
Entrevista
EDSON CORDEIRO NOVAMENTE FASCINANDO A EUROPA
Por Tânia Gabrielli-Pohlmann (direto da Alemanha)
Foto: Tânia Gabrielli-Pohlmann ©
Aqui na Alemanha, Edson Cordeiro é conhecido como “The Voice” e “oitava maravilha do mundo”. E não é para menos. O ator e cantor tem público mais do que fiel em qualquer região européia pela qual passa, e está em tournée, apresentando o nono CD de sua carreira com o show “Klazz meets the Voice”. Edson esteve se apresentando em Osnabrück, e deu uma entrevista ao vivo em edição extra de “Brasil com S”, osradio 104,8 transcrita abaixo, sob sua autorização.
Tânia Gabrielli-Pohlmann - Boa noite, Edson, é uma honra tê-lo nesta edição extra de “Brasil com S”.
Edson Cordeiro - Boa noite, senhoras e senhores. Estou muito feliz por estar aqui.
TG - O CD "Klazz meets the Voice” é o nono em sua carreira. Como surgiu o conceito deste trabalho?
EC - O CD veio do palco. Primeiro veio o convite para cantar com o trio Klazz Brothers, e a gente fez o show em Dresden pela primeira vez; o show foi amadurecendo, até chegar este disco, agora. A gente já fez muito show junto.
TG - Você une, muitas vezes, ritmos e estilos que se podem até classificar como "opostos“ numa única faixa, como o faz no CD em "Girl of the night“, na qual se vêm presentes "Garota de Ipanema“ e "Die Königin der Nacht“, ou seja, Tom Jobim com Mozart. E dá certo. Como é que você concebe tais curvas, tais possibilidades de ligações musicais ?
EC - A resposta está no público. Tudo o que faço é testado antes com o público. E se o público diz “sim”, é o que aproxima os estilos. É o público. Eu sou um ator que canta, e eu consigo fazer com isto dê certo no palco.
TG - Isto exige muita pesquisa de sua parte, não?
EC - É, eu estudo muito. Quando estou no Brasil, faço aulas de canto duas vezes por semana, pois acho que a parte muscular, vocal, é importante. E a pesquisa também é importante. Como ator, estudo cada personagem que represento.
TG - Este CD será lançado também no Brasil?
EC - Vamos trabalhar para isto, para que a Sony BMG lance este CD também no Brasil, mas por enquanto... Este CD começou sua carreira aqui na Alemanha e vai se estender primeiro por toda a Europa.
TG - Vamos contar um pouco de sua carreira. Seu primeiro contato com o canto se deu aos seis anos de idade. Como você percebeu o potencial de sua voz?
EC - Na verdade, na igreja. Eu não descobri nada, assim, que eu era um cantor, na igreja. Eu só descobri que, realmente, o louvor era a parte do culto que mais me interessava, porque minha musicalidade acabou despertando com os hinos religiosos, até meus quinze anos.
TG - No início dos anos 80, a gente podia ver o Plínio Marcos em frente ao Teatro Municipal, no centro velho de São Paulo. Freqüentemente eu parava ali para conversar com ele e, um dia, ele me disse que eu tinha que ir à Rua Barão de Itapetininga, ali perto, na hora do rush, porque eu iria levar um choque imenso – e ao dizer isto, Plínio ria como que me assegurando ser algo muito bom. Só que ele não me dizia o que era. Passado algum tempo, resolvi ir à Barão e, realmente, minha reação foi a reação de quem o ouve (ao Edson) pela primeira vez: a de um choque. Fui à frente do Teatro Municipal, a fim de falar com Plínio. De lá se podia ouvir sua voz (a de Edson). Conversei sobre isto com Plínio, que me olhou bem sério e perguntou: “Será que não é meio assustador ter tanto em si?” E, como nós não queríamos interromper sua performance, brinquei e disse ao Plínio que um dia lhe perguntaria isto pessoalmente. Bem, Edson, em nome de Plínio Marcos, lhe pergunto: Não é assustador ter tanto dentro de si?
EC - Bem, primeiro, fico muito emocionado por saber que você tenha chegado até mim através de uma pessoa tão importante para o Brasil, como é Plínio Marcos, um grande escritor e dramaturgo. Isto realmente me emociona muito, saber que cheguei aos ouvidos dele também, além dos seus. É realmente fantástico... Mas a resposta que tenho para lhe dar é que me assustaria, se eu soubesse que não existem pessoas como você, como Plínio, como o público brasileiro, que pudessem receber aquilo que tenho para oferecer. Não sou um artista que se exilou para fazer sucesso. Eu fui ouvido no meu país. E recebido no meu país. Isto me deixa muito tranqüilo em relação ao que tenho para oferecer. E com certeza o Brasil sempre vai estar pronto para receber o que tenho para dar.
TG - Edson, você também atuou em teatro, você é um excelente ator e incorpora este seu talento em seus shows. Você tem algum plano para o teatro?
EC - Minha idéia de teatro já está na música. Eu aprendo uma coisa com a vida: nunca acrescento algo na minha vida para esquecer o que veio antes. Nada é substituído; tudo é acrescentado. Então, com certeza ao ver meu show, o público percebe que o teatro ainda está comigo, a igreja ainda está comigo, a rua... a idéia de cantar na rua, de criar a própria ribalta, ainda está comigo. Tudo é acrescentado ao meu trabalho com o passar do tempo.
TG - E na TV você apareceu há pouco, mas o público não podia reconhecê-lo num primeiro momento, porque você atuou como Carmen, na telenovela “Amazônia”, da TV Globo. Como foi esta experiência?
EC - Foi uma pequena participação, mas que meu muito trabalho, porque fiquei três horas na maquiagem, fora o figurino, que foi muito elaborado, mas que meu muito prazer. Eu só poderia ser Carmen como Bizet queria que fosse: uma mulher, e como ator, numa oportunidade como essa, que a autora Glória Perez me deu. Eu estou realmente pronto para aceitar qualquer desafio que eu sinta que eu possa satisfazer. Adorei participar desta super produção. Foi muito bem feita a novela.
TG - No especial “Edson Cordeiro”, que apresentei na edição passada do programa Revista Viva, falei do videoclip que você e Cássia Eller fizeram juntos, e inclusive toquei “Satisfaction” e “Die Königin der Nacht”. Como foi trabalhar com nossa querida Cássia Eller?
EC - Esta música foi gravada no meu primeiro CD. Convidei Cássia Eller para cantar comigo, porque quando ouvi Cássia pela primeira vez, nunca esqueço, foi no rádio... E... É muito difícil eu me enganar com voz, principalmente com voz feminina, e quando ouvi Cássia, realmente achei que fosse um homem cantando. E, depois do encantamento da androgenia que é a voz dela, me encantou o fato de ela não parecer com nada do que havia acontecido antes na música brasileira. Cássia não imitava e não parecia com nada que já havia acontecido antes. Então, ela encaixou direitinho na minha idéia de trocar os papéis sexuais dentro de uma música. Ela, para mim, é uma das maiores cantoras do mundo.
TG - É um grande sucesso que, acredito, vai ficar para a história da música. Vamos falar de seus shows aqui na Europa. Conte pra gente um pouco sobre o conceito desse show.
EC - Este show é o trabalho de divulgação do CD “Klazz meets the Voice”, que tem percorrido várias cidades da Alemanha e vários países. No show estão presentes todas as músicas do CD. Eu acho, e sinto que também o público sente isto, que a química minha com o trio Klazz Brothers é uma química que estava esperando para acontecer, porque nós nos damos muito bem no palco. É como se fôssemos amigos há muito tempo. É uma intimidade grande. Eles pensam música como eu, então é muito fácil fazer o show com eles e é um prazer enorme. Bem, o público vai ver um show bem teatral, bem alegre, com muito vigor vocal.
TG - Agora, Edson, gostaria de lhe fazer a pergunta com a qual encerro todas as minhas entrevistas: Qual o papel social do artista, e em especial do artista brasileiro?
EC - Acho que, uma das principais funções do artista brasileiro, seja ele de que área for, é fazer com que o mundo, ou seja, aonde o artista leva essa arte, veja que tudo aquilo que os políticos atrapalham para que nosso país seja um país melhor, o artista tenta fazer o contrário. Com a música, com a pintura, com a literatura, a gente pode transformar completamente a paisagem de um lugar, e mostrar que o lugar onde a gente vive é o povo que a gente é. E é isto que a gente carrega na voz, na cor e na letra.
TG - Muitíssimo obrigada, Edson, por você ainda ter encontrado tempo para conversar conosco. Muito sucesso!
EC - Também agradeço.
KLAZZ MEETS THE VOICE – O SHOW
Por Clemens Maria Pohlmann
Mais uma vez, Edson Cordeiro fascina o público europeu com seu potencial. A Alemanha o intitula “The Voice” e “Oitava Maravilha do Mundo”. O público aguarda seu retorno, e permanece fiel. Não é para menos…
Em sua turnê pela Europa, Edson Cordeiro vem apresentando “Klazz meets the voice”, show de lançamento do CD de mesmo nome, em parceria com o trio Klazz Brothers. Os músicos abrem o show com Jazz em harmoniosa convivência com Bach, Schumann e o prenúncio do que o público pode esperar com a entrada de Edson Cordeiro no palco. Desta vez, aliás, Edson entrou de mansinho, quando o Trio apresentava “Air del Oeste” ou “Spiel mir das Lied vom Tod”, arrepiando o público com o alcance de sua voz.
Presentes, ainda, Prince (“Kiss”) em parceria com Tom Jobim (“Corcovado”), que Edson Cordeiro oferece em bandeja de ouro sob seu talento teatral, como em tantos outros momentos de enlevo e de total fascínio de um público que raramente se dobra, como o daqui, como ao apresentar “Babalu”, “Sister” e “Creole love call”.
Requebrando e seduzindo a todos, sua introdução a “Carmen”, de Bizet, precedida de “Besame mucho”, em espanhol e contracenando com o Trio, Edson arrancou risos e surpresas da platéia, que nem precisou se esforçar para entender o que Edson dizia em língua desconhecida, pois que sua atuação como “El Torero” falou por si. Edson Cordeiro simplesmente se transforma em Carmen, sem precisar de figurino, maquiagem ou cenário. Neste ponto, o que me chamou, ainda, a atenção, foi que Edson possui algo que, até hoje, só constatei em três outros artistas – Bibi Ferreira, Oswaldo Montenegro e Cássia Eller: o brilho no olhar que se pode ver de qualquer distância. Um gigante que toma posse não apenas do palco.
A cultura popular brasileira não poderia ter sido apresentada com maior dignidade: em “Boi Bumbá”, de Waldemar Henrique, Edson dá um show de ritmo e de domínio vocal, após ter explicado o significado desta manifestação cultural brasileira.
Ninguém, na platéia, quer saber de final e a Lutherkirche, igreja na qual Edson Cordeiro se apresenta anualmente, aqui em Osnabrück, quase veio abaixo, já que o público daqui pede bis batendo palmas e os pés no chão com a força que lhe é possível.
Ao voltar ao palco, o tempero brasileiro prossegue, embora sob o sotaque musical do Trio, em “Girl of the night”, e coloca em total harmonia Tom Jobim e Mozart, com direito a samba no pé, com “Garota de Ipanema” brincando de “Königin der Nacht”, e substituindo os Rolling Stones da versão original com a saudosa Cássia Eller, no primeiro CD de Edson Cordeiro.
E novamente o protesto da platéia, que consegue, ainda, fazer com que o show se estenda e seja encerrado com a cantiga de ninar alemã “Guten Abend, Gute Nacht” e “My way”.
Coisa rara nesta região alemã? Público aplaudindo em pé. E Edson Cordeiro o foi por mais de uma vez. Os fãs já perguntam quando ele retornará, mas a turnê ainda se estenderá por mais de seis meses. Até lá, a sorte de poder ouvir o CD, que talvez seja lançado no Brasil, mas só depois da turnê européia.
CD “Klazz meets the voice” – Sony BMG
Vocal: Edson Cordeiro
Piano: Tobias Forster
Baixo: Kilian Forster
Bateria: Tim Hahn
* Tânia Gabrielle-Pohlmann e Clemens Maria Pohlmann são editores do boletim A CASA DOS TAURINOS ( a-casa-dos-taurinos@osnanet.de / rv@osnanet.de ). Esta entrevista pode também ser lida no portal suíco Brasilien Portal.
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