
Colunas: DAGUERREÓTIPOS
JORGE CELESTINO, O PUNK
por Tom Correia
Uma das suas grandes manias era procurar confusão com os Carecas do Brasil, cuja filosofia era odiar e se possível eliminar qualquer um que não fosse um skinhead. Negro, cabelo cortado com máquina zero, magro, mas musculoso, tinha resistência física suficiente para trançar as pernas num poste e executar uma série de abdominais, algo que fazia com certa freqüência. Como se tivesse sofrido um AVC, via o mundo com olhos semicobertos por pálpebras caídas, o que deu origem ao nome de guerra: Dormido. Numa ilustração literária, tinha os olhos de Borges; numa outra futebolística, lembrava Amaral, aquele do Palmeiras da Era Parmalat.
As esquinas escuras, as praças públicas cheias de lixo e mendigos, seus companheiros de movimento e de codinomes como Bactéria, Fome, Aranha e Miséria faziam parte do seu ambiente natural. Os postes serviam como seu escritório e pareciam ser uma das suas referências favoritas. Ele e um dos seus parceiros na vida tinham o hábito de montar nas costas do outro. Caminhavam pelas ruas e a cada cinco postes faziam o rodízio. Um walkman surradíssimo, descolorido e de fones estropiados, era responsável pelo som punk-porrada que o deixava levitando. Impossível saber como ele conseguia acompanhar as letras urradas em tons guturais indecifráveis numa velocidade tão vertiginosa. Suas pulseiras com pontas de ferro, suas correntes, seu coturno e macacão jeans, também surrados, completavam o figurino do cara mais autêntico das redondezas.
Dormido trocava o “quando” pelo “como” e frases que evocavam sua infância ou seus gostos musicais eram ditas mais ou menos assim: “Como eu era criança é que era bom...” ou “Como eu passar por aqui, eu trago o disco do Ratos de Porão...”. As incontáveis escaramuças entre os Punks e os Carecas o deixavam eufórico. Ele dava pulos, gritava palavras de ordem, mordia a mão e dizia “...hoje tô no speed, como terminar o show, aquele Bicudo vai me pagar...”. O bom da época era que ninguém se feria com gravidade. Mesmo entre eles, ainda havia um certo respeito pela vida, um código de conduta no qual todos se baseavam em nome apenas da diversão e das estórias que seriam contadas depois dos safanões e pontapés, cada lado com a sua versão. Ainda houve o lance do assalto. Dormido trabalhava num galpão onde eram armazenados tonéis de lubrificantes automotivos. Ele adorava o trampo nem tanto pela grana, mas pela oportunidade de fazer manobras radicais com a empilhadeira, na volta do almoço. Ele chegou, notou uma movimentação anormal e disse para o estranho: “O que é isso aí?”. O sujeito apenas lhe mostrou a arma. Ao que Dormido respondeu, gargalhando, “agora sim, tá liberado”. Seus patrões não acharam graça nenhuma. Os ladrões adoraram.
Há onze anos, numa sexta-feira santa, Dormido foi assassinado de acordo com a tradição do dia: à traição. Ninguém sabe ao certo quem teria armado a emboscada, embebedando-o. Mas ele devia estar muito confiante para se deixar abater por facadas em seqüência. Rumores indicaram uma espécie de dívida, o que nos pegou de surpresa, já que o tínhamos apenas como um usuário zen da cannabis e não um reles traficante de periferia. Poeta-punk sem ter escrito uma linha, viveu do seu jeito ditando um ritmo próprio, alheio às bocas malditas que o discriminavam e o rotulavam de todas as formas, menos com a adequada: um deslocado que morreu aos vinte e poucos anos combatendo romanticamente o tal do “sistema”, verdadeira entidade invisível. Onipresente. Opressora.
Jorge Celestino Moreira era original sem fazer força e pessoas assim fazem falta em ambientes desprovidos do sal da autenticidade. A memória dos mortos tem um prazo de validade curto. Com o passar do tempo, só rememoramos os mais queridos. Os outros sofrem uma segunda morte, o esquecimento dos que ficaram. Difícil afirmar o que detestava mais, se o seu nome de cantor de seresta, os lanches do McDonalds ou os carecas brasileiros. Mas Dormido, mesmo mordendo a mão ao lembrar dos rivais, seria incapaz de matá-los, como um grupo de punks fez no mês passado com um jovem de 22 anos, na Rua Augusta, em São Paulo.
A única coisa que ele matava, compulsivamente, era o tédio de ser apenas mais um na multidão levada pela corrente. De uma forma ou de outra, sempre se paga um preço por isso.
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