verbo21
créditoscontato
seções
selva studio webdesign

Colunas: CRÔNICAS HAVAIANAS
Eu, Adoniran e as mariposas na sopa
por Eliana Mara


“As mariposa, cuando chega o frio
fica dano vorta em vorta da lâmpida
pra sisquentar
elas roda, roda, roda, e dispois si senta
em cima dos prato das lâmpida
Pra discansá
Eu sou a lampida
E as mulé
É as mariposa
Que fica dando vorta
Em vorta de mim
Toda as noite
So prá me beijá”
As mariposas, de Adoniran Barbosa

 

Se a mitologia dos povos antigos tivesse dado formas de mulher, de fada ou ninfa, às semanas, como fêz com as horas, não me veria às vêzes em tão sérios embaraços para escrever esta crônica. Em lugar de estar a cogitar idéias, a parafusar novidades, e a lembrar-me de fatos e coisas passadas, pediria emprestado a algum dos tipos da grande galeria feminina as feições e os traços para desenhar o meu original.  Assim, quando me viesse uma semana alegre e risonha, mas muito inconstante, com uns dias cheios de nuvens, e outros límpidos e brilhantes, iluminados pelos raios esplêndidos do sol, uma semana elegante de teatro e ópera, imaginaria alguma fada de formas graciosas, de olhos grandes, com uma certa altivez misturada de uma dose sofrível de esnobismo. Pediria que me contasse, com tôda a graça e travessura do seu espírito, os segredos de suas horas e de seus instantes. É verdade que, quando me acertasse cair uma semana como esta passada, onde iria eu procurar um tipo, um modelo que a caracterizasse perfeitamente? Imagino que seria assim. Sua aparência valia um discurso; cada um de seus olhos era um sermão; na sua fronte estava estampada uma dissertação. Em linhas gerais, era uma aritmética ambulante. Com efeito, só êste tipo poderia dar uma ligeira idéia da semana passada, a qual num formulário de farmácia, podia bem ser traduzida pela seguinte receita: uma dose de sol, três de chuva, cinco de frio e oito de tédio. Os antigos, porém, que fizeram tanta coisa boa, esqueceram-se dessa invenção de personificar a semana, e por conseguinte não há remédio senão deixar as comparações visuais e voltar ao trabalho da crônica, desfiando fato por fato, dia por dia.

Um episódio esquisito ocorreu em sala aula, quando uma aluna deixou de cumprir sua tarefa e ao ser questionada, disse que era livre para decidir se fazia ou não, tanto quanto eu era livre para dar-lhe um zero. E que isso não deveria ser motivo para alterar nossa relação nem me deixar chateada. Diante de tal petulância, declarei que concordava, já que liberdade era um estado natural, quase divino, portanto inquestionável. Saiu da sala, rebolando e balançando as vinte e duas pulseiras de latão que comprou no camelô. Fiquei com cara de tacho, certa de que a aluna seguia seu caminho, livre e sonora, mas me deixava de mau humor e calada. Silêncio e mau humor eram meus dois estados mais naturais naquele momento. Se eu abrisse a boca, certamente seria processada por calúnia, difamação e ira.

Falando em humor, me lembro da situação constrangedora que vivi num jantar de família. O humor incômodo sobre a tragédia alheia surgiu, quando estávamos aguardando, para o jantar em família, o lombo de porco ficar assado no ponto certo. Pedi licença para dar retoques finais nesta crônica. Alguns minutos depois, ouvi a tão temida vinheta do Plantâo do Jornal Nacional. Esta vinheta existe, no imaginário do povo brasileiro, como o cego das tragédias gregas. Quando aparece, pode correr que lá vem bomba. Morreram aproximadamente 180 pessoas, num avião em chamas, que explodiu logo após ter tido dificuldades para aterrissar no Aeroporto de Congonhas. Meu genro, que havia chegado de Londres dias antes, saiu com a piada infame: pelo menos tiveram cremação gratuita e sem burocracia. Isso é que morte vantajosa: você morre e já sai cremado. Parece horrível de ler e ouvir uma frase dessas, em meio a comoçao nacional, mas eu e outras pessoas na sala, rimos discretamente. Ele pediu perdão a todos os deuses e invocou Freud, que compareceu dizendo que aquela piada embaraçosa, neste caso, seria melhor explicada não por suas próprias teorias a respeito do recalcado, da sublimação ou do chiste e sua relação com o inconsciente, mas pela velha sabedoria popular que diz que pimenta nos olhos dos outros é refresco.  A verdade é que meu genro estava sentindo grande alívio porque não teria que viajar nos próximos seis meses. Diga-se de passagem que ele é obrigado a viajar muito e morre de medo toda vez que entra no avião. Eu mesma me encarreguei presenteá-lo, no Natal passado, com um cantil belíssimo, prateado, onde ele pode colocar uísque suficiente para viajar bêbado.

O tema geral dessa crônica é a dificuldade de escrever crônicas nas férias em família e de ser bem humorado em terras frias. Os leitores merecem uma explicação e a possuo na manga: a garoa paulistana, que estimula o lado criativo de Adoniran Barbosa, bloqueia minha escrita. Para Adoniram, o efeito é contrário e foi numa dessas tardes de tédio e frio que ele, deitado em casa, observando a gota cair no balde, teve a genial inspiração para os versos da canção As mariposa. Na maior parte das vezes, escrevo as crônicas havaianas na filial brasileira do Havaí, que é a cidade de Salvador. Entre um parágrafo e outro, vou pra janela, olho para o mar e volto. Ou então, se me sinto bloqueada, e há um trecho que não consigo desenvolver, desço para ver a rua, respiro ar puro e tomo uma água de côco. Aqui em São Paulo, em pleno inverno, tenham paciência.

Logo de manhã, ensaio um bom dia bem educado aos habitantes da casa em que me encontro. A família exige minha companhia, durmo em várias casas num curto espaço de tempo. Apesar da gentileza de todos os meus parentes, devo confessar que meu sonho de consumo é um quarto de hotel no mínimo com tres estrelas, para garantir o essencial: uma cama confortável e o travesseiro que não maltrate minha coluna. Minha tia Cida tem a maior delicadeza do mundo e faz um virado a paulista que só ela, mas me obriga a dormir na cama de baixo do beliche, no quarto de meus primos. Enfim, já de mau humor pela coluna em estado lastimável, levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento - mas não encontro o jornal costumeiro. Aí me lembro de que não estou em casa e volto para o banheiro, ainda vago, o que garante que eu não encontre a pia cheia de cabelos e restos de fio dental alheio. Escrevi este parágrafo para recuperar e colocar em circulação uma palavra nova, ou simplesmente, em desuso. Fazer abluções é um modo muito mais denso de dizer que escovo os dentes e lavo o rosto. Apesar de possuir cafeteira e garrafa térmica, minha tia prefere repetir o ritual do café feito tradicionalmente, com filtro de pano. Gosto disso porque a meu ver, a cafeteira deixa a fumaça embutida e perde-se, assim a composição bem desenhada de uma imagem proustiana. Lá entre os franceses, a memória é ativada com a degustaçao de bolinhos, aqui no Brasil, principalmente entre os paulistas, a memória é ativada com a fumacinha saindo do coador de café.

Que estou fora de minha residência atual, vocês já sabem. Em tempos modernos, não é só das camas que reclamo. Já escrevi trechos desta crônica em pelo menos três computadores diferentes e tive que manter relacionamentos falsos com duas impressoras temperamentais. Ouçam o conselho que dou, de graça: nunca deixe a impressora saber que você está com pressa. Impressoras são seres complicados. Não tenho como provar isso cientificamente, mas minha teoria é a seguinte: impressoras são humanas. Os momentos em que a impressora se recusa a trabalhar são justamente aqueles em que você mais precisa que funcionem.

Impressoras deveriam ser como cachorros. Desde a antiguidade se diz que o cão é o amigo fiel do homem, o tipo e o modelo da amizade. Este consentimento unânime, diz um escritor francês, é singular revelação do caráter do homem. O cão obedece sem reflexões, se submete a todos os caprichos e a todas as vontades sem distinção; quando o castigam, em vez de se defender, joga-se aos pés do dono e acaricia a mão que o castigou. E é isto o que o homem chama um amigo! Já se vê que o sentimento não é tão nobre como o parece a princípio. Todas as vãs declamações dos poetas sobre esse animal, que dizem representar o símbolo da fidelidade, dão uma amostra da mesquinhez que habita o coração humano. Mas já que o homem contemporâneo depende das impressoras, que elas fossem então, como os cachorros. 

Isso tudo me lembra da relação que vejo entre terapia e o orçamento familiar. E da necessidade premente de fazer acertos psíquicos com as contas. Ou de encontrar modos alternativos de controlar seus gastos. Se voce pretende, por exemplo, comprar o casaco de seus sonhos, e tem apenas um décimo do valor total do mesmo, você pode planejar adquiri-lo em prestações. Faz uma previsão geral de gastos nos proximos meses e sai cortando despesas acessórias. De repente, analisando a planilha, nota que gasta muito em terapia. Síndrome do pânico, traumas de infância, fobias, separação do primeiro marido, a adolescência do caçula e as eternas brigas dos filhos mais velhos - que te lembram aqueles irmaõs da Bíblia-, o medo do avião cair com seu marido dentro, e a dificuldade de falar em público: apenas algumas das razões que explicam esse gasto mensal. Você coloca o casaco mais uma vez e dá uma circulada pela loja. As vendedoras fazem expressões de inveja explícita e aquela que está lhe atendendo, pensa na comissão. Você tira o casaco. Silencia. A vendedora não hesita: olha, vou ser sincera, esse casaco caiu como uma luva. Deixou a senhora muito elegante. Vai fazer sucesso. Não sei se as palavras são exatamente essas. Mas o conteúdo geral implícito é simples: compra logo que eu preciso almoçar e preciso dessa comissão porque nesse mês tenho que pagar dois meses de aluguel atrasado. 

Nesta hora, o embate toma conta de seu ser e o dilema hamletiano se instala: comprar o casaco ou ficar sem terapia, afinal a única despesa que voce pode cortar. Seu desejo de ter aquele casaco é imenso e então, você começa a esboçar uma estratégia para lidar sozinha com seus traumas e fobias por três meses. Confiante nos cálculos, sai da loja com o casaco, duas calças, uma camisa, três saias, a bolsa de couro preta e o cinto que combina. Imagino que você incluiu na lista dos problemas com os quais vai ter que lidar sozinha, até a mania de roer unhas e o hábito de dizer sim quando quer dizer não. Não importa. O casaco dos seus sonhos está no seu guarda-roupa.

Nessas férias de família vivi uma tarde de alegria com Bete, minha irmã mais velha, e suas filhas Natália e Isadora. Era final da tarde e estávamos tomando café com bolinhos de chuva, o que melhorou sensivelmente meu humor. Pergunto para Isadora, que também é minha afilhada, e está com 14 anos, o que ela vai ser quando crescer. E ela responde: médica. Minha irmã quase tem um ataque de risos, e como faz minha mãe, quando ri muito, ela se mexe toda e engasga. Depois de várias batidas nas costas e um gole de água, Bete tenta desfazer a cara de raiva de Isadora. Ela diz: ô, filha, desculpa, mas é que do jeito que você está na escola, não vai ser conseguir passar no vestibular de medicina. É um curso muito concorrido.  Minha afilhada nasceu sob o signo de Virgem e tem as respostas na ponta da língua, o que, dizem os astrólogos, é característica dos virginianos: Pois a senhora vai ver, vou entrar e ainda vou esfregar o diploma na sua cara. Eu senti que o clima estava esquentando e já ia saindo de lado, quando a Bete, rindo mais ainda, começou a falar: Pode esfregar, Isadora. Esfrega mesmo. O que eu mais quero é que você esfregue esse diploma na minha cara. Pode esfregar quantas vezes quiser. Claro que depois disso, quem teve ataque de risos fomos nós, inclusive Isadora.

O que me leva a conclusão geral sobre férias em família: nunca deixe que sua família impeça você de enviar sua crônica bem escrita e no prazo. Mas não permita jamais, que coisas de pouca importância impeçam você de estar aproveitando momentos bons em família. Trabalho é bom, dizem que dignifica o homem e quase sempre garante o pagamento das contas. Mas estar com as pessoas que amamos, vale qualquer sacrifício. Quedas de aviões, que não deixam sobreviventes, tem esse efeito sobre mim: agradeço até pela chance de dormir na cama de baixo do beliche de minha tia Cida. 

Hasta la vista baby

P. S: o humor desta crônica pede licença aos familiares e amigos das pessoas que perderam a vida neste acidente tão absurdo.

 

 

topo | página inicial

 


tribuna
entrevista
ensaios
opinião

colunas

crônicas havaianas
dagerreótipos
eros+errante
kaos kapital

verde
vértebra

 

artista do mês

Chico Lopes é escritor, pintor e crítico de cinema. Publicou os livros de contos Nó de Sombras e Dobras da Noite.


O QUE ROLOU ANTES

verbo21 vintage

 

LINKS

A Garganta da Serpente
Alexandre Marino
Állex Leilla
Antonio Cicero
Ateliê Editorial
Bagatelas
Bestiário
Bigorna.net
Cadernos da Bélgica
Carlos Barbosa
Carlos Ribeiro
Ciberarte
Cidade Devolvida
Correio das Artes
Cronópios
Desconcertos
Editora Círculo de Brasília
Entre Aspas
eraOdito
Fernando Pigeard
Glauco Mattoso
João Filho
Jornal Vaia
Madame K
Mayrant Gallo
Nacocó
Página da Cultura
Régis Bonvicino
Sandro Ornelas
Santiago Nazarian
Sebo Diadorim
Simulador de Vôo
Snowbros
UBE
Verdes Trigos

 

PARCEIROS

selva