
Ensaio
O homem arquivado
Por Mônica de Menezes Santos *
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Antônio Cícero, 1996
Godofredo Filho. Foi no outono de 1998 que escutei esse nome pela primeira vez, quando – motivada pelo desejo de ampliar os meus estudos enquanto aluna de graduação do curso de Letras Vernáculas da Universidade Federal da Bahia – procurei a Prof.ª Dra. Elizabeth Hazin para candidatar-me a uma bolsa de iniciação científica no seu projeto de pesquisa intitulado Godofredo Filho: uma biografia intelectual e que tinha, como objetivo principal, a reconstituição da biografia do escritor a partir dos documentos encontrados no seu acervo .
Era maio daquele ano quando enveredei no Acervo de Manuscritos Baianos – AMB, como pesquisadora voluntária do referido projeto, tendo como tarefa inicial a triagem, leitura e digitação das cartas de Rodrigo Melo Franco de Andrade remetidas a Godofredo Filho. O contato inicial com o arquivo deste escritor foi de admiração e, por que não dizer, de alumbramento. Arrebatava-me a diversidade de coisas guardadas por aquele homem que, até então, eu apenas sabia – pelas palavras da minha orientadora naquela época – ter sido um poeta modernista de pouca projeção nacional, mas um dos precursores do modernismo na Bahia (na opinião de Eugênio Gomes, “[...] um dos melhores poetas brasileiros de sua geração” ) e colaborador da Revista Arco & Flexa.
“O homem encadernado” – é assim que Maria Helena Werneck define Machado de Assis, em livro homônimo que procura mapear o escritor nos inúmeros estudos biográficos feitos acerca da sua vida e obra. Sobre Godofredo Filho não encontrei inicialmente nenhuma biografia, nenhum texto, nenhuma referência bibliográfica, nas bibliotecas em que costumava freqüentar, além da sua coletânea de poemas Irmã Poesia. Mas, diante de mim, estava o seu Arquivo e, ali, os vestígios da sua história pessoal, intelectual, profissional, como também – porque ninguém vive fora de um contexto e de uma paisagem – muitos índices da história do seu tempo e dos seus lugares. Por tudo isso, comecei a pensar no escritor Godofredo Filho como um homem arquivado. Arquivado por ele próprio, uma vez que foi ele quem guardou e organizou incipientemente os seus documentos, separando-os em pastas, inventariando-os em séries.
E me vi instigada a refletir sobre o que levara um homem a se arquivar, a arquivar as suas histórias tão minuciosamente, preservando os menores vestígios. A cada gaveta aberta, a cada novo invólucro examinado, assaltava-me a surpresa e, algumas vezes, o susto. Cartas, originais (várias versões) de poemas publicados e inéditos, provas tipográficas, fotografias, diários, anotações biográficas, anotações de leituras, anotações de pesquisas, anotações de viagens, fichas de aulas, desenhos, croquis, aquarelas, diplomas, certificados, documentos pessoais e profissionais, recortes de jornais, periódicos, livros autografados pelo e para o titular, etc. São, todos estes, materiais que normalmente fazem parte do espólio de um escritor, entretanto, no arquivo havia também rolhas e rótulos de vinhos (dezenas deles), cardápios (de vários lugares do mundo, alguns enviados por amigos, como Jorge Amado e Zélia Gattai, Tales de Azevedo, entre outros), cachos de cabelos (do titular e dos seus filhos) e esqueletos de lagartixas. O poeta guardava, acondicionados em pequenos invólucros de papel de seda branco, os esqueletos das lagartixas – sempre batizados por nomes femininos no diminutivo – que apareciam mortas no seu apartamento, na Rua 8 de Dezembro, do Bairro da Graça da Cidade da Bahia, cuja varanda dava para uma densa mata habitada por lagartixas, sagüis e outros pequenos animais. Conheci, dessa maneira, as lagartixas mumificadas de Godofredo Filho. Todavia, nunca cheguei a descobrir o motivo de tal excentricidade, mesmo porque, como um dia observou o poeta Rainer Maria Rilke, “[...] as coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou.” Deixei, então, as lagartixas de Godofredo Filho no lugar do mistério...
“Não, eu não tenho medo de morrer; o que eu tenho é vergonha de morrer” . Essas frases, ouvidas da boca do seu avô materno, o coronel Manuel Eustáquio, ainda na infância, foram transformadas em versos pelo poeta. Foram anotadas algumas vezes no seu diário. Foram repetidas e reiteradas durante a sua vida. Godofredo Filho também tinha vergonha de morrer. Talvez por isso afastasse “[...] os índices brancos da velhice indesejada [...]” tingindo sempre os cabelos e os bigodes de negro. Talvez por isso apenas tenha admitido que os amigos muito próximos o visitassem quando no seu leito de morte. Talvez por isso o poeta escrevesse e reescrevesse seu diário obsessivamente, buscando no ato narrativo o dom contínuo da vida, como a Sherazade que se salvou da morte contando histórias para o sultão enfurecido. Talvez por isso tenha arquivado suas memórias, suas histórias, seus objetos, tentando evitar o esquecimento, a morte. Pois, como escreveu Jacques Derrida, em Mal de arquivo,
[...] não haveria certamente desejo de arquivo sem a finitude radical, sem a possibilidade de um esquecimento que não se limita ao recalcamento. Sobretudo, e eis aí o mais grave, além ou aquém deste simples limite que chamam finitude, não haveria mal de arquivo sem a ameaça dessa pulsão de morte, de agressão ou de destruição.
A morte parecia ser assunto de grande interesse em Godofredo Filho que, de acordo com seu amigo Luiz Viana Filho, contava a idade não pelos anos, mas pelas décadas, “[...] numa sábia maneira de prolongar a mocidade, ou pelo menos de ignorar o tempo.” Em seu acervo encontra-se um dossiê onde ele guardou recortes de jornais sobre notas de falecimento, nas quais aparecem destacadas à caneta as idades dos falecidos.
Eneida Maria de Souza, em Pedro Nava - o risco da escrita, chama atenção para o “museu imaginário” constituído por esse escritor na sua casa, a qual se tornou um repositório de lembranças de amigos e familiares, simbolizadas pelos retratos, pelos móveis, pelos objetos, pelas cartas, pelos livros e transformadas em texto em suas memórias. Ao constituir o seu arquivo, Godofredo Filho também colecionou as suas memórias e, como Nava, transformou-as em um texto – escrito e reescrito ao longo de cinqüenta anos (1937–1987) que ele mesmo denominou como seu diário íntimo.
“Diário”, “Meu diário”, “Diário íntimo”, “Fragmentos de um diário”, “Notas para um diário”, “Subsídios para um diário” são alguns dos títulos em torno dos quais ele reuniu, em épocas distintas de sua vida, os textos que ia compondo. Na realidade, seus escritos arquivados correspondem a trinta e três anos desses cinqüenta e cinco referidos anteriormente, uma vez que em vinte e dois deles nada escreveu (ao menos é o que se deduz, pela ausência no arquivo de escritos nesse período). Consta no seu acervo um total de 790 peças documentais referentes ao diário, embora essa totalidade corresponda tão somente ao relato de 349 dias, o que é muito pouco se considerarmos a intensidade declarada de seu desejo de registrar a vida. Isso significa que essa “duplicação” do material escrito em relação ao número de dias anotados advém do fato de que refazia os textos escritos, em alguns casos existindo mais de dez versões de um mesmo dia. Em 1944, só para citar um exemplo, ele registra apenas 24 dias, mas existem 98 versões desses escritos. Em uma entrevista publicada, em comemoração ao seu octogésimo aniversário, o poeta, quando indagado sobre a existência de algum novo livro seu em andamento, refere-se ao diário explicando-o:
Dedico-me à revisão do meu diário, que pretendo publicar em parte, proximamente, sob o título geral de MEMÓRIA DA MEMÓRIA. Disse publicar em parte porquanto fragmentos dele, dos mais ponderáveis, só virão a lume do público dez anos depois de se me apagar o lume dos olhos. [...] E assinale que não se trata de diário sentimental ou piegas, de acontecimentos íntimos ou estritamente pessoais que só aos protagonistas devam interessar, mas, em forma límpida e bem cuidada, de um vasto painel onde estão fixados e comentados certos acontecimentos literários, políticos, sociais e religiosos, de que fui testemunha ou acaso comparsa, e por onde desfilam alguns escritores, políticos e homens do mundo, com quem convivi ou de quem fui contemporâneo. Também, as paisagens inolvidáveis deste e de outros continentes, os vinhos inesquecidos, as comidas, as músicas, as luzes extintas, ao par de comentários sobre livros lidos.
“Escrever é um caso de devir [...]” , segundo Gilles Deleuze em “A literatura e a vida”. É um processo sempre inacabado em busca de um desvio: desvio da ordem em busca de outra ordem; desvio da realidade em busca da verossimilhança; desvio do eu em busca de outros eus; desvio da doença em busca da saúde (sim, porque a literatura é um empreendimento de saúde , a invenção daquilo que falta); desvio da morte:
Só uma coisa me força, violentamente, a escrever e legar aos meus vorazes herdeiros esta confissão cruel: é o medo invencível do esquecimento, o horror à morte sem possibilidade de lembrança.
Somente quando adoeceu, quando não tinha mais forças para escrever (“a doença não é processo, mas parada do processo [...]” ), o escritor entregou a versão definitiva do diário ao seu dileto amigo Fernando da Rocha Peres, para que fosse publicado dez anos após a sua morte . Morte esta que o foi levando lentamente, talvez porque se recusasse a morrer, como testemunhou o amigo Edivaldo Boaventura:
Godofredo foi nos deixando aos poucos e partiu, finalmente, em 22 de agosto de 1992, e deverá dormir “ao acalento daquele céu tão manso... o grande sono sem felicidade ou tortura de sonho.”
Memória da memória que não se quer esquecida: o diário, o arquivo. Ambos são locais de poder. Poder de um discurso que se inscreve, que se imprime, que se consigna. E é Jacques Derrida, no livro citado, quem nos lembra dos dois sentidos etimológicos da palavra arquivo (arkhê): começo (princípio da natureza ou da história) e comando (princípio da lei, da ordem social). Partindo dessas duas acepções, pode-se pensar o arquivo de Godofredo Filho tanto como um “lugar de começo”, onde o escritor guardou os indícios das suas histórias “originais” – genealogia familiar, dados pessoais, referências literárias, referências profissionais, histórias da cidade, etc; quanto como um local de comando, de autoridade sobre aquilo que deverá ser lembrado, o que Derrida designou de “poder de consignação”, ou seja, a ação de sistematizar e sincronizar o conjunto documental de modo a adquirir uma configuração ideal, homogênea. Aí reside o mal dos arquivos, pois, manipulando a memória, o Arconte, o “dono do arquivo” , exerce um poder sobre os documentos e pode dissimular, destruir, interditar ou desviar as informações, tornando o arquivo excludente e repressivo.
O arquivo é uma instituição onde o Arconte pode ou tenta controlar a memória: o que guardo é o que sou, ou aquilo que quero que pensem que sou. Mas esse poder, como todos os outros, pode ser revertido, o arquivo primordial pode ser violado e lido de outras maneiras, sob outras ordens, criando-se, dessa forma, uma nova ficção do saber, um novo arquivo. Talvez seja esse o meu papel, enquanto leitora do Arquivo Godofredo Filho, local onde exercito, ainda que precariamente, a capacidade de “[...] identificar, distinguir, aproximar, reconciliar ou conflitar desejos, valores e forças até então arquivados e num certo instante entregues à desumana selvageria do não saber, do não lembrar” , para citar Roberto Corrêa dos Santos, em Modos de saber, modos de adoecer.
O arquivo é meu, porque sou eu quem o manipula agora, nessa minha sede pelo arquivo, pela memória, por compreender (pulsão de amor e de morte), mas também poderá ser do outro, pois o movimento da pesquisa implica em tornar o arquivo vivo, pulsante, e em escancarar as suas portas. Não, engano-me, neste caso, é apenas uma fenda que se abre.
Mestre em Teorias e Críticas da Literatura e da Cultura pelo Programa de Pós-Graduação em Letras e Lingüística da UFBA, tendo defendido a dissertação: Arquivografias: Goodofredo Filho e as suas Bahias, e doutoranda neste mesmo programa.
Arquivo adquirido, desde dezembro de 1995, pelo Programa de Pós-Graduação em Letras e Lingüística da UFBA e acondicionado no Acervo de Manuscritos Baianos (AMB) da Biblioteca Central da UFBA.
GOMES, Eugênio. O cinqüentenário de um poeta. In: Jornal A tarde. Salvador, 01 de abril de 1954. p. 16.
Cf. WERNECK, Maria Helena. O homem encadernado: Machado de Assis na escrita das biografias. Rio de Janeiro: Eduerj, 1996.
RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. Trad. de Paulo Rónai. 30 ed. São Paulo: Globo, 1999. p. 21.
GODOFREDO FILHO. O avô Manuel Eustáquio. In: Irmã poesia: seleção de poemas (1923-1986). Rio de Janeiro: Tempo brasileiro; Salvador: Secretaria da Educação e Cultura da Bahia; Academia de Letras da Bahia, 1986. p. 339.
FERREIRA, Jerusa Pires. A poesia em galego de Godofredo Filho: entre sol e sombra. In: MONTEIRO, Xesús Alonso; SALGADO, Xosé M. (organizadores). Poeta alófonos em língua galega. Atas do I Congresso. Santiago de Compostela, 1993. p. 213.
DERRIDA, Jacques. Exergo. In: Mal de arquivo: uma impressão freudiana. Trad. Claudia de Moraes Rego. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001. p. 32. (grifo meu)
VIANA FILHO, Luiz. As mil faces do poeta. In: Jornal A tarde. Salvador, 26 de abril de 1984. p. 11.
Cf. SOUZA, Eneida Maria de. Pedro Nava: o risco da escrita. Juiz de Fora: FUNALFA Edições, 2004.
Godofredo Filho em entrevista a Remy de Souza. Cf. SOUZA, Remy. Entrevista com Godofredo Filho. In: Diário Oficial. Salvador, 26 de abril de 1984. p. 8.
DELEUZE, Gilles. A literatura e a vida. In: Crítica e clínica. Trad. Peter Pál Pelbart. São Paulo: Ed. 34, 1997. p. 11.
Texto de Godofredo Filho encontrado no seu acervo, sem título, mas com uma anotação manuscrita feita pelo poeta com os seguintes dizeres: “Dois capítulos de um romance inacabado”. Cf. GODOFREDO FILHO. Dois capítulos de um romance inacabado. In: Série escritos. Arquivo Godofredo Filho. Biblioteca Central da UFBA. Salvador. Bahia.
DELEUZE, Gilles. A literatura e a vida. In: Crítica e clínica. Op. Cit. p. 13.
Quinze anos já se passaram e sabe-se que Peres está preparando a publicação. Não existe no acervo cópia da versão final do diário.
BOAVENTURA, Edivaldo M. Irmão feirense. In: Jornal A tarde. Salvador, 24 de abril de 2004. p. 4.
Esse “dono do arquivo” pode ser o próprio autor, a família, herdeiros de qualquer instância, pesquisadores, institutos de ensino e pesquisa, governo, etc.
SANTOS, Roberto Corrêa. Modos de saber, modos de adoecer: o corpo, a arte, o estilo, a vida, o exterior. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1999. p. 13.
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| Chico Lopes é escritor, pintor e crítico de cinema. Publicou os livros de contos Nó de Sombras e Dobras da Noite. |
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