de tanta enrolação para a escolha do nome da loja, bateu o punho cerrado na mesa, irritado: Vânia Maria, chega. Eu já estou de saco cheio. Eu sempre disse a você que era roupa demais, que seu salário não parava no seu bolso. Agora, chega. Em resumo: eu vou me encontrar com o contador e decido com ele e pronto. Horas depois, por vingança, diante do olhar impaciente do contador, lembrou-se da discussão e resolveu o dilema: Em resumo. O contador perguntou: em resumo, o quê? - Em resumo é o nome da loja. O contador: é para isso que estou aqui. Preciso de um nome de fantasia. E o marido impaciente: Porra, em resumo é o nome da loja. EM RESUMO, entendeu? E-M R-E-S-U-M-0. Estava ainda achando aquele nome ridículo, quando, ao virar a esquina, avistei do outro lado da rua, outra loja de aluguel de roupas. Muito mais fina e visivelmente mais capitalizada. O nome era uma provocação: SÓ A RIGOR. Eis aí um nome de loja que tem poder calmante sobre mim. Simples, óbvio, conciso e prático.

Mais prático que isso só a consulta aos búzios que fiz com Madame Dandara. Ela recebeu um caboclo. O caboclo chegou e começou a pedir cigarro. Dandara acendeu o Hollywood e fumou como se fosse um charuto cubano. Assoprou várias vezes na minha cara. Me deu uma cutucada no braço e disse: ô fia, você está muito dando voltas. Eu estou sentindo uma vibração aqui. Caboclo não quer assustar você, minha preta, mas tem nuvem preta aqui. Caboclo já avisou antes, e não quer falar outra vez. Sua cordinha está esticada, minha fia. Já estou vendo a pontinha da língua. Minha preta, cuidado, que a cordinha está muito esticada. Meu cavalo vai explicar pra você os banhos que você vai tomar. O problema é esse negócio de estresse, mas tem muito mal olhado também. Tem olho que seca pimenteira, fia. Vejam vocês, paguei cinqüenta reais para ouvir Madame Dandara repetir a mesma ladainha do acupunturista: o stress vai te matar. Eu não gosto de mexer com caboclos, nem gnomos, nem fadas, nem duendes. Respeito todos eles. Não creio muito nas bruxas, mas cumprimento todas elas quando passam por mim.

Esta crônica está parecendo o pé de valsa de César: talvez porque dançou muita salsa, talvez porque tenha passado por várias cirurgias, o fato é que não tem jeito para esta crônica melhorar. E o melhor serviço de utilidade pública que posso oferecer, é encerrar por aqui.

Hasta la vista, baby.

*Dedico este texto á minha tia Amy, que me concedeu muitos bons momentos e ficava muito linda quando sorria. Imagino que agora ela esteja em algum lugar tranqüilo, cheio de música e de livros.

 

 

topo | página inicial

 


tribuna
entrevista
ensaios
opinião

colunas

crônicas havaianas
dagerreótipos
eros+errante
kaos kapital

verde
vértebra

 

artista do mês

Ernesto Diniz é estudante de Letras na UFBA, webdesigner, diretor de arte, fotógrafo amador, escritor amador, humano amador e amante.


O QUE ROLOU ANTES

verbo21 vintage

 

LINKS

A Garganta da Serpente
Alexandre Marino
Állex Leilla
Antonio Cicero
Ateliê Editorial
Bagatelas
Bestiário
Bigorna.net
Cadernos da Bélgica
Carlos Barbosa
Carlos Ribeiro
Ciberarte
Cidade Devolvida
Correio das Artes
Cronópios
Desconcertos
Editora Círculo de Brasília
Entre Aspas
eraOdito
Fernando Pigeard
Glauco Mattoso
João Filho
Jornal Vaia
Madame K
Mayrant Gallo
Nacocó
Página da Cultura
Régis Bonvicino
Sandro Ornelas
Santiago Nazarian
Sebo Diadorim
Simulador de Vôo
Snowbros
UBE
Verdes Trigos

 

PARCEIROS

selva