
Ensaio
A renovação da força simbólica e do imaginário poético
Por Jordeanes do Nascimento Araújo*
e
J.J. César de Araújo**
O Partido das Coisas de Francis Ponge é um retorno a superfície do mundo, uma volta às coisas, para além de toda interpretação profunda, de toda teoria, uma poesia que nos leva de volta aos objetos e a sua sensibilidade direta possibilitando a aproximação da palavra com o mundo material. Demonstra um homem cansado de falar para si e de si, numa crise de otimismo com o mundo capitalista, retornando as náuseas humanísticas e existenciais do homem que se considera finito, lançado no mundo e continuamente dilacerado por situações problemáticas e absurdas.
As obras de Luiz Bacellar ‘’Flauta de Barro’’ e ‘’Sol de Feira’’ denunciam que o humano que permeia os objetos aos poucos o coroe, fundindo-se com estes tomando-lhe parte invadindo seus espaços, há em seus poemas um desejo de afirmar que havia no seu outro mundo uma certa identificação entre as pessoas e as coisas.Enfim, Bacellar denuncia que a relação orgânica entre os homens e as coisas se desfez com a modernidade.
Essa insatisfação segundo Heidegger, provém da relação do homem na relação fundamental com o mundo. Os entes do mundo se mostram como utilizáveis pelo homem como referidos ao homem, do qual recebem a inteligibilidade e significado.
Ponge e Bacellar ao procurarem dá voz as coisas levam o homem a um estado de coisificação, onde este reconhece ou atenta para as pequenas coisas que formam o mundo e a sua relação direta consigo mesmo. Não é o homem que se movimenta em meio aos objetos, mas sim os objetos que estão lá em seu estado estático , levando Ponge e Bacellar a desmesurar do principio de subjetividade destas coisas. Uma leitura fenomenológica do mundo que o cerca procurando ouvir os objetos ao invés de querer falar por eles.: “ como na esponja há na laranja uma aspiração a recobrar a compostura após ter sido submetida a prova da expressão( in Laranja,p.67).
Uma das condições da Literatura é a descrição subjetiva do humano. Mas, para Ponge o mundo das coisas tem forte influência no mundo das idéias , das subjeções, da fantasia, do homem : ‘’ a seguir sua pessoa uma pequena tocha muito menos luminosa que profunda’’( in – Cigarro,p.65). Ponge mostra o inesgotável estado de esgotamento da criação ,um desencanto com o mundo em crise, com o homem na sua condição de existir, sendo levado a rejeitar o material humano, voltando-se para as coisas , na busca do possível elo com um outro homem que fora digerido pelos tempos modernos.
Na poesia de Ponge encontramos um homem que se choca com a monstruosidade do mundo, diante da tentativa de descrever,de nominar, de dá alma ao que parece supérfluo.O naufrágio angustiado do poeta perpassa o caminho de dá as coisas uma objetividade,uma percepção do que o objeto pode nos comunicar, levando Ponge à contradições ,como podemos observar no trecho:
‘’ nem pelo punhal cego das rochas, nem pela mais escavante tempestade a revirar maços de folhas ao mesmo tempo,nem pelo olho atento do homem aplicado penosamente e aliás sem controle num meio num meio interdito aos orifícios destampados dos outros sentidos e que um braço mergulhado para agarrar turva ainda mais esse livro no fundo foi lido’’(p.100/01).
Ponge se propõe a falar das coisas e acaba se rendendo a entender o homem.O ser é inobjetivável, não pode ser identificado como uma existência empírica. Para poeta ,contrariando Kierkegaard, compreender o principio das coisas é o caminho para a verdade, objetivamente científica , anônima, porque válida para todos, mas sim para a verdade da existência, tentando alargar ao caminhos de uma possível metamoforização para a consciência enquanto ser no mundo.É nesse contexto que se insere Bacellar com dois significativos trabalhos que o colocar como contemporâneo de Ponge. Para entender melhor o que estamos falando é como se a genialidade de Barcelar estivesse percebido sem ler Ponge a fragmentação da vida , da modernidade, da latinidade. Flauta de Barro de Barcelar já traz em seus poemas a coisificação como negação do humano.Segundo Tenório Telles (1999, p.13):
Flauta de Barro soa como um eco cortante a ferir a pele cinzenta do silêncio provinciano de nossa literatura; expande-se para alem da contenção poética de seu autor, desarma as articulações discursivas e superficiais predominantes na produção literária amazonense. Seus textos revelam profunda consciência do fazer poético, com uma precisão estrutural nova e forte preocupação com os processos formais.
O que Tenório Telles não consegue perceber em sua crítica e que Barcelar consciente ou inconscientemente assumi uma nova postura poética ao se negar descrever as paixões ou conflitos humanos, procura dá às coisas vida , um principio de utilidade, numa clara demonstração de sua insatisfação com o mundo que o circunda. Nesse ponto Ponge e Barcelar se aproximam.As descrições de Ponge e Barcelar estão longe de falar de verdades cientificas:
‘’ uma concha é uma coisa pequena mas posso desmesurá-la,recolocando-a, onde a encontro,pousada na vastidão da areia.Porque então ,apanhando um punhado de areia, ficarei a observar o pouco que me resta na mão , depois que pelos intrínsecos de meus dedos quase toda ela estiver escorrido.(PONGE, Francis. O Partido das coisas in anotações para uma concha,1969,p.125).
Mas é um convite a uma nova concepção , uma nova ordem para as coisas que levem o homem a encontrar um novo sentido de reutilização para esses objetos. O mesmo que faz Barcelar em Soneto do Lápis, no livro A Flauta de Barro:
Meu cilindro de pinho,pelo teu severo rastro,eu te amei por negro mastro das velas do eu caminho/pelo teu riscar cruel, meu âmago de grafite que a maquina multilite reproduz sobre o papel.(p.33)
Todas as poesias de Barcelar na obra supracitada dão conta de retratar essa intimidade com os objetos em busca de um reconhecimento, um convívio, uma aproximação com este mundo onde circulam as coisas. Ponge procura a verdade dos objetos, mas sabe que não é possível.Pois, mesmo descobrindo uma nova função que a aproximem do homem, o ser não pode ser nomeado, e nem podemos lhe dá funções tendo em vista que nem o nome nem as funções serão verdadeiras:
os monumentos do homem se assemelham aos pedaços de seu esqueleto ou de qualquer esqueleto, a grandes ossos descarnados: não evocam nenhum habitante do seu tamanho. As mais imensas catedrais deixam sair tão – somente uma falange informe de formigas.(...)Não sei bem por quê,desejaria que o homem no lugar desses enormes monumentos que não testemunham senão a desproporção grotesca de sua imaginação e de seu corpo(...) que o homem dispensasse seu cuidados em criar para as gerações uma morada não muito maior que seu corpo,em que estivesse contidas toda sua imaginação, suas razões, que ele empregasse seu gênio ao ajustamento não a desproporção. ( p.126-8).
Nessas idéias usadas também por Ponge na construção da poesia Caracóis ,percebemos mesmo tentando dar as coisas um principio objetivo , este não é freado porque a natureza não existe senão pelo homem. Assim natureza e homem calam-se diante da inobjetividade que os compõem intrinsecamente. Vejamos como Barcelar entende esse ideário de inobjetividade do ser em relação com as coisas:
‘’O armário do pintor é um céu barroco asilo para inválidos divinos onde cegos,capengas e manetas/ ó vasto panteon teratológico! santos e santas, anjos e madonas acotovelam cristos hansenianos; bárbaras , sebastiões, jorges, luzias aposentados de orações e ex-votos ,cobertos de antiguíssima poeira’’ (Flauta de Barro- in O armário,p.79)
Em Barcelar o humano é mais presente.Embora, tentando descrever as coisas Barcelar encontra uma certa correspondência entre os seres humanos e objetos. Há uma intimidade que os entrelaçam. Para Antônio Paulo Graça no seu texto ‘’Antiapresentação para Flauta de Barro’’, há consciência poética em preferir as coisas em detrimento do humano. Para o critico:
‘’Quando ele elege como sua matéria minúsculos objetos adormecidos na insignificância do cotidiano, casos provincianos e casas arruinadas pela cruel ação do tempo,apenas exibe a capacidade de exibir a grandeza poética neste universo recusado por aqueles poetas que pretendem atingir a grandeza apenas com os grandes temas.Bacellar denuncia esta cilada.’’(GRAÇA, Antônio Paulo in - Antiapresentação para Flauta de Barro. p.211)
Luiz Bacellar não é escravo da matéria poética. Seus livros denunciam que a matéria humana apenas coroe as coisas como uma dor invisível, como uma participação assustadora , como uma angústia antiga preenchendo todos os espaços do efêmero que parte de sua matéria poética.
Ponge trabalha aproximando dos objetos de maneira diferente nele o humano está profundamente separado dos objetos. Ponge consciente de que a existência é indeduzível e a realidade não se identifica e nem se reduz a racionalidade, esforça-se para descrever as coisas, para aproximar-se delas ,sem ceder ao lirismo: “O mar até as proximidades de seus limites é uma coisa simples que se repete onda a onda’’( Bordas do Mar.p.97). Procurando uma linguagem que fosse capaz de aderir aos objetos, Ponge desvirtualiza o papel do humano na arte , sua volta às coisas é uma forma de procurar as raízes e as nervuras que aproximam o homem da natureza.
Em Bacellar e em Ponge as imagens formam-se a partir de constantes inovações. Flauta de Barro ainda possui um apelativo imagético que aos poucos preenche tudo que o poeta descreve.Nesta obra a imagem da Ruína invade tudo que é descrito. Porém, essa imagem de ruína invade aquilo que é mais precioso ao poeta sua casa. Seu mundo é a Manaus antiga, provinciana: isso é sua casa. É a partir desse universo, tão próximo ao poeta que ele denuncia as corrosões do tempo no seu espaço. Para Gastor Bachelard (2004, p.24) :
A casa é o nosso canto do mundo.Ela é, como diz amiúde, o nosso primeiro universo.E um verdadeiro cosmos. Um cosmos na verdadeira acepção do termo.(...) Reconfortamos - nos a reviver lembranças de proteção. E graças a cãs a que uns grandes números de lembranças e de memórias são preservadas e vem a torna.
Tudo nas obras de Ponge e Barcelar remete a imagem de casa, abrigo, mesmo perfilando para o mundo das coisas é nestas que eles ( os eu –poéticos) se refugiam sob o signo do sigilo. Ponge é impreciso no seu método de "tomar o partido das coisas" é uma interessante demonstração de que, em matéria de poesia, ou o objeto existe para o sujeito ou ele (objeto) se perde na sua impenetrabilidade alheia e neutra. E o sujeito-poeta (chame-se Francis Ponge ) o mais que pode fazer é "enovelar-se" mesmo nas coisas, conforme saiba usar, melhor ou pior, as palavras exatas que sua subjetividade pede e dita.
Francis Ponge ocupa lugar de relevo na poesia do século 20, na França. Surgiu repondo no centro da linguagem seres do mundo animal, do mundo vegetal e mineral. mobilizou tematicamente cavalo, rã, camarão, etc. (reino animal), grama, plátano, árvore, etc. (reino vegetal) e cristal (reino mineral).Para Mário Chamie, instalou, assim, um enclave entre a busca de absolutos, de linhagem malleneana, e o expressionismo anárquico de um Henri Michaux. Ainda comentando o trabalho de Leda Tenório da Motta , Chamie afirma que:
Desde os seus primeiros livros (Douze Petits Écrits - 1926, Le Parti Pris des Choses - 1942, La Rage de L'Expression - 1952), e mais tarde na consolidação de sua obra (Lyres, Méthodes, Pièces - 1961), Ponge se manteve na tentativa de reconsagrar a existência concreta daqueles seres, supostamente imunes ao discurso dos poetas que os tomam por referência, projetando sobre eles seus pensamentos, palavras e emoções.
Para tanto, Ponge não desdenhou de alinhavar princípios de apoio crítico, cujo teor de certeza sempre se fez acompanhar de vacilações de feitio não muito ortodoxo. Assim, se um de seus princípios lembra que "o poeta nunca deve propor um pensamento e sim um objeto, um outro contrabalança esse tom afirmativo, advertindo que "o partido das coisas" precisa, em complemento, "levar em conta as palavras" que a elas se referem.
Barcelar agarra-se em sua obra Sol de feira mais ao nosso João Cabral de Mello Neto (esplendido ao trabalha coisas e objetos e seres jamais trabalhados em nossa literatura ) que mesmo a Ponge. A visão de Barcelar sobre o mundo é uma visão recuperativa. Apelo pela recuperação engolido pela crise do capitalismo da borracha.
Talvez o maior jogo de Barcelar seja arisca-se a representar um mundo das percepções que tem das coisas que tem a sua volta, não impondo-se sobre elas , nem buscando um lirismo vago, ma olhando-as com um grandioso aroma do passado, tão forte como o cheiro de uma oiti ou de um de seus frutos em Sol de feira , aos empoeirados casarões e rua de Flauta de Barro. Esse aspecto aproxima-o de Ponge, de João Cabral de Melo Neto e de Malléme, pois a representação do mundo ou a dos processos de produção de texto pela palavra está sempre em suspenso: no limiar de mudanças – regras novas que outros tempos impõem – ou em risco de falência – o de sucumbir à impossibilidade de dizer. Salienta Edson Rosa da Silva ( 2003):
Em se tratando de poesia, e mais ainda de poesia moderna (o adjetivo já aponta para a pluralidade do sentido das palavras), o impasse é ainda maior: fugindo ao descritivo e expressando-se por fragmentos, buscando a contenção e concentrando a tensão do sentido e da forma, o poema, ao significar o mundo e seus objetos ou a própria criação e seus mecanismos de expressão, constitui um foco de resistência ao uso comum da língua que faz explodir a clareza e todo sentido lógico.
Barcelar é mais que um simples feitor de versos, é talvez o melhor poeta amazonense, uma vez que venceu o ciclo de regionalidades, sendo ao mesmo tempo universal e não perdendo os traços que caracterizam seu espaço poético, seu mundo, seu ideário de representação.
Assim Ponge e Barcelar são faces da mesma moeda: a poesia do século XX que propositalmente tenta fugir a nossa compreensão. Para Adalberto Muller e Carlos Loria:
Francis Ponge nos escapa...se esvai por entre nossos dedos, escapa a toda tentativa de definição (propriamente falando). Porque sua obra se recusa recalcitrantemente a conservar-se numa forma precisa, a manter-se dentro de limites estabelecidos (Poesia? Prosa? Filosofia? Literatura?), e por isso mesmo tal obra - agora em dois volumes-bíblia da Bibliothèque de La Pléiade - nos dá essa impressão quase panorâmica, ao mesmo tempo que nos dá a imensa vontade de consumi-la e consumá-la de uma só vez. Encaremos seus escritos - descrições-definições-obras-de-arte-literária -, que elegem como tema ou objeto as coisas (os fenômenos ) aparentemente mais banais do cotidiano (o sabão, uma porta, a chuva, etc.), primeiramente como engrenagens de um mecanismo em movimento, que pretende ser nada mais nada menos que uma moderna Cosmogonia (não é à toa que "O Pão" fala de um "forno estelar"). Por outro lado, louvemos nele o fato de que, como raros artistas deste século (Picasso, talvez), ele soube falar de si das mais variadas formas e maneiras.
* Jordeanes do Nascimento Araújo é sociólogo, pesquisador de cultura oral , co-autor do livro Simbolismo e imaginário um olhar para a cultura no vale do Juruá (editora Valer 2006/2007). E- mail cassy_jonesaraujo@hotmail.com
** José Júlio César do N. Araújo é graduado em Letras, pós – graduado em Gestão Educacional, aluno do curso de Economia –UFAC, professor da rede estadual de ensino do Acre e do Amazonas, Coord. dos cursos de Pós- graduação FARO/ Cruzeiro do Sul –AC e autor do livro O homem Falando no Escuro e Simbolismo e imaginário ( Editora Valer / Manaus,2006/2007 ). Endereço para correspondências - Tv. da Amizade,191 QD.302- Floreta – Cruzeiro do Sul – ACRE- CEP.69980-000. E-mail: amadeus13julio@gmail.com
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| Ernesto Diniz é estudante de Letras na UFBA, webdesigner, diretor de arte, fotógrafo amador, escritor amador, humano amador e amante. |
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