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Colunas: KAOS KAPITAL
Só sei que foi assim
por Alex Cojorian


Eu sei que na Bahia não foi assim tão bom, mas foi quase.

Estava eu em Alto Paraíso, mais cismando com os ovnis que nunca vêm pousar no discoporto que há por lá, e mais me preocupando onde é que eu daria o próximo jump na cachu, que é como se diz por aqui, escornado numa cadeira de ferro, olhando para o nada – ou melhor, para o azul infinito no final da tarde –, naquela leseira pós-prandial sem hora certa... foi quando a tv me chamou. Até me aprumei, larguei a lombra de lado, me levantei e fui ver a notícia na tv que tinha lá dentro da lanchonete. E não é que eu tinha escutado certo mesmo? O ACM tinha mesmo batido as botas. E isso morre?

Como assim, depois de mais de quarenta anos de cacicado, e ruindades muitas e variadas, o sujeito sai assim, sem mais nem menos?

Seguindo-se os dias, achei incrível o pouco rebuliço que o passamento do dito cujo operou. Quase nada. Fosse outro tempo, há uns vintes anos, aí sim, ia ser um acontecimento. Depois fiquei pensando: também, o último grande acontecimento na vida dele foi a morte do filho, que lhe antecedeu o passo em quase dez anos.

A única coisa digna de nota em tudo isso é que não embarcaram o ex-vivente em Congonhas de jeito nenhum, preferiram Guarulhos, era mais certo o corpo chegar íntegro na Bahia.

Em tempo de desastres aéreos – e terrestres também: como é que brasileiro consegue ser atleta com menos de dois salários mínimos? Atleta da fome, atleta com fome, atleta tem fome... roqueiros bem alimentados já fizeram a pergunta sofística décadas atrás: “você tem fome de quê?” Enfim, numa semana em que não sobra espaço pra mais nada na mídia – essa sim, está bem nutrida: sangue e desgraça pra um lado e muita graça pro outro, troféu, medalha e o milagre dos atletas da fome (os nossos) – sai de cena, com passo acanhado, um indivíduo que controlou o destino de tanta gente, por tanto tempo...
Na verdade acho é pouco, fiquei foi satisfeito, claro. Um porque o peste foi embora mesmo, dois porque a pouca retumbância que o malvadão causou na saída só pode mesmo significar que esse tempo cretino de repressão das nossas liberdades, da nossa vida, do nosso futuro, está decididamente acompanhando o cidadão do mau pra dentro da cova. Pá de cal neles, Bahia!


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Chico Lopes é escritor, pintor e crítico de cinema. Publicou os livros de contos Nó de Sombras e Dobras da Noite.



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