
Ensaio
Salve o mundo comendo pipoca
Por Lúcia Evangelista*
Como fica a nossa capacidade de mudar as coisas num tempo em que Che Guevara é estampa de camiseta e Geraldo Vandré, tema de comercial do Governo Federal? O que está por trás da onda de culpa e frustração que domina o dia-a-dia de toda pessoa comum? Por que quando a gente pergunta pra uma criança "o que você quer ser quando crescer" a resposta não é mais bailarina ou astronauta, mas advogado de uma multinacional? O que um hamburguer na chapa tem a ver com o aquecimento global? E por que o seu chefe tem muito, mas muito mesmo, mais grana que você?
Poucas vezes a gente pára e pensa sobre essas coisas. A gente vai engolindo o mundo, sempre sentindo que há algo que não está certo, sempre sentindo um gosto meio podre, uma vontade de vomitar. A gente no fundo sabe que é injusto dedicar mais tempo pras coisas dos outros que pro sonho da gente. A gente sabe que a maioria do que a gente assiste, lê e consume é besteira. A gente sabe que o que estraga o mundo é o carro que a gente dirige, o supermercado que a gente faz, a roupa que a gente veste. A gente sabe disso tudo. Mas aí vem a vinheta da novela, a correria do emprego e um Sonrisal pra fazer tudo descer facinho. E o mundo vai engolindo a gente. E a gente, com carinha de intelectual, se conforta em ficar falando que a geração de hoje não pensa, que a geração de hoje não se mobiliza, que a geração de hoje não tem jeito. Como se a geração de hoje fosse uma entidade, como se a gente fosse velho ou novo demais pra se incluir nela.
É certo que há por aí um crescente frenesi revolucionário, um questionamento dos modos de consumo, uma vontade de levantar a bandeira do “a gente é capaz de fazer algo que preste”. A legião da boa vontade vai do Globo Repórter à MTV, da vovó à galerinha. Por sinal, a revista da MTV de junho é toda sobre a questão da interdependência, a história de viver em comunidade e tal. Traz uns artigos realmente bons sobre o tema. Um especialmente interessante é uma entrevista com o Kalle Lasn, idealizador do Adbusters, movimento que criou a ação Buy Nothing Day. O lance é bem simples: na última semana de novembro, ninguém compra nada, nadinha, nadica. Já é meio onda em 65 países. Outra entrevista boa é a com João Gordo. O cara não é nenhum estudioso, nem entendido do assunto, mas na tiração de sarro, as opiniões dele conseguem ser um tanto clarividentes.
Enfim, o que não falta é gente fazendo artigo, entrevista, jeans, boleto bancário encima do tal desenvolvimento sustentável. A intenção pode até ser boa, mas acabo achando que mais uma vez pegaram uma questão fundamental, rotularam e colocaram na prateleira. Fico voltada a ter mais respeito pelas manifestações meio foras do senso comum ou que já demonstravam preocupação com o futuro antes dele virar um aspecto tão viável comercialmente.
Entre essas manifestações, a grande maioria a que tive acesso são filmes. Nenhum deles é um nhém-nhém-nhém pelo bem-estar das pessoas ou muito menos mostram um fio de esperança e felicidade nas nossas ricas vidas. Por isso mesmo são ótimos para levar a pensar, porque deixam um oco, ou melhor, nos dão conta que esse oco existe.
Lá vão eles:
1 A TERRA TREME Luchino Visconti- Itália - 1948. É antiguinho e em preto e branco. O filme fala da luta de uma vila de pescadores para trabalhar com liberdade e dignidade. Os atores do filme são pescadores de verdade.
2. EDUKATORS Hans Weingartner - Alemanha -2004 Um verdadeiro tributo à revolução em tempos pós-modernos.
3. CORPORATION. Mark Achbar e Jennifer Abbot - Canadá - 2004. Documentário bem didático sobre a estrutura das grandes coorporações.
4. SURPLUS. Erik Gandini - Suécia. Também um documentário. Um amigo meu que me emprestou e disse que baixou na net, porque o filme é complicado de encontrar em locadora. A estrutura dele é bem dinâmica e divertida, meio video-clipesca, na linguagem própria dos vídeos dos adbusters.
5. DOGVILLE. Lars Von Trier - EUA - 2003. Não é uma novidade, mas dialoga muito bem com os demais. Recomendo que você o assista por último, já que é o que menos dá os caminhos prontos.
6. CLUBE DA LUTA. David Fincher – EUA – 1999. Outro que é bem midiático, mas indispensável. A filosofia do filme é mais ou menos a seguinte: não dá pra resolver nada se não for na base da porrada.
7. PONTO DE MUTAÇÃO. Não assista quando estiver com sono porque o filme é basicamente um diálogo entre três personagens: uma física, um político e um poeta. De repente é até mais vantagem ler o livro no qual se baseia (escrito pelo físico Fritjof Capra com o mesmo título). O bacana dele é que traz argumentos mais científicos, fazendo um contraponto que vai de Decartes à física moderna. Para mim, o ponto alto fica por conta da declaração arrebatadora do poeta bem no finalzinho do filme.
* 27 anos, brasileira, mulher, sabe se lá de que cor. Estudante do último semestre do curso de Letras-Literatura na Estadual do Ceará. Exerce sua ironia trabalhando como redatora publicitária. Com essa profissão consegue pagar seu cartão de crédito e, às vezes, até comprar uma alface sem agrotóxico. Publica micro-contos e outras coisas pequenas no burilandoacuca.blogspot.com.
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