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Tribuna
Um mini-conto de Agamenon Tryoan

 

AGAMENON TROYAN começou a se interessar pelo cinema aos 10 anos após assistir o filme "Sansão e Dalilah", com os astros Victor Mature e Hedy Lamarr. Em 1991, passou a colecionar antigos seriados, filmes, desenhos e séries da TV. Em 2005 lançou a REVISTA DO CINEMA MACHADENSE, a primeira revista da sua cidade sobre a trajetória do cinema de sua cidade natal. Em 2006 passou a editar o Fanzine Episódio Cultural, abordando a cultura da região sul de Minas. Atualmente, está escrevendo três livros: O Lobisomem de Auschwitz , O Labirinto do Terror e um livro de poemas (ainda sem título).

 

Uma figura pálida e sombria

Conhecida pela sua hospitalidade, pelas ladeiras e as montanhas que a cercam, a cidade de Machado, no Sul de Minas, tornou-se ao longo dos anos, um foco de mistérios impenetráveis. Um deles conta a estória  de uma figura pálida e sombria, que vagava pelo labirinto de um prédio abandonado, onde outrora funcionava uma Santa Casa de Misericórdia e Maternidade. Há duas versões: a primeira, diz que uma mulher tinha perdido seu bebê durante o parto. Espalhou-se a notícia de que ela cometera suicídio, por não  suportar a perda do filho. A segunda, diz que uma pedinte enferma tinha sido estrangulada com um pedaço de corda. O suspeito: um médico residente cuja reputação, era um tanto nebulosa. Como não haviam provas que o incriminasse, acabou sendo liberado. Mas, o mistério aumentou dias depois com o seu desaparecimento.
Os vizinhos começaram a sentir um forte cheiro que emanava da casa onde ele vivia. A polícia foi chamada e, com autorização judicial, arrombaram a porta. Até mesmo os policiais mais experientes ficaram estarrecidos com o que viram: o corpo do médico se encontrava em estado de putrefação. Seu pescoço fora envolto por um pedaço corda – o instrumento usado pelo  assassino. O mistério do vulto e o assassinato ainda não esclarecido do médico, atraíram a atenção do jovem Marco Antônio, um estudante de Comunicação cujo principal interesse era desvendar  enigmas. Soube pelos avós que o estranho labirinto servia, na verdade, como desova de cadáveres de bebês. 
Determinado em desvendar esse mistério, Marco Antônio se preparou para explorar o funesto local . Partiu de sua casa, na calada da noite. Atravessou um beco escuro sem se preocupar com os viciados que ali se estavam. Subiu a ladeira até alcançar o muro que o separava do seu objetivo. Antes de saltá-lo, porém, certificou-se de que não havia ninguém por perto. Seguro de que olhos alheios não o observavam, saltou em meio a escuridão. Após subir os degraus do velho prédio, abriu, com certo esforço, sua porta frontal. Uma claridade fraca e repentina atravessou o recinto. Para visualizar melhor, utilizou-se de uma lanterna. A luz iluminou um longo corredor onde havia uma porta.
Ao abri-la, desceu os degraus que o conduziram ao âmago de todo aquele mistério: o labirinto. Retirou de sua mochila uma longa corda e, por estranho que pareça, sua lanterna deixara de funcionar. “A bateria deve ter se esgotado”, - pensou  ele, suando frio. Entrou tateando o vazio até agarrar-se a algo: uma coluna. Para não se perder amarrou a corda em volta dela.  Começou a se afastar cada vez mais, penetrando no limbo. Pisou em algo... não sabia o que era; agachou-se tateando com as pontas dos dedos. Ao pegá-lo não teve dúvidas de que se tratava de um crânio! O medo o assolou; não queria mais prosseguir.

Voltou silenciosamente agarrado à corda. De repente seu coração disparou. A corda começou a vibrar cada vez mais como se alguém ou algo estivesse tentando arrancá-la. E conseguiu... Marco Antônio caiu violentamente ao chão. Não se atreveu a erguer-se até que recuperasse os sentidos. Os minutos iam passando enquanto o temor o consumia. Levantou-se em movimentos calculados. O que quer que tenha sido, tinha arrebentado a corda. “Será que a lenda é verdadeira?” – pensou com ceticismo.

O alívio refrescou-lhe a alma ao encontrar a saída. Saiu dali o mais rápido que pode, indo para casa. Ao chegar, dirigiu-se aos fundos onde ficava o seu quarto, trancando a porta. Sua velha máquina de escrever se encontrava do mesmo jeito que a deixara. Colocou um Cd de sua banda favorita; sentou-se à mesa e começou a escrever... A canção “Play with Fire” (Brincou com Fogo), a qual ouvia, poderia sem dúvida ser o epitáfio de sua lápide. Marco Antônio estava na metade do seu “furo” jornalístico quando subitamente algo agarrou-o pelo pescoço. Sentiu o precioso ar faltar-lhe aos pulmões. Seus olhos se sobressaltaram. Começou a se debater desesperadamente. Naquele fatídico momento, a vida escapava-lhe como areia entre os dedos... Parou de se debater...

De manhã, a mãe de Marco Antônio acordou. “Tem alguma coisa errada!” – dizia sua intuição. Foi até o quarto do filho; chamou por ele, mas não obteve resposta. Tentou abrir a porta; estava trancada. Aflita, chamou os vizinhos que prontamente vieram em seu auxílio.

Ao arrombarem a porta, depararam-se com uma cena macabra: o corpo de Marco Antônio caído ao chão... estrangulado com um pedaço de corda! O desespero tomou conta de todos! A polícia foi acionada; contudo, as investigações para se descobrir o culpado não surtiram êxito. Mais intrigante ainda foi o desaparecimento de um cofre dos arquivos da Polícia, um dia antes, contendo provas de antigos crimes ainda não esclarecidos. Os dias se passaram... o frio chegou mais intenso e as noites mais sombrias. O silêncio sepulcral do velho prédio atraíra a atenção de uma pedinte enferma que passava. Enquanto na escuridão do labirinto, algo vagava... Uma figura pálida e sombria.


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Chico Lopes é escritor, pintor e crítico de cinema. Publicou os livros de contos Nó de Sombras e Dobras da Noite.




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