
Ensaio
MARTU, de Elizabeth Hazin
Por Alex Cojorian
(1a edição RJ: Philobiblion/Fundação Rio, 1987; 2a edição RJ: Vieira & Lent, 2006, 152 p., editora@vieiralent.com.br)
Na voz da própria Elizabeth: “Martu é um poema longo, narrado por um poeta que teoriza o próprio fazer poético, além de dar a conhecer seus próprios poemas”. Duas poesias em uma voz, uma poesia sobre a terra Palestina – em caixa alta –, e uma poesia sobre a própria palavra.:
Nada posso contra o tempo
contra seu rosto de água
dissolvendo em sua lágrima
a trama que vou tecendo
tapete que não termino
sentido que não encontro
na onda lisa do sonho
tudo é palavra e destino
[...]
quem trama a sua morte em cada ponto
– verdade crucial que em vão se cala?
mulheres de ramallah sejam breves
pois longo é o bordado – esse martírio –
e sempre outra mulher (a mesma súplica)
reveza devagar a mesma túnica
enquanto vai cosendo a sua angústia.
Martu, nome primeiro da terra Palestina, traz o encadeamento de poemas sobre a terra, seu povo, sua luta, seu drama, lembranças bíblicas, e outros tantos objetos, palavras, sinais, demarcadores desse sentimento de pertencimento. Não será possível descolar a autora de seu escrito, separar o sentimento, a história íntima, do objeto narrado, desejar que o livro fale por si mesmo. Ele fala, mas é um coro de vozes, de mil escribas falando sobre o drama da escrita e deixando fluir o tema da escrita.
quem traçou essa linha
que divide minha terra
dessa terra que é sé minha?
verde linha
quem te espera o apagar-se
desespera
a pedra arremessada
é puro sal
na língua desse povo
é só cristal
de rocha sobre rocha
e de novo
o ciclo recomeça:
arrebato as cordas
arrecado os sonhos
arrebento os muros
arremesso as pedras.
Recifence, palestina pelo lado paterno, Elizabeth Hazin coletou a Palestina durante anos, e mesmo depois de publicado, em 1987, Martu, como ela mesma refere, não cessou de fluir, e é assim que nesta segunda edição, de 2006, o livro está maior, com novas poesias:
Um dia atravessei a pé uma floresta
e achei que deveria escrever um poema sobre ela
Mas nnao era da floresta que eu queria falar.
Tampouco do que senti ao vê-la.
Escrevi muitas árvores verdes
e o perfume que exalavam
me inebria até agora
Neste apanhado que é Martu, falar sobre o drama de escrever não é um drama vazio, e está muito distante da arte pela arte, legenda de épocas em que o fastídio de viver torna a vida insossa. Aqui, tudo ao contrário, a morte signifcando a urgência do viver, e tudo é pungente, e a vox clamantis in deserto é a voz solitária da poeta e seu sentimento íntimo, mas é também e muitas vezes o coro de uma nação inteira:
Morte lembra areia:
grão de terra sobre o corpo.
Sob o chão
as pessoas comem pó
engolem sonhos.
Mas é preciso
- diz o poeta –
tudo finda
e se esfacela.
(Então como navegar
tendo por vela uma palmeira
o mínimo oásis por mar?)
Sempre ligada às Letras, Elizabeth esteve estudando em Londres e Roma, lecionando em universidades em Pernambuco, Bahia e Dinamarca. Atualmente está no departamento de literatura da Universidade de Brasília. Escreve desde menina, e de lá para cá muitos livros de poesia e muitos lauréis, entre outros: Verso e reverso, Casa de vidro (prêmio Jorge de Lima, da Universidade Federal de Alagoas), Areal, O arqueiro e a lua...
Qual o tamanho da noite
quando não se dorme?
(e se eu não morrer
não morrer
não morrer na morte?)
A noite come a lua devagar
– minguante – essa cratera sempre aberta
ó lua esse teu ócio de luar
estava escrito desde o mar.
E se eu não morrer
não morrer
não morrer na noite definitiva?
Viver é grande demais imensa
dor.
A noite é enorme.
Mas a poesia é grande também. Mais que a morte é a palavra, e na palavra reside a poeta, e na poeta um povo inteiro. Nas páginas cor de areia do livro, riscadas aos poucos, palavras, embalos, vento, gente.
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