
Ensaio
JEAN BAUDRILLARD, a simulação desencantada - Parte II
Por José Aloise Bahia*
Simulacro e Simulação: a precessão dos simulacros
De acordo com as idéias e a ontologia de Platão, convencionou-se que a palavra simulacro é uma cópia de uma cópia. Neste particular e na disposição estética geral, observa-se que esta cópia da cópia contém menos verdade associada ao objeto e matriz em questão. Muito mais que uma cópia da cópia, esta evita um contato direto com sua fonte e razão conceitual: a própria realidade.
O livro “Simulacros e Simulação” foi escrito no final da década de 1970 e princípios da de 1980. A tradução do francês para a edição em língua portuguesa de Portugal é de 1991. Num conjunto de ensaios, Baudrillard aborda a questão do hiper-real e suas implicações na perda do referencial por parte da humanidade, através de modelos e modelagem, de uma realidade sem origem nela mesma. O ensaio mais importante e influente é o primeiro: “A Precessão dos Simulacros” (na tradução do francês original para o português de Portugal). Outro, não menos importante e referência teórica, chama-se “Implosão do Sentido nos Media”.
Passemos à exposição e reflexão desses dois textos teóricos. De acordo com o ensaio nativo, a humanidade vive hoje num tempo em que já não se exige que os signos tenham algum contato verificável com o mundo que supostamente representam. Esta passagem no livro é fundamental, como afirma Baudrillard:
“Já não existe o espelho do ser e das aparências, do real e do seu conceito. Já não existe coextensividade imaginária; é a miniaturização genética que é a dimensão da simulação. O real é produzido a partir de células miniaturizadas, de matrizes e de memórias, de modelos de comando – e pode ser reproduzido um número indefinido de vezes a partir daí. Já não se tem de ser racional, pois já não se compara com nenhuma instância, ideal ou negativa. É apenas operacional. Na verdade, já não é o real, pois já não está envolto em nenhum imaginário. É um hiper-real, produto de síntese irradiando modelos combinatórios num hiper-espaço sem atmosfera. Nesta passagem a um espaço cuja curvatura já não é a do real, nem a da verdade, a era da simulação inicia-se, pois, com uma liquidação de todos os referenciais – pior: com a sua ressurreição artificial nos sistemas de signos, material mais dúctil que o sentido, na medida em que se oferece a todos os sistemas de equivalência, a todas as oposições binárias, a toda a álgebra combinatória. Já não se trata de imitação, nem de dobragem, nem mesmo de paródia. Trata-se de uma substituição no real dos signos do real, isto é, de uma operação máquina sinalética metaestável, programática, impecável, que oferece todos os signos do real e lhes curta-circuita todas as peripécias. O real nunca mais terá oportunidade de se produzir – tal é a função vital do modelo num sistema de morte, ou antes de ressurreição antecipada que não deixa já qualquer hipótese ao próprio acontecimento da morte. Hiper-real, doravante ao abrigo do imaginário, não deixando lugar senão à recorrência orbital dos modelos e à geração simulada das diferenças”.
Esta discrepância e estranha capacidade dos atuais meios de comunicação de massa, sempre recorrente aos modelos produtivos, fazem com os signos percam a sua capacidade de representação das coisas. Eles se tornam signos vazios e constroem as simulações, dentro de um processo contínuo de produção e circulação de signos, sendo o seu último estágio histórico o das simulações. Assim o simulacro é o oposto da representação, pois ele parte da negação radical do signo como valor, e aniquila todo tipo de referência. Como ressalta Baudrillard: “Enquanto a representação tentar absorver a simulação interpretando-o como falsa representação, a simulação envolve todo o próprio edifício da representação como simulacro”. Aqui os signos não têm nenhum contato verificável e verdadeiro com o mundo representado.
Baudrillard apresenta as passagens e estágios sucessivos da imagem até chegar a condição de simulacro. Partindo de uma evolução das sociedades primitivas (para Baudrillard, aquelas em que o real e os signos estão perfeitamente relacionados) até o estágio atual, caracterizado pela reprodução incessante de signos e informação.
Inicialmente, no plano da história, o signo é “reflexo de uma realidade profunda” (esta fase de acordo com alguns estudiosos seria o estágio da fundação e função de linguagem referencial e/ou científica, postuladas por Jakobson). Aqui a imagem é uma representação perfeita. Uma aparência, guardando vestígios básicos e sagrados com o objeto o qual representa. É o signo por excelência. Num segundo momento, “a imagem mascara e deforma uma realidade profunda”. Ela é um malefício (domínio da má aparência). Baudrillard em algumas entrevistas correlaciona esta etapa à questão da ideologia e falsa consciência, a qual impede que as pessoas deixem de ver o seu verdadeiro estado de alienação e exploração. No terceiro estágio, o signo “mascara a ausência de realidade profunda” e “finge ser uma aparência”, tornando-se o domínio da sedução e fascinação exercida por meios artificiais. Podemos pensar num exemplo apresentado por Baudrillard noutro ensaio do mesmo livro para esta terceira ordem: o desprezo dos iconoclastas pelas imagens divinas, a qual acreditavam que estas próprias imagens (pelo fato de existirem) legitimavam a ausência da própria divindade. O último estágio, o signo “não tem relação com qualquer realidade: ela é o seu próprio simulacro puro”. É a primazia do simulacro. Esta nova ordem do signo, baseia-se na “Produção desenfreada de real e de referencial, paralela e superior ao desenfreamento da produção material: assim surge a simulação na fase que nos interessa – uma estratégia de real, de neo-real e de hiper-real, que faz por todo o lado a dobragem de uma estratégia de dissuasão”.
Outra maneira de pensar o simulacro - Uma outra interpretação pode ser feita a partir de uma pergunta da jornalista Cristina Mateo, da revista espanhola “AjoBlanco”, no final da década de 1990, para Jean Baudrillard, numa matéria intitulada “Os intelectuais Nunca Existiram”, retirada da internet, com tradução de Rosa Castelo. Na íntegra:
Cristina Mateo: Em “Simulacros e Simulação”, 1978, diz que o real não se pode representar e que são os signos que o constroem, as ‘simulações’. Fala de diferentes ‘ordens de simulacro’ num processo onde a crescente circulação dos signos se converte em domínio e, posteriormente em substituição do real, o seu último estágio é ocupado pelas simulações. Acredita que países do sul da Europa - Espanha em concreto, ainda em processo de elaboração da identidade – terá alcançado essa Terceira Ordem de simulacro, ou ainda mantém uma relação entre o real e os seus signos?
Jean Baudrillard: A minha teoria de simulação indica uma evolução desde o que se poderia chamar sociedades primitivas (aquelas em que o real e os signos estão perfeitamente relacionados) até uma ordem que denominaria como ‘Primeira Ordem’ (os séculos XV a XVIII) onde os signos se referem a um significado determinado pela classe, o prestígio e o status. Chega-se assim a uma ‘Segunda Ordem’ de simulacro que se dá a partir da Revolução Industrial, caracterizada pela reprodução do signo, sem se referir a ele, baseado na lei do valor comercial. Finalmente temos a ‘Terceira Ordem’ de simulacro, que é a nossa sociedade, onde os signos já são pura simulação (tecnologia de informação, genética). Daí que não vejo porque razão Espanha e Itália, onde os meus trabalhos estão traduzidos e conhecidos, não façam parte dessa terceira ordem. E por isto é complicado falar de simulacro nos países do Terceiro Mundo.”
Entretanto a tradução do livro de Baudrillard para o português já faz mais de uma década e a tecnologia da informação e a genética estão, atualmente, bastante evoluídas no Brasil. Tanto no uso da internet, projeto genoma humano, e, também na utilização de imagens simuladas no aprendizado de pilotos de aviação, e em alguns programas televisivos, como o Linha Direta da Rede Globo de Televisão. Mesmo assim, na resposta podemos observar que na “Terceira Ordem” apontada por Baudrillard não existe mais representação e domínio das aparências, mas um reino absoluto da simulação. Este é o reino da sociedade contemporânea, pautada na produção em série de imagens e signos sem nenhuma razão justificada na realidade, onde o objeto é preterido pela imagem, a cópia ao original, o simulacro (a reprodução técnica) ao real. Esta tem sido a história do mundo ocidental. Desde a perda da aura imagética da obra de arte no curso do tempo – como aponta Walter Benjamim – até a era de sua reprodutibilidade técnica, a cultura da humanidade tem perseguido este simulacro perfeito como a própria realidade.
E, hoje, como este simulacro e hiper-real estão presentes no mundo das comunicações sociais? Na sua grande totalidade na programação da televisão, a qual desempenha um papel fundamental ao simular através das imagens o mundo dos acontecimentos, através de informações e notícias, significando o mascaramento da diferença entre o real e o imaginário, entre o ser e a aparência. Elas potencializam o simulacro, o qual é passado como se fosse o real. A TV como a fotografia e a policromia embelezam, enfeitam, espetacularizam o real. Fabricam um hiper-real, um real mais real e mais interessante que a própria realidade. Acresce-se a isto cada vez mais no plano técnico e artificial, instrumentos intensificadores do hiper-real, a utilização da internet, sites, e-mails, telefones e programas de edição e simuladores em computadores num contínuo show de simulação do espaço hiper-real e espetacular, que mexe com o desejo de consumo de todos.
Este hiper-real simulado é fascinante, pois é o real intensificado na forma, cor, tamanho e propriedades. Parece um mundo de sonhos, que existe para nos servir, e que nos modela através da publicidade com suas imagens sedutoras. O mais certo neste ambiente é que entre as pessoas estão a tecnologia e as suas mensagens, notícias, suportes e imagens criadas. Na sua totalidade, a mediação não é mais feita de homem para homem, e sim a partir destes meios, ou seja, de simulações. A função dos meios de informação agora não é somente informar, mas também refazer o mundo a sua maneira e voz, é hiper-realizar o mundo e transformá-lo em espetáculo.
O Povo Tasaday - Um exemplo bastante grotesco de como atua o simulacro a partir da televisão é a história da criança que nunca tinha visto uma galinha na vida. Esta criança fora criado até os seus cinco anos num grande centro urbano e nunca tinha ido à zona rural. Num belo final de semana, os pais levaram-na para passear pelo interior do país. Assim que a família chega ao hotel fazenda foram para um imenso quintal. Após alguns minutos, a criança retorna de forma animada e afirma para sua mãe: “Venha ver a novidade, venha ver a novidade!”. “O que foi?” Perguntou a mãe. A criança de imediato responde: “Mamãe, venha depressa, acabei de ver um Knorr”. Este é o ponto nevrálgico da implosão do signo lingüístico: o signo galinha confunde-se com a própria manufatura, o Caldo de Carne Knorr. A isto, Baudrillard chama de implosão do sentido causado pela mídia no signo. O signo verdadeiro (galinha) perde o seu sentido original, e é ultrapassado pelo seu simulacro (a mercadoria Caldo de Carne Knorr divulgado na TV), a qual tem uma figura (imagem) de uma galinha branca (carijó) num fundo amarelo. Esta imagem mental (a galinha no fundo amarelo) é o fator contaminador, no nosso exemplo, do processo de implosão do signo lingüístico. Eis a realidade virtual.
Concomitantemente, e em resposta à percepção do desaparecimento do real há uma tentativa compensatória de manufaturá-lo, numa hipérbole do que seja verdadeiro, válido e aceito como experiência vivida; dita de outra maneira, o culto à experiência imediata, à realidade crua e intensa, não é a contradição do regime do simulacro, mas o seu efeito simulado.
Baudrillard apresenta um exemplo para sustentar essa hipótese: em 1971, o governo da República das Filipinas decidiu devolver uma pequena tribo de índios Tasaday à floresta virgem, local onde viviam anteriormente durante oito séculos sem contato com o resto das outras espécies, longe, portanto, da influência de outras civilizações. Para Baudrillard, a ciência, querendo proteger o povo Tasaday da sua própria fome destrutiva por conhecimento, na verdade está intercedendo, estendendo e provando o seu poder, embora pareça renunciar a ele. Ao operar a transformação dos Tasaday num modelo em escala, ou simulação de uma civilização primitiva, pré-científica - o outro universal da ciência -, a ciência tanto retira o olhar dos Tasaday quanto os recaptura sem remorsos como representação:
“O índio assim devolvido ao ghetto, no sepulcro de vidro da floresta virgem, volta a ser o modelo de simulação de todos os índios possíveis de antes da etnologia. Esta dá-se assim o luxo de se encarnar para lá de si própria, na realidade ‘bruta’’ destes índios inteiramente inventados por ela – selvagens que devem à etnologia o serem ainda selvagens: que reviravolta, que triunfo para esta ciência que parecia votada a destruí-los. Claro que esses selvagens são póstumos: gelados, criogenizados, esterilizados, protegidos até à morte, tornaram-se simulacros referenciais e a própria ciência se tornou simulação pura”.
Hiper-realidade - A partir desse exemplo, Baudrillard generaliza ao constatar que toda a vida contemporânea foi desmontada e reproduzida num escrupuloso fac-símile. Entretanto, a disposição de tudo isto está longe a calmaria da satisfação ou indiferença; ao contrário, confirma o que falamos antes “uma produção desenfreada de real e de referencial”, de modo que a simulação toma a forma, não de irrealidade como querem crer todos, mas de objetos e experiências manufaturadas que tentam ser muito mais reais do que a própria realidade, nos termos de Baudrillard, “hiper-reais”. Mais precisamente: “hiper-real é a realidade mais real que ela própria”.
O reino da hiper-realidade implementa uma espécie de colapso de todos os opostos reais na constituição de valor e validades dos sentidos, especialmente na esfera política. As idéias de Baudrillard contidas no livro reafirmam que, estando todo o espectro político dominado pela lógica do simulacro, mesmo os antagonismos mais inveterados, como o Capitalismo e o Socialismo, são anulados pela dependência entre seus termos; a autoridade depende da subversão, assim como esta retira daquela energia. Ao que parece, nenhum evento pode abalar ou desestabilizar os modelos de relação política que precedem e interrompe o curso e a interpretação dos sentidos e palavras desses eventos.
Baudrillard exemplifica de maneira extrema com um atentado a bomba num determinado local, que pode ser tanto manifestação e obra de extremistas de esquerda, de provocadores de extrema direita ou de centristas desejosos de desacreditar o extremismo político. Todas as respostas são pré-fabricadas e programadas, igualmente disponíveis e podem ser ativadas de imediato. O ponto resultante é o fato de o poder e a sua eficácia já não serem assimétricas (um grupo tem o poder e o outro carece dele; dado grupo se beneficia de certa situação e outro padece com ela), mas se distribuírem de maneira uniforme pelo espectro político através do modelo da simulação.
No mundo das comunicações sociais, isto nos remete por assim dizer à fase moderna da história das comunicações sociais, onde o detentor do saber é originado no emissor e a verdade é referendada pelo conhecimento e rotinas produtivas com suas objetividades, imparcialidades, métodos e modelos técnicos utilizados na escritura de uma narração informativa, que num futuro imediato transformar-se-á no atributo maior que é a notícia. E assim sucessivamente, alimentando a própria rotina, também um modelo a ser cumprido diariamente, semanalmente, semestralmente, anualmente, onde para cada tempo e espaço delimitados por uma data comemorativa, efeméride, feriado religioso, dia de santo, aniversário da cidade, campeonato de futebol, que se repetirá novamente todos os anos, impondo um modelo a ser copiado, ensinado e maquiado, pois tudo se constitui num mundo igual, onde os fatos sempre acontecem da mesma maneira. Aqui os modelos precedem os fatos:
“É que estamos numa lógica de simulação, que já nada tem a ver com uma lógica dos factos e uma ordem das razões. A simulação caracteriza-se por uma precessão do modelo, de todos os modelos sobre o mínimo facto – os modelos já existem antes, a sua circulação, orbital como a bomba, constitui o verdadeiro campo magnético do acontecimento. Os factos já não tem trajetórias próprias, nascem na interseção dos modelos, um único facto pode ser engendrado por todos os modelos ao mesmo tempo. Esta antecipação, esta precessão, este curto-circuito, esta confusão do facto com o seu modelo (acabam-se a falta de sentido, a polaridade dialética, a eletricidade negativa, a implosão dos pólos antagônicos), é sempre ela que dá lugar a todas as interpretações possíveis, mesmo as mais contraditórias - todas verdadeiras, no sentido em que a sua verdade é a de se trocarem, à semelhança dos modelos dos quais procederem, num ciclo generalizado”.
Portanto, neste ciclo incessante e generalizado, todos se beneficiam com uma infração ao código, porque assim o código é consolidado. Nesta situação, os opostos se transformam um no outro; no dizer de Baudrillard, ele “implode”, produzindo “uma causalidade flutuante em que a positividade e a negatividade engendram uma à outra e se intercambiam, onde já não há ativo ou passivo”, em que “todo ato termina, no final do ciclo, tendo beneficiado a todos e sido disseminado em todas as direções”.
Tentativas-Fantoches - O produto deste caldeirão de ansiedade generalizada tem como alvo de conflito nem tanto o poder, mas os signos de poder e o que assombra os participantes deste jogo não é o medo de perder o poder, mas o temor que o próprio poder esteja prestes a desaparecer. Esta situação e reflexão são fundamentais, numa longa citação de Baudrillard:
“A única arma do poder, a sua única estratégia contra esta deserção é a de reinjetar real e referencial em toda a parte, é a de nos convencer da realidade social, da gravidade da economia e das finalidades da produção. Para isso usa, de preferência, o discurso da crise mas também, por que não o do desejo. ‘Tomem os vossos desejos pela realidade!’ pode ouvir-se como último slogan do poder, pois num mundo irreferencial, até a confusão do princípio de realidade e do princípio de desejo é menos perigosa que a hiper-realidade contagiosa. Fica-se entre princípios e aí o poder tem sempre razão. Enquanto a ameaça histórica lhe vinha do real, o poder brincou à dissuasão e à simulação, desintegrando todas as contradições à força de produção de signos equivalentes. Hoje, quando a ameaça lhe vem da simulação (a de se volatilizar no jogo dos signos) o poder brinca ao real, brinca à crise, brinca a refabricar questões artificiais, sociais, econômicas, políticas. É para ele uma questão de vida ou de morte. Mas tarde demais. Daí a histeria característica do nosso tempo: histeria da produção e da reprodução do real. A outra produção, a dos valores e das mercadorias, a dos bons velhos tempos da economia política, desde há muito não tem sentido próprio. O que toda uma sociedade procura, ao continuar a produzir e a reproduzir, é ressuscitar o real que lhe escapa. É por isso que esta produção ’material’ é hoje, ela própria hiper-real. Ela conserva todas as características do discurso da produção tradicional mas não é mais que a sua refração desmultiplicada (assim, os hiper-realistas fixam numa verossimilhança alucinante um real de onde fugiu todo o sentido e todo o charme, toda a profundidade e a energia da representação). Assim, em toda parte o hiper-realismo da simulação traduz-se pela alucinante semelhança do Real consigo próprio”.
Por conseqüência, este anseio da perda do poder, geram os vigorosos encontros com a realidade, na forma do perigo ou da crise, mesmo que os próprios encontros dessa espécie atuem para estabilizar ainda mais o controle na simulação. Baudrillard relembra o episódio onde J.F. Kennedy foi assinado porque ainda havia a possibilidade de que ele viesse a possuir um poder real; por outro lado, Lyndon Johnson, Richard Nixon, Gerald Ford e Ronald Reagan, que habitam o reino do simulacro, requerem/requereram “tentativas-fantoches” de assassinato, necessitam da ameaça de morte para velar o fato de que eles mesmos não passam de fantoches simulados. O princípio de provar o real simulacional, permitindo-lhe entrar em contato com o seu negativo potencialmente desastroso ocorre em toda parte do sistema: “A ideologia não corresponde senão a uma malversação da realidade pelos signos, a simulação corresponde a um curto-circuito da realidade e à sua reduplicação pelos signos. A finalidade da análise ideológica continua a ser restituir o processo objetivo, é sempre um falso problema querer reinserir a verdade sob o simulacro”.
TV-Verdade - Seguindo a sua trilha, Baudrillard tece reflexões sobre o fim do panóptico, a suprema máquina descrita por Bentham, usada para controlar todos os lados, linhas, dimensões e voltas do real de um determinado lugar. Num desdobramento do panóptico, Baudrillard apresenta a experiência da TV-Verdade que foi implementada em 1971 com os Louds ao longo de sete meses, com mais de trezentas horas de filmagem direta, mostrando os dramas do cotidiano de uma típica família americana (de certa forma um programa precursor e “correspondente”, nos dias atuais, aos “Reality Shows”, como a “Casa dos Artistas” e “Big Brother Brasil”).
Interessante observar como Baudrillard é taxativo ao comentar que pelo próprio fato desta família se escolher como uma típica família americana, com domicílio na Califórnia, três garagens, cinco filhos, dona de casa, nível social médio, ela já se caracteriza como hiper-real e transmissora do “american way of life” (estilo de vida americano). Convém relembrar, neste momento, o livro “América” escrito em 1986, onde Baudrillard relata a viagem feita aos EUA, e como a sua “xenofobia” disseca a cultura americana, intitulando-a como uma cópia sem modelo, o avesso do sonho e da realidade, o simulacro total: a única sociedade primitiva moderna. Em outras palavras, a utopia da modernidade.
Pois bem, voltemos a questão dos Louds: até que ponto a presença da TV-Verdade e a retransmissão das imagens da família impõem critérios, onde o essencial gira na interrogação dos dois pólos a serem vistos: trata-se da verdade desta família ou da verdade da TV? Baudrillard responde de uma forma longa sobre os princípios ativos e passivos deste processo bastante complexo:
“É a TV que é a verdade dos Louds, é ela que é verdadeira, é ela que torna verdadeiro. Verdade que não é a verdade reflexiva nem a verdade perspectiva do sistema panóptico e do olhar, mas a verdade manipuladora, do teste que sonda e interroga, do laser que explora e que corta, das matrizes que conservam as vossas seqüências perfuradas, do código genético que manda nas vossas combinações, das células que informam o vosso universo sensorial. Foi essa verdade que a família Loud se submeteu pelo médium TV, neste sentido, trata-se de facto de uma aniquilação (mas tratar-se-á ainda de verdade?). Fim do sistema panóptico. O olho da TV já não é a fonte de um olhar absoluto e o ideal do controle já não é o da transparência. (.). Outra coisa se passa quando com os Loud: ‘você já não está a ver TV, é a televisão que o vê a si (viver)’ ou ainda: ‘você não está a ouvir. Não entre em Pânico, é não entre em Pânico que o ouve a si’ – viragem do dispositivo panóptico de vigilância (vigiar e punir) para um sistema de dissuasão onde é abolida a distinção entre o passivo e o activo. Já não há imperativo de submissão ao modelo ou ao olhar. ‘Vocês são o modelo!’ Vocês são a maioria!’ Esta é a vertente de uma sociedade hiper-realista, em que o real se confunde com o modelo, como na operação estatística, ou com o medium, como na operação Loud. Este é o estádio ulterior da relação social, o nosso, que já não é o de persuasão (a era clássica da propaganda, da ideologia, da publicidade, etc.), mas o da dissuasão: ‘Vocês são a informação, vocês são o social, vocês são o acontecimento, isto é convosco, vocês têm a palavra, etc.’’’.
Este curto-circuito da vida na TV - do meio e da mensagem, mistura química impenetrável, de acordo com Baudrillard -, nos indica que todos somos Louds submetidos a esta violência inescapável. A este agente exterior forte, ativo e eficaz que nos olha, manipula-nos, informa-nos e nos aponta o zênite do que seja real e faça sentido. O comando agora é externo, o que ocasiona a própria implosão dos sentidos. Nisto reside o começo da simulação, nebulosa, onde emissor e receptor, principio ativo e passivo se misturam, passando a inexistir, mesmo diante da mais moderna conceituação de razão, a noção de limite, onde o atômico do real está excluído. É a etapa da criação artificial do real, a crueldade da desreferencialidade do mundo dos acontecimentos. Seria o princípio da desinformação da informação? A potencialização deste até o status final da contaminação?
Baudrillard ilustra essa relação entre a desinformação e a manipulação, fazendo lembrar as declarações que dera na época da Guerra do Golfo (1991):
“Muitos outros acontecimentos (a crise petrolífera, etc.) nunca começaram, nunca existiram, senão como peripécias artificiais – abstract, substituição (‘Ersats’ em alemão) e artefactos de história, de catástrofes e de crises destinadas a manter um investimento histórico sob hipnose. Todos os media e o cenário oficial da informação existem apenas para manter a ilusão de uma acontecionalidade, de uma realidade dos problemas, de uma objetividade dos fatos. Todos os acontecimentos devem ser lidos ao contrário, ou apercebemo-nos (os comunistas ‘’no poder’ em Itália, a redescoberta póstuma, retro, dos goulags e dos dissidentes soviéticos, como a redescoberta, quase contemporânea, por uma etnologia moribunda, da ‘diferença’ perdida dos selvagens) de que estas coisas acontecem demasiado tarde, com uma história de atraso, uma espiral de atraso, que esgotaram o seu sentido com muita antecipação e vivem apenas de uma efervescência artificial de signos, que todos estes acontecimentos se sucedem sem lógica, numa equivalência total das mais contraditórias, numa indiferença profunda pelas suas conseqüências (mas é que já não têm mais: esgotam-se na sua promoção espetacular) – todo o filme da ’actualidade’ dá assim a impressão sinistra de kitsch, de retro e de pornô ao mesmo tempo – isto sem dúvida que todos o sabem e, no fundo, ninguém o aceita. A realidade da simulação é insuportável – mais cruel que o Théâtre de la Cruauté de Artaud, que era ainda o ensaio de uma dramaturgia da vida, o último sobressalto de uma idealidade do corpo, do sangue, da violência de um sistema que já estava a ganhar, no sentido da reabsorção de todos os problemas sem um vestígio de sangue”.
* José Aloise Bahia (Belo Horizonte/MG). Jornalista, pesquisador e escritor. Autor de Pavios Curtos (anomelivros, 2004). Participa da antologia O Achamento de Portugal (anomelivros, 2005). Tem dois livros no prelo. josealoise@terra.com.br
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