
Tribuna
Três mini-contos de Jango Rodrigues
JANGO RODRIGUES é o pseudônimo de um jornalista e pesquisador carioca, que tem um homônimo que escreve ficção. Oxóssi na cabeça, sangue O positivo, Câncer com ascendente Gêmeos, Boi no horóscopo chinês. Não fornece seu e-mail a ninguém, já que de perto ninguém é normal. Mas jura que não tem medo de gente.
BRIGAS NUNCA MAIS
De repente, o encontro semanal entre os dois virou um inferno.
Chicão estava com a macaca. Reclamava da vida, como sempre, mas dessa vez em voz alta, agitado. Armou o maior piti, exigiu dinheiro na frente dos fregueses e garçons do bar favorito que freqüentavam há mais de 10 anos. Entrou em detalhes da vida sexual a dois, xingou o outro de viado velho, de filho da puta, coisas ainda piores. Terminou saindo aos gritos de “tudo acabado entre nós” e quebrando no chão o prato de lasanha.
Houve um silêncio constrangedor.
Ronaldo a princípio não entendeu, fragilizado. Ouviu tudo em silêncio, pedindo que o chão abrisse e o engolisse, livrando de tanta vergonha. Não chorou, nem levantou a voz. Depois, já no metrô de volta pra casa, filosofou sobre a luta de classes, usufruindo os primeiros minutos de sua nova liberdade. ////
ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA
Numa quarta-feira, cinco da matina, mal raiava o dia, X fechou com cuidado a porta do quarto depois de deixar o bilhete de despedida (onde não disse nem a metade do que pretendia desabafar) em cima da cômoda, esgueirou-se pela porta da cozinha, trancou com cuidado a porta dos fundos, jogou a chave por debaixo da porta, pegou o elevador e ganhou a liberdade da rua. Levava a carteira de identidade e uma leve impressão que já ia tarde.
Quando Y acordou, por volta das onze, já abriu o olho gritando impropérios com sua voz de maritaca, rogando pragas e amaldiçoando o companheiro de tantos anos. Frustrado por não avistar seu saco de pancadas, percorreu todo o apartamento enrolado num lençol, espumando de raiva. Só depois de meia hora encontrou o bilhete, que leu, lívido de decepção. Então “ele” escapara na calada da noite, abandonado mesmo as roupas caras que lhe dera, e que eram cobradas com ironias ferinas, dia sim, outro também. “ – Covarde!” esbravejou diante do espelho oval do banheiro, enquanto escovava os dentes. “Que não se atreva a querer voltar!”
Quando, no correr dos dias próximos, viu que X não ia mesmo retornar, nem telefonar, nem ao menos dar notícias, sentiu o vazio monstruoso dos desertos gelados. Um fofoqueiro telefonou dizendo que o tinha visto numa praia do Ceará, em ótima companhia, numa boa. Dilacerou o rosto com as próprias unhas. Com quem iria agora contracenar o psicodrama que interpretava no inferno cotidiano?
Para relaxar, seu único divertimento virou alimentar as rolinhas que brincavam na varanda. Mas até essas, impacientes e impiedosas, em pouco tempo preferiram a janela da vizinha. ////
FIM DE PAPO
Assim, começou assim. Uma coisa sem graça, coisa boba que passa, e ninguém percebeu. Foi só olhar. Depois sorrir. Depois gostar. E assim se passaram 10 anos. Tiveram aquela fase de carinho apaixonado, de fazer versos, viver sempre abraçados. Naquela base do “só vou se você for”. Vendaval de paixões. Torrente de paixões. Abismos de paixão. Mas, de repente, foram ficando cada dia mais sozinhos. Embora juntos, cada qual em seu caminho. E não tinham mais nem vontade de brigar. De repente, não mais que de repente.///
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