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Colunas: CINEMA RISCADO
Papel de pão, guardanapo de boteco
por Renato Cunha



Sei que muita gente já ouviu falar em 16mm, 35mm, essas coisas. Mas, em algumas conversas cinematográficas, quando digo que a bitola do filme é tal, tem sempre uma testa se franzindo. Então, lá vai: bitola nada mais é do que o tamanho do filme, a largura dele, e compreende as perfurações, o formato e a banda sonora. Falei grego? Peraí.

Pensei em desenhar, mas, já que estamos numa crônica, vou ver se crio a imagem com palavras. Perfurações: microrretângulos laterais que permitem o encaixe do filme na câmera e no projetor (para os que ainda se lembram, tal e qual o filme fotográfico). Formato: área central onde aparece a imagem (idem). Banda sonora: gráfico óptico entre as perfurações da esquerda e o formato (assemelha-se a um eletrocardiograma). Bem! chega de papo técnico e vamos ao estético.

Nos anos 1920, quando o 16mm foi criado para satisfazer o mercado amador, e o amador nem sonhava que podia ser amador, a linguagem cinematográfica ainda engatinhava. Quem se arriscava no ofício estava mesmo era desenvolvendo movimentos de câmera, angulações, planos, montagem.

Na década seguinte, veio o 8mm, com suas câmeras e projetores compactos, queria descomplicar as filmagens caseiras, e conseguiu, e o amador sonhou que podia ser mais que amador. Já o 16, chutado pra escanteio, quis se tornar uma opção econômica ao 35, padrão comercial desde os primórdios do cinema. Não vingou. Existem mais coisas no mundo cinematográfico do que sonha nossa vã filosofia, ou melhor, há algo de podre no reino da cinematografia. Na segunda metade do século passado, num desencanto shakespeariano, o 16 foi resgatado pelas escolas de cinema: seria ideal para os exercícios fílmicos e para a produção de curtas-metragens experimentais. Tempo depois, a publicidade não vacilaria: era bom e barato.

Início de milênio. Num desses festivais por aí, ouvi Sérgio Santeiro — genuinamente curta-metragista — dizer que o 16 tem de ser encarado como variante estética da linguagem cinematográfica e que cada cineasta deve trabalhá-la da maneira que lhe for melhor, assim como o artista plástico opta pelas técnicas e materiais de sua preferência. Peço a palavra: impor o 35, como faz a indústria cinematográfica, através de seu tríplice poder (produção, distribuição e exibição), é ter, no mínimo, intenção de empurrar o cinema muito mais para o lado comercial do que para o artístico.

Em outro episódio, quando o vídeo surgiu, nos anos 1950, o cinema fez pouco caso: a imagem da fita magnética, artificial, não teria como competir com a imagem da película, orgânica. Logo se estabeleceu a diferença entre filmagem e gravação. A televisão, que transmitia apenas ao vivo, absorveu o vídeo — afinal ele havia sido concebido para ela — e o profissionalizou. Já a película, da forma que queria, continuou quase que restrita aos projetos cinematográficos. Hoje, a história é outra: o digital bate à porta, quer dizer, entra sem bater. As crianças são alfabetizadas audiovisualmente. Computadores, microcâmeras, celulares. Com um equipamento básico, qualquer pessoa pode fazer um filme, e divulgá-lo na internet, e até mesmo participar de festivais. Os cursos de cinema tiveram seus nomes mudados. Alguns resistiram. Vá lá, concordo: cinema é poético; audiovisual, um tanto teórico. Eis a briga, que gira muito mais em torno do título do que do suporte. Há muito que os estudantes só põem a mão no vídeo.

Cinema é movimento. E o maior dos tradicionalistas terá de rever seus conceitos. Chaplin se entregou à fala. Mas não nos enganemos. O mercado, o grande ditador, é perverso e tem fome, e a democracia audiovisual, ainda uma suposição, rapidamente será engolida. O digital terá seu primo pobre também, seja lá o que for.

Só que, nesse tacho high-tech, uma coisa não desanda: cinema que é cinema é poesia. Vídeo, 8, 16, 35mm... não importa. E poesia que é poesia fica boa até em papel de pão e guardanapo de boteco.

 

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Chico Lopes é escritor, pintor e crítico de cinema. Publicou os livros de contos Nó de Sombras e Dobras da Noite.


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