
Colunas: VÉRTEBRA
Aos vinte anos de morte dos meus pais
por Rã Cinza
A invisibilidade dos mortos. Quando eu era criança... Lembro da tia, da tia da minha mãe, numa sala, deitada no caixão com as mãos sobre o peito. Eu era pequena e parecia que quanto mais eu olhava para ela, mais preste a acordar ela estava. Como se de uma hora para outra ela fosse abrir os olhos e se levantar, saindo de lá de cima. Lembro das suas roupas, pensava que morto tinha cheiro e, curiosa, pressentia um cheiro que não chegava.
A morte esta lá, tão próxima, imaginava como as pessoas dormiriam dali em diante, depois de serem visitadas pela morte, depois de verem que aquela pessoa tão cotidiana realizara sua última passagem naquela casa. Pensava naquela mulher velha, virando um fantasma e chegando à noite para retomar sua vida como um espectro. Olhava os rostos dos que moravam com ela e tentava adivinhar se eles já sabiam que a morte visitaria aquela que estava no caixão. Ela parecia dormir, só isso.
Minha mãe parecia ter um gosto por velórios, como minha avó. Só agora penso e acho que descubro uma solidariedade delas com os que ficavam, uma vontade de marcar presença, de demonstrar um destemor carinhoso, ora chorando, ora colocando a mãos nos ombros dos amigos e parentes daquele que estava sendo velado. Lembro-me até dos comentários mais tolos, sobre o café frio, ou a falta de comes. Essas observações levavam algo de leveza à cena irrecusável e irremediável.
Lá estava a morte, tão próxima, tão cotidiana e absoluta. Dentro da casa, um morto. De uma forma tão radical, explicitava o fim que a todos abateria. Para mim, aquilo era tão longe, coisa de gente velha. Para mim a morte nunca chegaria. Aquela primeira morta, com o nariz entupido de algodão, com um rosto tão estranhamente amarelo. Não me decidia se era rosto de velha ou rosto de morta, as duas coisas estavam tão juntas e conferiam uma verdade à vida. Dentro da casa, aquilo sim impressionava e muito. Era como se me desse um nojo. Como imaginar tomar água num copo, usar uma xícara usada há tão pouco tempo por uma pessoa que acabara de morrer? Acho que eu pensava que a morte era contagiosa. E é. Nascemos e morreremos, ainda é um fato.
Hoje a morte e seus costumes rituais estão mudados. Os mortos sumiram do mapa, das casas, só podem existir pouquinho, brevemente nos velórios dos ambientes de cemitério, para logo depois serem enterrados, esquecidos. Vi vários desses, mas o último morto de quem fui próxima e teve sua dignidade preservada, por ser suportado na própria casa, foi a minha amiga Mi.
Éramos jovens. Eu, bem mais velha do que nessa primeira lembrança da morta velha, que acabei de contar. Tinha uns 18 ou 19 anos, antes dos 20, porque essa idade é inesquecível, devido à morte dos meus pais, que também não foram guardados em casa, não tiveram seu velório residencial. Foram sepultados e rapidamente enterrados. Tudo tão rápido que não deu tempo nem para chorar, demorei três anos para sentir a ausência.
Quanto a Mi, morreu da mesma forma como morreram meus pais, acidente de carro. Pensando bem, rapidamente me vem de cara 3 pessoas que morreram assim. Acho que eu conheço mais mortos por acidente do que qualquer outra doença ou acontecimento mortífero recorrente. Guardo até hoje uma almofada de fundo preto com flores verdes pintadas, o tecido parece um veludo, já muito gasto. Ganhei da Mi quando eu tinha menos de 20 anos e, hoje, com 40... Nós éramos amigas, quando saí de casa com 17, ela me ajudou com algumas coisas, que enfiei num tipo de mala-saco. Saí brigada com minha avó. Lá estava a Mi ajudando com uma das alças, fomos de trem de São Paulo a Suzano. Na época, quantas e quantas vezes atravessei essas cidades do subúrbio de São Paulo, mas nesse dia de grandes emoções, lá estava minha amiga Mi, consolando minhas mágoas e ajudando com o peso da minha pequena, mas irrevogável mudança.
Não éramos daquelas amigas que andam por muito tempo grudadas, ficávamos próximas, gostávamos de colher umas flores nascidas nos terrenos baldios. Isso era para nós encantador, pensávamos no futuro, em filhos, guardávamos as flores em copos de requeijão. Na época, eu era da Convergência e a Mi não ligava muito para política. Ela morava em Suzano e volta e meia ficava na casa de alguém em Mogi. Um dia soube que ela morreu num acidente de carro, num lugar que sempre morria gente. Tem até uma lenda sobre o lugar, sobre uma nuvem malfazeja que, quando passa... um amigo da época, que estava naquele carro cheio de gente, foi o único que sobrou, escapou. Eu pensava nele. Como ele ficaria depois daquilo. Mas o que me interessa contar aqui é que a Mi foi velada na própria casa. Lembro da sua mãe. Foi a primeira sensação de morte e perplexidade. A maior delas, como acabei de dizer, foi a perplexidade advinda com a morte dos meus pais.
Mais que essas mortes, quis escrever sobre a morte e a invisibilidade dos mortos. Justamente hoje, quando a morte ficou com um jeito de coisa besta, um breve acontecimento. Parece até que as pessoas amargam mais porque não têm esse tempo de ver o morto, de olhá-lo no ambiente interno, no ambiente cotidiano. O morto tem de ser um passageiro, é jogado fora, jogado dentro da terra. Para não dar trabalho, talvez, para não deixar a sensação de que num tempo próximo ou não lá estaremos nós no seu lugar. Morte asséptica. É só encher de gente um recinto de passagem e tudo bem, joga-se o ser não mais funcional dentro da terra, lava-se as mãos, o corpo e tudo bem. Acho que os mortos deveriam voltar para casa. Deveriam fazer seu último trânsito, quietinhos e entre seus amores, entre seus familiares e amigos. Talvez estejamos perdendo com isso o sentimento trágico do último adeus. Talvez isso fosse vital até para melhor apreciarmos nossos vivos.
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| Ernesto Diniz é estudante de Letras na UFBA, webdesigner, diretor de arte, fotógrafo amador, escritor amador, humano amador e amante. |
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