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Colunas: DAGUERREÓTIPOS
De um diário de sonhos...
por Tom Correia

 

...era noite, eu viajava sozinho pela Itália e me sentia muito bem apesar de não saber ao certo no início, em qual cidade me encontrava. Depois percebi que estava em Roma. Me dirigi a um hotel para alugar um quarto simples mas que parecia ser o melhor do lugar. Minha bagagem era apenas uma mochila pequena e o recepcionista me explicou algumas regras do hotel. Fui para a rua. Perguntei em italiano, a uma mulher branca, bem solícita, onde ficava uma certa praça famosa. A mulher falava muito rápido, o que dificultou minha compreensão. Depois de chegarmos a um acordo quanto ao nome da praça, ela deu a entender que não seria fácil chegar até lá: o caminho era complicado. Não me importei muito com isso. Enquanto caminhava, me sentia imensamente feliz por ser a Itália o primeiro país estrangeiro que visitava. Vi uma parte do Coliseu, pintado de branco e, à certa altura, senti um nó na garganta. Quase chorei de emoção por estar andando naquelas ruas históricas. Mas achei melhor guardar o choro para quando eu conhecesse um lugar específico e mais solene, como uma praça ou monumento. Passei por alguns lugares estranhos, mal iluminados e percebi que andava pela parte feia de Roma. Logo depois cheguei a um lugar realmente importante. Um ponto obrigatório de visitação onde havia uma placa explicando que ali era parte original de um sítio de uma Era Antiga e que havia inspirado um famoso escritor a compor sua obra-prima. (Homero?). O ticket da entrada custava 18 dólares e fiquei na dúvida se deveria comprá-lo ou não. Conversei um pouco com o recepcionista quando um homem alto, de uns 50 anos, que parecia ser um tipo de gerente, me tratou muito bem, me oferecendo café e água. Agradeci a gentileza utilizando uma palavra errada para o momento, "volentieri", já que não quis beber nada. Mais tarde, voltando (?) ao lugar, encontrei Millôr Fernandes, a quem perguntei se valia a pena a visita. Ele me respondeu que seguramente valia. Comprei então o ticket apesar de estar com pouco dinheiro. Detalhe: a entrada só valeria para o dia seguinte, a partir das 18 horas.

Um pouco mais tarde encontrei numa espécie de parque ou feira de artesanato (com banquinhas cobertas por lonas amarelas), uma garota morena, simpática, de rosto familiar. Era brasileira e parece que estudamos na mesma faculdade. Ela estava com um italiano magro, de cabelos revoltos e olhos verdes. Pareciam namorados. A garota me explicou que o problema que ela estava enfrentando com hospedagem, pela qual era cobrado um absurdo: estava sem dinheiro, sem lugar para ficar e sem conseguir emprego. Quando voltei ao hotel, o recepcionista, de semblante frio, hostil, me explicou de modo mesquinho algo em relação às diárias. Tudo sairia bem mais caro do que imaginei. Comecei a ficar muito preocupado depois de fazer um rápido cálculo de cabeça e ver que com o dinheiro que possuía, cerca de 400 dólares, mal daria para ficar um mês, quanto mais quatro meses como eu planejava. Achei que não deveria ter forçado a barra para viajar logo, deveria ter esperado um pouco mais. Pensei que teria de entrar logo em contato com minha mãe para ela vender com urgência minha Nikon por algo em torno de 900 dólares. Talvez "D" quisesse comprá-la.

Na madrugada me vi entre dois grupos que se hostilizavam: um de brasileiros em dificuldades; o outro de italianos xenofóbicos. Havia um clima de grande animosidade e um confronto violento parecia iminente. Tentei timidamente uma solução pacífica, mas apenas eu queria uma conciliação. Pressenti que, sem dinheiro, em breve eu estaria na mesma situação do grupo de brasileiros. Lembrei que "J" provavelmente havia passado pelos mesmos problemas...

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Chico Lopes é escritor, pintor e crítico de cinema. Publicou os livros de contos Nó de Sombras e Dobras da Noite.

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