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Ensaio
O mundo dos adultos: preconceito e insensibilidade
Por Flávia S. Araújo*

                                                                                                      
                              
Numa pequena casa, mora a avó paterna e sua neta Guilinha, garota de apenas oito anos de idade, que é atrevida, divertida e brincalhona como qualquer menina da sua faixa etária.

 A garotinha gosta de conversar com todos e deseja sempre atenção, sonha em morar com sua mãe um dia. A sua avó não demonstra carinho, nem afeto por ela, pois não tem tempo e nem disposição.

Certo dia, Guilinha acordou toda feliz, vestiu sua farda do colégio e ficou esperando o transporte escolar para levá-la. A menina esperou, esperou e o carro não chegou. A avó ficou curiosa e, no outro dia pela manhã, perguntou ao motorista porque esqueceu de pegar sua neta. A reposta foi imediata, o condutor disse que a menina não teria aula naquele dia e que a própria criança avisou-lhe. A avó olhou para Guilinha e disse: − Como você mente, está de castigo sua miúda! no próximo final de semana não irá para a casa de sua mãe, sua fingida! Aquelas palavras entraram nos seus ouvidos, como um fogo, não acreditava no que acabara de escutar.

A garotinha ficou em silêncio total e não comeu naquele dia, pois estava muito triste. Chorou, gritou e falou que era mentira, era um engano, não tinha falado nada, apenas quando o motorista perguntou se teria aula no outro dia, respondeu assim: − não! É claro que vai ter aula. O condutor do veículo teria entendido errado.

A partir desta pequena estorinha é fácil pensar. Será que realmente a menina falou a verdade? Vocês acreditariam em Guilinha? A criança é mentirosa?

Porque será que muitas vezes não ouvimos, nem acreditamos numa criança. A voz dela não tem importância, somos adultos, preconceituosos, incrédulos e injustos. Na verdade, penso que: “O ser humano nasce bom e a sociedade o corrompe, eis a essência do pensamento rousseauniano”. (LÈMONGÉE, 2007, p. 2).

Os adultos é que corrompem o ser humano. As crenças e a moral da criança são traçadas pela cultura e ideologia dos pais que têm sempre direito de educar e os filhos o dever de obedecer. Para o filósofo Rousseau:

O mais forte nunca é suficientemente forte para ser sempre o senhor, senão transformando sua força em direito e a obediência em dever. Daí o direito do mais forte. (ROUSSEAU, 1991, p. 207)

Na cultura eurocêntrica brasileira, a vida das pessoas é repleta de desrespeitos, menosprezos e mitos.  Os marginalizados sociais como: crianças, mulheres, idosos, negros, homossexuais sempre foram e são sistematicamente acometidos por agressões físicas e morais.

A obra Manuelzão e Minguilim, na novela Campo Geral, Guimarães Rosa revela as várias faces do homem ocidental e a falta de sensibilidade para lidar com as diferenças. O narrador expressa muito bem a imposição de normas sociais, os tabus, a discriminação religiosa, os preconceitos raciais, sociais, sexuais e as atitudes prejudiciais dos adultos.

 

1. OS ADULTOS E O PRECONCEITO RELIGIOSO E RACIAL

A sociedade eurocêntrica será que tentou preservar ou respeitar os negros e as religiões afro-brasileiras?

Hoje vivemos e pensamos como europeus. Trabalhamos, amamos, rezamos e crescemos vinculados às crenças que nos foram impostas, porém com “pitadas” de tempero indígena e africano. As culturas dos povos autóctones e dos negros foram desvalorizadas e combatidas a ferro e fogo.

O cristianismo sempre se mostrou sensível ao pobre, mas implacável e etnocêntrico diante da alteridade cultural. O outro (o indígena e o negro) foi considerado o inimigo, o pagão, o infiel. (BOFF, 1992, p. 11)

Na novela Campo Geral, Guimarães Rosa demonstra como os adultos seguiam e preservavam alguns ideais cristãos e menosprezavam as outras manifestações religiosas dos grupos marginalizados. Os personagens da narrativa apresentaram características de censura e medo para com os costumes dos empregados da casa. Vó izidra era a personagem que mais rezava e que mais discriminava as crenças de Mãitina, a negra e a agregada da casa.

− Vovó Izidra ralhava. E reprovava Mãitina, discutindo que Mãitina estava grolando feias palavras despautadas, mandava Mãitina voltar para a cozinha, lugar de feiticeiro era debaixo dos olhos do fogo, em remexendo no borralho! (ROSA, 2001, p. 47)

A narrativa de Guimarães demonstra muito bem, como a família tentava manter o preconceito religioso e como o personagem Miguilim aprendia e duvidava de algumas idéias cristãs, pois gostava e tinha respeito pela personagem Mãitina.     − Eu gosto de Mãitina! Ela vai para o inferno? − Vai, Dito. Ela é feiticeira pagã. Dito [...] (ROSA, 2001, p. 50).

Na verdade, a personagem Mãitina era o adulto mais sensível da narrativa e que mais se aproximava de Miguilim. O pequeno garoto não tinha preconceito, gostava desta mulher que lhe dava atenção e respeito. Na verdade, ambos eram marginalizados sociais e criaram uma relação de afeto e amizade. Quando Dito, irmão de Miguilim, morreu criaram um local de representação do túmulo com pedrinhas e sempre visitaram para esquecerem o sofrimento, os dois sentiram muito a falta do personagem Dito.

O que eles dois fizeram, foi ela quem primeiro pensou. Escondido, escolheram um recanto, debaixo do jenipapeiro, ali abriram um buraco, cova pequena. De em de, camisinha e calça de Dito furtaram, para enterrar, com brinquedos dele. (ROSA, 2001, p. 124)

A novela Campos Gerais também demonstra a situação dos negros e sua forma de vida, pois apesar de ter a “liberdade” ainda prevalece à submissão social, continuam sendo escravos domésticos e não têm moradia digna. Os personagens negros da narrativa trabalhavam em troca de comida e abrigo e erão agregados da família. A personagem Mãitina já tinha sido escrava e teria fugido da sua vida sofrida, porém ainda continuava sendo discriminada.

Mãitina tomava cachaça, quando podia, falava bobagens. Era tão velha, nem sabia que idade. Diziam que ela era negra fugida, debaixo do cativeiro, que acharam caída na enxurrada, num tempo em que Mamãe nem não era nascida. (ROSA, 2001, p. 39)

A situação de vida dos negros e suas crenças precisam ser reavaliadas de forma bastante criteriosa, pois na sociedade dominada pelos brancos, o negro ainda sofre discriminação religiosa e social.  

 

2. AS CRENÇAS RELIGIOSAS E A SENSIBILIDADE DA CRIANÇA

A herança de crença e valores dos pais é muito forte no imaginário infantil. A criança absorve os medos, as supertições e os valores cristãos dos adultos inconscientemente.

O mundo da criança é sempre povoado de superstições e crendices que refletem o adulto. Algumas dessas crendices e superstições revelam bem o poder e a influência da religião com seu conceito de pecado, além de expressar também aspectos da cultura popular (MARQUES FILHO, 2007)

Como está presente no Campo Geral de Guimarães, o personagem Miguilim tinha muito medo de pecar, porém sempre observava a frieza dos adultos e a falsa solidariedade das pessoas. "Ah, não fosse pecado, e aí ele havia de ter uma raiva enorme, de Pai, deles todos, raiva mesmo de ódio, ele estava com razão" (MARQUES FILHO, 2007).

O personagem principal, permeado por valores cristãos, sempre tentava seguir o caminho do bem, obedecendo alguns procedimentos religiosos, como ficar rezando de joelhos, porém observava as roupas e objetos do Bispo. Sua vida era muito mais difícil e seus benefícios bem diferentes do que a vida do padre.

Agora, ele ia gostar sempre de Mãe, tenção de ser menino comportado, obediente, conforme o de Deus, essas orações todas. Bom era ser filho de Bispo, e o mundo solto para os passarinhos... Os joelhos de Miguilim descansavam e cansavam, doía era o corpo, um poucadinho só, quase não doía. (ROSA, 2001, p. 48)

O personagem Dito conhecia e conversava com o personagem Miguilim sobre os acontecimentos familiares, era necessário aprender a viver e a lidar com os adultos. Através desses diálogos, Dito transmitia força e futura esperança para seu irmão, pois o mundo em que o personagem Miguilim vivia era feito para pessoas ruins e não para seu pobre coração bondoso. “−’Dito, eu fiz promessa, para o Pai e Tio Terêz voltarem quando passar a chuva, e não brigarem, nunca mais[...]” (ROSA, 2001, p. 49)

 

3. ADULTOS E A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

As pessoas mais “fracas” fisicamente sempre sofreram na sociedade brasileira, as mulheres, as crianças e os idosos são vítimas de diversos abusos físicos e sofrem traumas psicológicos, às vezes irreparáveis, quando conseguem sobreviver. Muitas mulheres e crianças brasileiras sofrem violência doméstica e são espancadas constantemente, deixando abalado para sempre seu psiquismo.

Na novela Campos Gerais, a mãe do personagem Miguilim era uma pessoa muito sofrida e vivia muito infeliz, não gostava de morar ali, pois sofria agressões físicas e verbais do seu marido machista. Ela e o personagem Miguilim, criança de apenas oito anos, eram vítimas da ordem social estabelecida no ambiente nordestino.
− Não, não... Não pode bater em Mamãe,  não pode[...]
[...] e correu para a mãe, que estava ajoelhada encostada na mêsa, as mãos tapando o rosto. Com ela se abraçou. Mas dali já o arrancava o pai, batendo nele, bramando. Miguilim nem gritava, só procurava proteger a cara e as orelhas; o pai tirara o cinto e com ele golpeava-lhe as pernas, que ardiam, doíam como queimaduras quandos, Miguilim sapateando. (ROSA, 2001, p. 36)

Muitas pessoas que sofrem violência doméstica ficam com seqüelas irreparáveis. O garoto da narrativa de Guimarães Rosa tinha muita raiva do seu pai e lembrava sempre de suas ofensas verbais. O pai de Miguilim negligenciava este filho e era muito severo com ele, o próprio menino afirmava:

Pai já estava encostado nele como um boi bravo. Miguilim desquis de estremecer, ficou em pau, como estava. Já tinha resolvido: Pai ia bater, ela agüentava, não chorava, Pai batia até matar. Mas, na hora de morrer, ele rogava praga sentida.  (ROSA, 2001, p.139)
               
Os pais ainda continuam educando filhos de forma errônea e prejudicial. As crianças criadas no ambiente patriarcal poderão ser futuros adultos machistas e violentos.

A nossa sociedade brasileira precisa sair do patriarcado e aprender a respeitar as diferenças, um grande desafio social para os adultos.

 

4. OS ANIMAIS E O MUNDO DOS ADULTOS

O personagem principal da narrativa de Guimarães Rosa percebia a crueldade dos adultos e sofria muito, adorava animais, principalmente a cadela chamada Pingo-de-Ouro que seu pai entregou para uns tropeiros que passaram no local. 

[...] o pai de Miguilim deu para eles a cachorra, que puxaram amarrada numa corda [...] Iam para onde iam. Miguilim chorou de bruços, cumpriu tristeza, soluçou muitas vezes. (ROSA, 2001, p. 34)

A narrativa de Guimarães é marcada pelo sofrimento do garoto que sempre lembrava da sua cachorra e que depois passou a associá-la a Cuca, devido a uma estória popular de um menino que tinha achado uma Cuca no mato.

[...] e chorou tanto, que de repente pôs na Pingo-de-Ouro esse nome também, de Cuca. E desde então dela nunca mais se esqueceu.  (ROSA, 2001, p. 35)

A relação das pessoas com os animais e os maltratos fazia com que o menino da novela sofresse, na verdade, ele não queria crescer, não queria ser ruim como os adultos.

Miguilim inventava outra espécie de nojo das pessôas grandes. Crescesse que crescesse, nunca havia de poder estimar aqueles, nem ser sincero companheiro. Aí, ele grande, os outros podiam mudar, para ser bons – mas, sempre, um dia eles tinham gostado de matar tatú com judiação, e aprontando castigo, estas coisas todas, e mandando embora a Cuca Pingo-de-Ouro, para o lugar onde ela não ia reconhecer ninguém e já estava quase ceguinha. (ROSA, 2001, p. 72)

O personagem Miguilim era muito observador e sensível, parecido com o personagem principal do conto As margens da alegria de Guimarães Rosa. No conto de Guimarães, o menino estava mesmo à margem da alegria de todos que o cercava e também apresentava um conflito interno forte (angústias e decepções) ao conviver com os adultos e ao perceber que as pessoas não respeitam a natureza, nem os animais. “O peru−seu desaparecer no espaço. Só no grão nulo de um minuto, o Menino recebia em si um miligrama da morte. (ROSA, 1985, p. 5)

Na novela Campos Gerais, o personagem Miguilim, através de seu pequeno olhar, conseguia descobrir as formas de sobreviver na vida e estava conhecendo a difícil tarefa de conviver com os adultos. O menino visualizava pouco o mundo, era míope, mas tinha uma sensibilidade incrível para desvendar as crueldades e mazelas da sua vida.

Na narrativa de Guimarães Rosa os personagens não compreendiam Miguilim e sua irmã Chica, pois eram as crianças que não eram entendidas pelos adultos e que eram consideras rebeldes, não conseguiam seguir os adultos. A personagem Drelina era que representava o mundo dos adultos no meio infantil, era Drelina a irmã mais velha de Miguilim que sempre dizia palavras de ordem para os irmãos, acabando com a diversão e a alegria deles. “A Chica agora ria tão engraçado; então dizia que, fosse menino-homem, batia no Dito e em Miguilim. Drelina mandava que ela tivesse modo” (ROSA, 2001, p. 100).

O mundo dos adultos está permeado de desrespeitos pela natureza, animais e crianças. As crianças precisam obedecer ordens e os adultos pretendem guiar o modo de pensar das crianças. Nós adultos achamos que sempre somos os donos da verdade.

 

CONCLUSÃO

No início do ensaio lancei uma pergunta sobre a menina Guilinha. A garota mentiu ou foi um equívoco? Reflitam sobre a sinceridade de uma criança e pensem sobre formas de continuar educando pessoas sinceras e sensíveis.

Com este texto, não tenho intenção nenhuma em afirmar que todos os adultos são insensíveis, nem preconceituosos, apenas afirmo que a vida as pessoas passam a ser o reflexo dos valores impostos pela sociedade. 

Os valores morais dos adultos são montados no imaginário infantil e acabam perpetuando por toda a vida, passando de geração à geração e tornando-se um círculo vicioso.

A narrativa de Guimarães Rosa é muito rica e revela os preconceitos existentes na nossa sociedade. O livro produz uma grande reflexão de vida e um entendimento do mundo infantil, idéias que precisamos repensar, pois nós adultos achamos que temos sempre razão e precisamos na verdade aprender com a criança uma forma de mudar nossa sociedade. Precisamos aprender a respeitar as pessoas e os animais, grande lições do personagem Miguilim.


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