
Ensaio
A primavera da nossa desesperança
Por Lima Trindade
A editora Língua Geral lançou recentemente “dicionário de pequenas solidões”, uma antologia de contos de Ronaldo Cagiano. O livro integra a coleção “ponta-de-lança”, que tem como objetivo divulgar o trabalho de novos ou pouco conhecidos autores que escrevam em língua portuguesa. Deste modo, foram selecionados os mais representativos contos dos dois últimos livros do autor, “Dezembro Indigesto” (2001) e “Concerto para Arranha-céus” (2004), ambos distribuídos por pequenas editoras e com tiragens modestas.
A edição se destaca pela beleza do seu projeto gráfico, oferecendo ao leitor um produto em que a embalagem é tão importante quanto seu conteúdo. Nada mais justo. Tratando-se de literatura, Cagiano merece o que há de melhor. Há muito ele vem militando em prol das Letras Nacionais. Quem acompanha os jornais e revistas especializadas já se acostumou a ler tanto sua ficção quanto seus ensaios críticos. Mineiro de Cataguases, até bem pouco tempo radicado em Brasília, organizou diversas antologias de poetas e contistas na Capital Federal. Além disso, venceu os concursos Prêmio Ignácio de Loyola Brandão e Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, recebendo, ainda, elogios de ninguém menos que o crítico Wilson Martins em sua coluna do Jornal do Brasil.
O grande mérito da Língua Geral, em “dicionário de pequenas solidões”, está na harmonia com que foram distribuídos textos de dois livros completamente diferentes, preponderando, como espinha dorsal, nove contos – e não onze, conforme descrito na nota da edição – de “Dezembro Indigesto”, sendo que um deles teve seu título alterado de “Protuberâncias da solidão (ruminações de alcova)” para “Solidão”. Foi uma escolha feliz dos editores. “Concerto para Arranha-céus” é um trabalho que não teve a mesma pulsão criativa de seu antecessor. Questiono-me a razão. Talvez por apresentar um estilo e tema que se conformariam mais adequadamente ao romance do que ao conto: a sátira política nos moldes adotados por um Lima Barreto ou Jonathan Swift. Não importa. O fundamental é que os contos de “dicionário de pequenas solidões” formam um grupo coeso e afinado.
Ronaldo Cagiano exibe nesta antologia uma visão apurada das transformações políticas e sociais que vivenciamos antes e depois da queda do Muro de Berlim. Suas personagens são conduzidas por situações limites em que se demonstra a falência das utopias, tanto capitalistas quanto comunistas. A sobrevivência cotidiana deixou pouco espaço para o sentir. E o resultado disso tudo se traduz numa insofismável solidão.
O pano de fundo das narrativas oscila entre o passado na cidade do interior e o presente na capital, sem incorrer jamais em nostalgia ou deslumbramentos. Em ambas impera a injustiça, a pobreza e a corrupção. Um único fio separa as duas. Ele está simbolizado em “Pavlov”, um dos cinco contos irrepreensíveis desta coletânea – os outros são “O abuso”, “Encontros”, “O rosto perdido” e “Tangerine dreams”. O título é deliciosamente irônico. Pavlov foi o cientista que descobriu o reflexo condicionado por meio de experiências com cães, dando suporte ao behaviorismo, uma teoria proposta por Watson e que compreendia o aprendizado do ser humano por meio da observação e imitação do comportamento dos outros, reagindo sempre por influência do ambiente externo. Bratislava e seu cachorro Pavlov vivem sós numa cidade do interior do Brasil, onde, viúva, trabalha como doméstica. Nascida em Vladivstok, foi perseguida por stalinistas na juventude, a mãe, morta nos gulags. Sempre que chovia e relampejava, ela gritava feito uma louca, acompanhada pelos latidos de seu velho cão. Será no aniversário da Revolução Russa que encontrarão seu corpo, putrefato e esquecido ao lado do cadáver de Pavlov, provavelmente morto por inanição. A linguagem apresenta diversas correspondências em suas imagens: a chuva e os relâmpagos como guerra; os gritos e ganidos como a dor da perseguição, o condicionamento; a morte das personagens como o fracasso da proposta comunista, última pá de cal no sonho da utopia marxista. Até a queda do Muro, o único alento das personagens estará na espera que dias melhores virão. E, depois da Queda, da “vitória” do capitalismo, da Globalização, a vida não será melhor. A mercantilização robotizará o ser humano, tirando-lhe o sentido e a vontade de viver.
Um exemplo da superposição destes dois mundos dicotômicos (interior/capital, passado/presente, atraso/tecnologia, ignorância/cultura, etc.), resultando numa leitura irônica da realidade por sua negação de valores, está num conto menos ousado esteticamente, “Juízo final”, onde Renan, o filho mais novo, confidencia para um expectador que não interage na conversa o rancor que sente de seu irmão Bruno, por deixar a ele e os pais no interior e seguir em busca do sonho na cidade grande. Renan é obrigado a ficar e assumir as atividades pecuniárias da família. Certo dia, o delegado bate à porta de sua casa para noticiar a morte de Bruno, assassinado numa boca-de-fumo. O irmão mais jovem então passa a se culpar pelo acontecido. A cena familiar e a oposição entre interior e capital serão melhor exploradas nos contos “A marca”, “Figaro” e “Horizonte de espantos”, utilizando o lirismo para evocar a memória com maior delicadeza e desenvoltura.
Dentre as escritas que falam da penúria e da solidão contemporâneas, destaca-se o conto “O rosto perdido”. A partir de uma epígrafe de Lúcio Cardoso, Cagiano constrói uma história em que Stelamaris, caminhando na rua, ouve seu nome ser chamado duas vezes. Pronto. Está criado um clima de suspense e estranheza. Ela não tem certeza de quem a chama. E logo se vê encantada. Ninguém em especial a observa. Ela supõe ser o homem apressado de terno o autor do chamado. E resolve segui-lo. Stelamaris é casada e tem filhos. Mas não está salva da solidão e da carência. A melopéia da repetição do nome no decorrer do texto (Stelamaris! Stelamaris!) nos remete ao poema “O Corvo”, de Edgar Allan Poe (“Nunca mais, nunca mais”). Seria aquele chamado um produto da imaginação da personagem? O estranho, a representação de um “príncipe” inalcançável? Ou seria, tal como em Poe, a corporificação da sua própria morte? Esta uma morte diferente, uma aniquilação das potencialidades da paixão humana, uma prisão numa vida burocrática e rotineira? Os contos “O abuso”, “Tangerine dreams” e “Todas as estações” caminham num mesmo sentido de supressão da ingenuidade.
É possível que o leitor se pergunte: neste contexto sombrio e pessimista, restará alguma saída? Tal como os bons escritores, Ronaldo Cagiano não oferece fórmulas, não busca correligionários, ele nos permite entrever unicamente indícios de que num mundo de transformações eternas, não podemos simplesmente nos contentar com o que temos, mas fazer da indignação mola propulsora da vida. E quando estivermos cansados da luta, tentarmos fazer como Kafka, também uma personagem de Cagiano em “Encontros”, que empreende uma viagem a Cataguases, com o intuito de se juntar a um grupo para quem a Arte era a vida e vice-versa.
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| Chico Lopes é escritor, pintor e crítico de cinema. Publicou os livros de contos Nó de Sombras e Dobras da Noite. |
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