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Tribuna
Gustavo Castro e Silva


Nasci em natal, RN, tenho 38 anos. Aos vinte anos virei monge e esta experiência foi
determinante na minha formação. Cursei jornalismo e quase todo o curso
de filosofia. Fiz mestrado e doutorado na PUC/SP com uma tese sobre o
escritor Italo Calvino. Atualmente sou professor de estética e teoria
da comunicação, na Universidade de Brasília (UNB). Tenho oito livros
publicados: Ensaios de Complexidade (Ed. Sulina, 1997); Jornalismo e
Literatura - a sedução dapalavra (Ed. Escrituras, 2002); Complexidade
à Flor da Pele (Cortez, 2003); Sob o céu da cultura (Ed. Thesaurus,
2004); Filosofia da Comunicação (Ed. Casa das Musas, 2005);
Arvorescendo - livro para espíritos sensíveis (Ed. Casa das Musas,
2005); O Mito dos Nós - Amor, Arte e Comunicação (Ed. Funiversa/Casa
das Musas, 2006) e Italo Calvino - Pequena Cosmovisão do Homem (Ed.
UnB, 2007).



Taos

Para onde retorna a névoa após nascer o sol,
para dentro da casca da nuvem?

Para onde segue o sol após nascer a noite,
para o interior dos olhos das trevas?

Para onde vai a fumaça após o fogo,
para o íntimo da língua da chama?

Para onde mergulha a lua após a aurora,
para o peito da lembrança do louco?

Tudo volta para casa um dia.
Mas ao voltar nada é como antes.

Para onde retorna a palavra após a fala,
para dentro da alma do silêncio?

Para onde vai a criança após feito o homem,
para a alma do corpo do velho?

Para onde caminha a vida após a morte,
para o íntimo da força do nada?

Algumas fusões se completam na incompletude.
Algumas palavras são melhor ditas no silêncio.
Alguns amores se fazem redondos na solidão.
Alguns caminhos só começam no fim da jornada.

Todas as estradas levam para dentro.
Até mesmo as que levam para fora.

 

Amar alguém

Enxugar-se com a toalha molhada
para ter o outro na pele.
Deitar-se na cama dormida
para ter o outro nos sonhos.
Alimentar-se com a colher lambida
para ter o outro na boca.
Calçar-se com sapatos usados
para ter o outro nos passos.

O amor ao outro
é o mais difícil dos poemas.
E não é por rimar com dor e calor
mas por não rimar com nada.
Ou talvez por ser o próprio nada
a preencher espaços em tudo.

Para amar não precisamos do outro,
não precisamos nem de nós mesmos,
não precisamos de nada.
O amor é que necessita de nós
para continuar a ser ele mesmo.

Assim nos embaralha, corrompe, afaga:
o amor faz de tudo para não parar de amar.
Assim nos educa, destrói, desbarata.

O amor não está só no homem.
Vive dentro e fora dele.
Por isso precisamos da toalha, do colchão, da colher, dos sapatos...
Para que se possa também
enxugar-se com a pele do outro
deitar-se nos sonhos do outro
alimentar-se com a boca do outro
calçar-se com os passos do outro.

O amor ainda não aprendeu
que o homem não sabe amar.

 

Arvorescendo

Passamos as mãos nas árvores
e nos ombros tábuas,
em seguida,
esfregamos às costas cascas,
depois,
caibros nas pernas e nos pés
e florestas ao pensamento.
Até que farpas entraram
por todo o corpo.
E sentimos a sensação de ser
árvore.

 

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